Olhar Direto

Quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Opinião

A Minha, A Nossa História

Autor: Lêda Maira

07 Abr 2013 - 19:33

“Não vamos misturar [...] cantoria do Cururu e as danças do Siriri, [...] serão em outras ocasiões, como é o caso do festival da dança que acontece todos os anos. [...] apresentamos o Siriri no dia que o caminhão da sorte da Caixa Econômica Federal, esteve aqui. Este ano levaremos essa dança pra Lima, capital do Peru e vamos mostrar a força de Cuiabá.” (Secretário de Cultura de Cuiabá, em 27/03/2013. www.olhardireto.com.br).

Assimilar “não misturar” ao exercício da cultura, quando o anseio é por diálogos que compreendem a noção das raízes culturais; apoios para o desenvolvimento de interesse ao valor destes bens, perfazendo alicerces, não esvaziando reações, conquistas, autenticidade, conhecimento, é, perceber-se em porto seguro, não ficando à deriva, ao sabor de... desapontamento? Talvez. Mas, o pensamento não deve ser este, até porque, não misturar é o mesmo que confundir, no caso dos grupos citados, vemos que um é cantoria e o outro é dança, quem sabe seja esse realmente o motivo.
No 08 de abril, vestimos a aniversariante. O sentido é de anfitriã, pré/sentes/assimilados/limitados, nosso folclore, bens culturais de uma sociedade não comparecer ao ensejo, oportunidade de engajamento, inteirando contemporaneidade de gerações em produção, de conhecimentos, cuidando deste e daquele expectador em comunhão do pão.

"Se tiverem pão e se eu tiver um euro, e se eu vos comprar o pão, eu ficarei com o pão e vocês com o euro e vemos nesta troca um equilíbrio: A, tem um euro, B, um pão. Mas se vocês têm um soneto de Verlaine, ou o Teorema de Pitágoras, e eu não tenho nada, se vocês me ensinam, no final desta troca eu terei o soneto e o teorema, mas vocês também. No primeiro caso há um equilíbrio, é a mercadoria, no segundo há um crescimento, é a cultura" (Serres).

A memória e a tradição, são valores em orbita ao conhecimento, que vem traduzindo costumes, crenças, histórias, se apresentando, aprimorando e reproduzindo. São diversas linguagens se “misturando” e identificando a própria arte, de um povo, grupo, etnia. As “cantorias e danças”, alicerçando Ser/Tido, em dimensão do desejo, de crescimento impulsionador dos movimentos em busca de saberes, pretéritos acumulativos; se adaptativos e receptivos à releituras, esmeram e agregam interesses multidisciplinares, ocasionando interesse e oportunidades aos descendentes.

"o folclore não é como se pensa, uma simples coleção de fatos disparatados e mais ou menos curiosos e divertidos; é uma ciência sintética que se ocupa especialmente dos camponeses e da vida rural e daquilo que ainda subsiste de tradicional nos meios industriais e urbanos. O folclore liga-se, assim, à economia política, à história das instituições, à do direito, à da arte, à tecnologia, sem, entretanto confundir-se com estas disciplinas que estudam os fatos em si mesmos de preferência à sua reação sobre os meios nos quais evoluem.” (Gennep).

Os significados de “outro”, (não estar presente), de “Ocasiões”, (circunstância, oportunidade favorável à realização de alguma coisa), neste contexto, nosso folclore, quando inicia sua ciranda colorindo o espaço, espalhando as estampas de suas roupas, o som de instrumentos nativos, o canto em um tom e linguajar único, é uma mistura contagiante de outras histórias - se contadas, vividas – mitos e personas; o que realmente é especial é o respeito à liberdade de perpetuar a história.

“A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em libertá-los deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação.”

(P.Fernando).
Comemorar implica “It cultural”, abrangência vertical e horizontal. Norte, sul, leste e oeste, sejam deste ou daquele povo em reunião sociocultural, estarão elaborando suas educações espaciais e estas registradas em linhas do tempo.

O ser humano carrega em si sua cultura própria, que o entusiasma em presteza, ainda que despercebido o orgulho ao seu berço. Quando cultivando esta cultura, estará destinada a espalhar suas sementes, focando caminhos que as levem pelo mundo, cumprindo seu valioso papel ao conhecimento, à troca e assim, saciando novas gerações suplicantes de propostas de união, expansão criativa e discussões por parte de seus gestores. Estes, os gestores, em viabilizar junções, conduzindo à promoção creditada ao seu berço; compreendendo as mudanças como mantenedoras à receptividade, fortificando temporalidades históricas, atraindo este povo às observações pertinentes às criações, as novas referências e aos indicadores de novos tempos, que juntadas, repetem o ciclo causando regências investigadoras, ampliando conhecimentos transformadores, capazes de esclarecerem a simultaneidade própria de cada povo.

Bem, o tempo neste momento é seu Cuiabá! Parabéns pra você! Sempre! Com o desejo que tenha uma visão global do conhecimento de valores das culturas, que esteja sempre em prosperidade e possa estabelecer vínculos frutíferos em ampla harmonia de entendimentos. Desejos estes, mais que implícito na responsabilidade do seu povo, dos seus habitantes, que são seus gestores; e que os momentos oportunos à apresentação da nossa cultura - ponto nevrálgico e propulsor patrimonial cívico - retratando a contribuição afetiva sentida do Eu, em orgulho nativo, com sentimento criador, mantenedor deste amor/orgulho que explode e se espalha; todos serão de alguma forma, tomados como cuidadores desta e daquela cultura. São cidadãos em desafio. Esta percepção seja em conhecimento extrínseco e tecnológico; conhecimento gera cultura, arte em abundancia com alfabeto próprio e links de comunicação e participação, fartando revelações, desdobrando conceitos e preceitos em ser e estar no mundo para o mundo.

“Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou aos conceitos
e terminou com ideias.” (I.Kant).
E neste sentimento de criador estimulado pelo amor, há de se posicionar consciente da comunicação pública, dos versos do cidadão, onde pareceres atende patamares diferentes, como exemplo: Folclore não atende o desejo desta comemoração. Lamentável, mas por outro lado podemos entender ser ingenuidade a singeleza deste presente – os meus parabéns - diante dos 294 anos de história deste povo.

É, mas minha imaginação é democrática e discursa para iguais. Não sei. Só sei que continuo dialogando à procura de ideias, onde pareceres iguais são desejos de construção, junção em prol do desenvolvimento sustentável à todas as situações; e acredito e credito a Arte a ação de identificação e compreensão do Eu sujeito ou objeto, constando em ambos os lados a sábia essência da arte. E dentro deste creditar me sinto recepcionada e venho com muito carinho parabenizar seus 294 anos afortunados - dos quais já usufrui e me permitiram construir 29 anos da minha história - mas diante do exposto sobre “singeleza”, entendo o quão sou, mas continuarei culturando minha arte, servindo-me de seus dias, seu sol ardente, suas praças, seus pássaros, ruas e casas. De suas noites sejam com chuva como agora, ou com a lua surgindo oficializando sua real e escancarada beleza narrada em poema cantado, rodeada pelas estrelas, “chuva de prata” sobre um céu que majestosamente ilude não estar tão longe de nós, proporcionando imaginário de um céu próprio, que se esparrama só aqui.

Ser “pau rodado” me faz sentir, imaginar em águas do seu rio, que sobe e desce, que conhece cantos e encontros, banhando seu pantanal, que já inspirou tantos de meus afazeres. Andar seu centro histórico em sol como já disse; ardente, me traz Maria Taquara, que, aliás, casei-a com o Museu da Caixa d’Água. É, os dois têm coincidências, que causou a união. Estão felizes e a bem da verdade – para sempre – sem que a morte os separe.

Sinto que a parabenizada sou eu, aliás, eu e você já sabemos disso. Mas, em respeito à tradição e consciente de sua essência, nós seus usuários, nativos ou visitantes, me permitam agradecer e lhe desejar Feliz Aniversario! Esperando fazer jus a sua história, e já me sentido um pedaçinho – espero - significante. Hum? Obrigada! Você sempre gentil, calorosa. Estou ao dispor de suas reais necessidades, empenhada aos seus propósitos e que minha parte faça parte do seu crescimento, seus costumes – insubstituíveis - de sua preservação e conexão.

Sua saúde cultural é passaporte - sejamos natos ou acolhidos - aqui estamos e a minha, a nossa história, esta sendo gravada em sua carta de apresentação.
Lêda Maira – Artista Plástica – Arteterapeuta
ledamaira@gmail.com

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