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Terça-feira, 22 de agosto de 2017

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"Não devemos ser vistos como folclore", alerta indígena sobre o 19 de abril

Da Redação - Isabela Mercuri

19 Abr 2017 - 17:00

Foto: Arquivo Pessoal

Libério Uiagomeareu

Libério Uiagomeareu

Libério Uiagomeareu tem vinte e oito anos de idade. Nasceu na aldeia Meruri, que faz parte do povo Boe. Há alguns anos, se mudou para Cuiabá para estudar direito na Universidade Federal de Mato Grosso, onde atualmente faz mestrado. Sua realidade, no entanto, é diferente de muitos outros indígenas no estado: em 2015, uma pesquisa feita pela Fundação Nacional do Índio mostrou que havia apenas 140 índios de Mato Grosso no Ensino Superior.

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Outra diferença de sua realidade é que seu povo, os BOE, tem sua terra demarcada, ou seja, reconhecida como sendo de direito originário dos indígenas. Atualmente, 114 povos aguardam estudos da Funai para conseguirem a demarcação de terra.

Para Libério, este é um dos principais problemas enfrentados pelos indígenas, além, é claro, do preconceito. “Depois da invasão dos portugueses, nunca mais o índio teve uma vivência com plenitude e em paz”, lamenta. “Hoje temos retrocessos de direitos, falta de demarcação de terras de alguns povos indígenas no país, e principalmente as grandes investiduras nas terras indígenas, que é objeto de ambição do Capitalismo existente, gerando preconceitos, violência de todas as formas”.

Libério é um dos 817.962 indígenas do Brasil. O número não é exato, já que o último censo foi feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2010, mas é possível ter um panorama: em 1500, quando os portugueses chegaram ao país, havia três milhões de indígenas vivendo aqui, ou seja, 100% da população. Hoje o número corresponde a 0,26% dos brasileiros. Só em Mato Grosso, são 51.696 pessoas, sendo que 42.525 vivem em terras indígenas e 9.171 vivem fora dessas terras.







Dados: IBGE / Funai

Apesar de serem muitos, os indígenas são, geralmente, esquecidos. Libério explica que o dia do índio, comemorado neste 19 de abril, pode ser benéfico ou não para eles. “Na minha concepção se traz [benefícios] indiretamente, uma vez que grande parte das escolas fazem seus alunos se enfeitarem de índio. Isso mostra a eles que há indígenas no Brasil”, comenta. “Infelizmente só neste dia que se vestem de índio, e não se fala da realidade, da diversidade e do respeito ao modo de viver e se relacionar com o meio em que vivem”.

Ele explica, ainda, que uma boa forma de mudar essa realidade seria mudar a forma de enxergar o indígena. “Devia se mostrar o índio não como um folclore, mas como parte da sociedade brasileira, e talvez aí o preconceito retrocedesse em longo prazo”.

Para os indígenas da aldeia de Libério, não só o dia 19, mas todo o mês de abril é um mês de discussão: “Nos  Libério e  Lucimara Patté durante o Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas (Foto: Arquivo Pessoal)lembramos da luta de nosso povo, e que devemos ter o compromisso de continuar resistindo. Por isso geralmente nas aldeias há uma semana intensa de discussões sobre a realidade indígena, e também de celebração cultural”.

Além da cultura, muitos indígenas de todo o país viajam a Brasília para discutir os avanços e desafios que cada povo tem enfrentado. Atualmente, segundo Libério, a necessidade máxima é a demarcação das terras e a aprovação do ‘Estatuto das Sociedades Indígenas’, projeto de lei do senador Telmário Mota (PDT-RR) que propõe, em quase 200 artigos, um marco legal que conceitua o indígena, garante o direto à manutenção das florestas nativas e trata de temas como saúde e educação para esse povo, mas que ainda não foi aprovado.

 Libério e  Lucimara Patté durante o 
Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas (Foto: Arquivo Pessoal)

“Gostaria de dizer ao não índio, que acima de tudo necessitamos unicamente de respeito, e que nos reconheçam como povos com diversidade, e que buscamos apenas uma coisa: viver com dignidade ao nosso modo”, finaliza.
                                                                                                   
Dia do Índio

Dezenove de abril foi determinado como o Dia Nacional do Índio pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1943. A data foi escolhida porque foi o primeiro dia em que os indígenas compareceram ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, que aconteceu no México, em 1940.

Em Mato Grosso, diversas atividades são realizadas em alusão ao dia, tanto para comemorar quanto para conscientizar sobre a atual situação dos povos indígenas. Na Universidade Federal de Mato Grosso, a partir das 19h, a presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Lia Zanotta Machado, o procurador da república Ricardo Pael e Libério participam da Conferência “O Estado Brasileiro e os Povos Indígenas”. Além disso, haverá lançamento do livro com apresentação da obra “Etnomapeamento do Povo Kura”, feito pelo Instituto Yukamaniru de apoio às Mulheres Bakairi.

Já em Rondonópolis, no Museu Rosa Bororo (centro da cidade), a exposição indígena "Sempre Boé - O Ser Bororo se Fortalece no seu Dia a Dia" traz 49 fotos e vídeos da comunidade indígena Bororo da Aldeia de Tadarimana. A mostra permanece até dia 31 de maio. 

*Com informações da Funai
 

4 comentários

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  • El Cid
    20 Abr 2017 às 08:55

    Produzir pelo menos para o seu sustento, ele não fala nada né? Quer terras, Hilux, viajar de avião, prabólica, TV, CD player, DVD, internet, Celular, motocicleta, bola, alimento fresquinho do supermercado etc e tal, tudo por conta dos brancos que trabalham e produzem, pagando altos impostos. Ainda falam mal dos portugueses que desde o início, tiveram o maior cuidado com eles, assim como os jesuítas que vieram justamente ensiná-los a não se submeterem ao jugo dos exploradores.

  • Moa
    19 Abr 2017 às 19:00

    “Hoje temos retrocessos de direitos, falta de demarcação de terras de alguns povos indígenas no país, e principalmente as grandes investiduras nas terras indígenas, que é objeto de ambição do Capitalismo existente, gerando preconceitos, violência de todas as formas”. Reclama ser culpa dos portugueses, por faltar tudo que foram exatamente os portugueses que trouxeram ao nosso país. Usa argumentos contrários ao capitalismo mas usa roupas, usa transporte (privado ou coletivo tanto faz), gosta de ter energia elétrica, ar condicionado e tudo do melhor em sua faculdade além ter celular, acesso à internet, etc....

  • Ademir
    19 Abr 2017 às 18:59

    Uma, somente uma pergunta ao indio Libério Uiagomeareu, porque vários de tribo fazem vários pedágios forçados com armas, flechas, ameaçando quem transita por rodovias, e se não der o dinheiro que querem podem ser considerados bons!!! Isso não é crime!!! E já não basta ajuda de FUNAI, de prefeituras, de governos, de ongs, de todos e ainda assaltam, ameaçam irmãos brasileiros!!

  • Anderson
    19 Abr 2017 às 18:03

    Vamos por esse povo pra trabalhar Brasil!

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