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Quarta-feira, 18 de outubro de 2017

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Mestre em taekwondo e único árbitro internacional de MT abre academia e ganha a vida como motorista de Uber

Da Redação - Isabela Mercuri

03 Jun 2017 - 09:13

Foto: Arquivo Pessoal

Mestre em taekwondo e único árbitro internacional de MT abre academia e ganha a vida como motorista de Uber
O interesse do cuiabano Luis Drosghic Mendoza, 43, pelo taekwondo surgiu ainda pequeno, quando, em 1986, a vizinhança na Vila Militar o apresentou a arte marcial. Trinta anos depois, faixa preta com 6º grau (ou Dan), mestre e árbitro internacional do esporte, ele abriu uma escola em Várzea Grande e, para pagar as dívidas, passou a ser motorista pelo aplicativo Uber.

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O caminho até aqui foi longo. Antes de se encontrar no taekwondo, ele chegou a fazer judô com o pai de David Moura e também karatê. “Eu era uma criança gordinha, e nunca gostei de esportes coletivos porque sofria bullying. O taekwondo foi onde me encontrei”, lembra.

As aulas na Vila Militar acabaram quando Luis começou a estudar eletrônica na Escola Técnica Federal (hoje Instituto Federal). Foi nessa época que ele conheceu o mestre Kwang Sooshin, com quem aprendeu boa parte do que sabe. “Eu nunca parei. Dei uma pausa quando fui pra São Paulo, mas também procurei uma academia por lá, e voltei em 96”. Na capital paulista, ele se formou em física.

De volta a Cuiabá Luis se tornou faixa preta em 1997, após onze anos de treino, e no ano seguinte, após fazer um curso com a Confederação Nacional, se tornou árbitro nacional. Sua primeira competição foi em 2000, em Brasília. “Eu viajava pelo Brasil três, quatro vezes por ano para os principais campeonatos, além de participar das seletivas mato-grossenses”.

Foram mais de doze anos até se tornar árbitro internacional. Para chegar lá, o cuiabano precisava – obviamente – ser árbitro nacional, possuir faixa preta no mínimo de 4º Dan, ter domínio da língua inglesa, conhecimento sobre o esporte, pagar a taxa do curso e conseguir  uma assinatura do presidente da Confederação Nacional.



Em 2013, então, ele passou a ser da Federação Mundial de Taekwondo, e participou da primeira competição internacional em Lima, no Peru. De lá pra cá, já foi para os Estados Unidos, Canadá, México, Costa Rica, Argentina, Bolívia, Paraguai, Reino Unido, Turquia, Azerbaijão, Rússia, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul e Filipinas.

O sonho das Olimpíadas



Assim que se tornou árbitro internacional, Luis começou a se preparar para realizar o sonho de trabalhar nas Olimpíadas. Ele foi selecionado para o ‘Camping de Treinamento’, nos Estados Unidos, junto a outros dez árbitros das Américas. Havia somente uma vaga para o Brasil, e estavam no camping ele e mais um colega.

No total, o Comitê Olímpico tinha 30 vagas para árbitros de todos os países. Luis chegou a ficar entre os 50 finalistas, e competia por uma vaga somente com o outro brasileiro. “No entanto, por questões políticas, a Confederação Nacional conseguiu – com a influência que tinham com o comitê – cortar a participação dos árbitros brasileiros. Nenhum de nós dois foi para os jogos”, lamenta.

Frustrado, após um ano de preparação e mais de R$30 mil gastos (já que nenhuma passagem para nenhum campeonato é custeada, ou seja, saem todas do próprio bolso), ele decidiu aceitar a situação. “Eu não ia comprar uma briga com o Comitê Olímpico, né?”.

Agora, Luis já começou a se preparar novamente para, quem sabe, participar das Olimpíadas de Tóquio, em 2020. “Existem várias exigências para conseguir a vaga. É preciso estar em boa forma física, participar de competições em todo o mundo e só é permitido recusar uma vez os convites para eventos oficiais da Federação Mundial”, explica.

A crise e o Uber

Foi procurando uma profissão que lhe desse flexibilidade para viajar que Luis decidiu começar a dirigir o Uber. “Eu sempre trabalhei em uma empresa do meu pai. Teve uma época que tivemos uma agência de viagens e também temos um hotel. Em 2001 eu perdi o meu pai, e minha família passou por dificuldades”, lembra.

Em 2016, anos depois, ele também fechou um restaurante por conta da crise. “Eu estava muito endividado, e o hotel continuava com dificuldades, além de ser uma herança e estar com a família. Na ideia de cada um por si, e pensando em algo flexível para que eu pudesse viajar, comecei a dirigir pelo Uber”.

A ideia deu certo. Hoje, sendo pessimista, Luis consegue tirar pelo menos R$600 por semana, já subtraindo desse valor os custos de combustível e manutenção do carro. Isso dirigindo uma média de seis a sete horas por dia (inclusive sábados e domingos). “Eu gosto. Acho uma experiência legal ter esse contato com as pessoas, aprender com a realidade humana, seja boa ou ruim”.

Apesar de ter dado certo, a ideia de Luis não é continuar a dirigir Uber para sempre. “Eu vou terminar de pagar minhas dívidas em agosto, e depois disso começo a juntar dinheiro para financiar minhas viagens para conseguir ir para as Olimpíadas. Porque, como já deu pra perceber, pelo menos no Brasil não tem como viver do Taekwondo”.

Esporte X Arte



Apesar de ser árbitro internacional e buscar o sonho das Olimpíadas, Luis vê diferenças nítidas entre o taekwondo como esporte e como arte marcial, e acredita que, em nome das competições, muito da filosofia se perdeu.

“Quando o taekwondo se tornou Olímpico, nas Olimpíadas de Seul em 1988, foi necessário implementar várias regras, como por exemplo: não pode chutar a perna, não pode dar golpe no rosto. Isso não existe na arte marcial em si”, explica.

Para além disso, que era necessário para que os atletas não se machucassem, a crítica fica na parte teórica. “Hoje em dia você pode perguntar para um atleta sobre a teoria, o estilo de vida do taekwondo, que muitos vão desconversar. Eles aprendem a técnica para vencer a competição e só”.

Por este motivo, existe um ‘prazo de validade’ para os atletas, enquanto os mestres – como Luis – continuam como mestres até morrer. Para se ter uma ideia, Luis está no 6º nível da faixa preta aos 43 anos, e para chegar ao 9º ainda faltam pelo menos dezenove anos. “O 10º Dan só é dado post mortem ou como homenagem, título honoris causa, como foi dado ao Papa Francisco e ao presidente da Rússia, Putin”.

As aulas

Para continuar fazendo o que ama e conseguir ter mais uma fonte de renda, o mestre inaugurou junto ao colega Ricardo Matos o ‘Centro de Lutas TK – Fight & Defense’, em Várzea Grande. No local, que fica ao lado do Hotel Las Velas (hotel da família de Luis), são ministradas aulas de taekwondo e Krav Magá.

No entanto, apesar de toda a experiência e prestígio internacional, Luis ainda não tem turmas formadas. Ele oferece horários pela manhã e à noite, para pessoas de qualquer idade. Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho dele, pode entrar em contato pelo telefone (65) 99981-2063 ou pela FAN PAGE. 

5 comentários

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  • Linda beatriz
    23 Ago 2017 às 08:31

    sempre quis fazer taekwondo

  • Linda beatriz
    23 Ago 2017 às 08:31

    sempre quis fazer taekwondo

  • José Raul Vilá Neto
    04 Jun 2017 às 10:14

    Fiz uber por 4 meses, já faz 2 meses que parei chegando a conclusão de trabalho desgastante e pouco lucrativo.

  • Diogo
    03 Jun 2017 às 14:27

    parabéns, não pode deixar a peteca cair ...

  • Gustavo Monteiro
    03 Jun 2017 às 12:56

    Mestre Luís, faz parte da velha guarda do Taekwondo Matogrossense. Tem experiência de sobra. Parabéns pela matéria.

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