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Sexta-feira, 24 de novembro de 2017

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Mulheres estão cada vez mais parando de alisar seus cabelos e voltando a usar cachos

Da Redação - Letícia Ferro Ferraz

16 Jul 2017 - 14:30

Foto: Arquivo Pessoal

Sara após o processo de transição capilar

Sara após o processo de transição capilar

A identidade pessoal está diretamente ligada ao modo como nos apresentamos, uma das principais caraterísticas pessoais onde demonstramos um pouco de quem somos, é o cabelo. Ele conta um pouco da personalidade, história e cultura de cada um. E cada vez mais há pluralidade e diversidade de identidades e histórias pessoas. Um dos tipos de cabelo que estão se tornando mais populares são os crespos e com cachos.

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Várias pessoas estão passando pela transição capilar, um processo que busca voltar à textura original dos fios, com a parada de uso de produto químicos de alisamento, voltando assim aos cabelos com cachos, crespos e ondulados. A transição pode ser feita de duas formas, cortar a parte alisada aos poucos, ou fazer isso de uma só vez, que é a técnica conhecida como big chop. De qualquer maneira, a transição é longa e geralmente muito íntima de cada pessoa, que na maioria das vezes envolve um processo de “reconciliação” com seu cabelo natural.



A estudante universitária de 21 anos, Carol Pedrozo, conta que começou a alisar o cabelo ainda criança, principalmente por influência da família. “Comecei com 10, 11 anos de idade, na época minha família me levava no salão para fazer apenas relaxamento no cabelo, mas depois de um tempo, meu cabelo não tinha mais forma alguma, e me sentia obrigada a alisar o cabelo porque achava ele feio.” relata Carol.

Carol resolveu começar a transição só em 2014, e diz que foi libertador e assustador no começo. “Alisei meu cabelo durante oito anos, aliás, nunca tinha percebido que fiz isso (alisamento) por tanto tempo. Durante o ano de 2014, percebi que não precisava de cabelo liso para ser bonita, além de não fazer mais idéia de como era meu cabelo natural. Foi assustador e libertador ao mesmo tempo, libertador pois percebi que, quem deveria se sentir bem era eu, que não deveria fazer algo por causa do que outros acham bonito em mim. E assustador porque não sabia o que fazer, por onde começar, e se teria apoio para passar por isso.” diz Carol.

Durante o processo, Carol teve que passar pelo processo por várias vezes, e em uma delas, quando foi ao salão fazer uma reconstrução, o cabeleireiro fez um relaxamento gratuito como uma surpresa para agradar-lá, “Isso me desmotivou muito, e foi muito mais difícil passar por essa transição.” Ela não cortou o cabelo de uma só vez, deixou ele crescer até o ombro a parte natural durante duas vezes e cortou um pedaço da parte.

Carol Pedroso ainda com os cabelos lisos

Após o corte, Carol se sentiu libertada, tinha tirado não apenas um pedaço do seu cabelo, mas também todas as coisas horríveis que já tinha escutado sobre ele. Isso mudou completamente sua relação com o cabelo, “Minha relação é maravilhosa, hoje eu amo ele. Estou aprendendo ainda do que ele gosta, mas quando me olho no espelho, vejo uma mulher mais linda que antes, e mais confiante também. Até nos dias em que amanhece parecendo uma juba, consigo ver seu charme.” diz Carol apaixonada por seus cachos.

Já Sara Espírito Santo, Publicitária de 22 anos, conta que sempre teve apoio em casa para usar seus cabelos naturais. “Eu tive a sorte de ter uma super mãe, uma mulher maravilhosa, que entendia meu cabelo. A maioria das técnicas que vejo online sobre cabelos crespos, minha mãe já usava em mim há vários anos. Ela me ensinou a gostar do meu cabelo desde criança.” revela, “Quando criança usava o que hoje, as blogueiras chamam de twist o tempo todo, aos doze, treze comecei a usar rastafaris, e quando fiz 17 alisei. Fiz por vários motivos, na época era muito jovem, e me importava demais com a opinião dos outros. Hoje eu me arrependo de ter alisado, passei um ano com eles lisos e decidi voltar a meu cabelo natural.”



A questão capilar sempre teve grande influência na identidade de Sara, “Quando saía na rua, ouvia diversas coisas desagradáveis sobre meu cabelo, mas quando eu chegava em casa, eu tinha o apoio da minha família. Para uma criança é muito difícil lidar com o preconceito, por isso, e sem sombra de dúvida, essa base familiar foi muito relevante para formação da minha identidade.” completa ela.

Após passar 17 anos com os cabelos crespos, Sara não se reconhecia naquele cabelo alisado, ela não gostava da textura, do cheiro dos produtos, além da constante preocupação com a chuva, volume. “Abrir mão da química para assumir o cabelo natural é um grande desafio.  Antes de qualquer decisão sobre o corte dos fios, busquei informações sobre as fases de uma transição, e segui em frente. Cortei toda a parte com química do meu cabelo e ele ficou bem curto. Mas, bem curto mesmo. Eu quase não me reconheci no espelho. Me senti livre e ao mesmo tempo feia.  Com isso, tomei mais uma decisão e voltei a usar tranças até que meu cabelo crescesse novamente.”

Sara ressalta que ver outras mulheres quando entrou na universidade, iguais a ela também assumindo seu cabelo natural, foi um grande estímulo. “Me fazia sentir que não estava sozinha nessa.” ela lembra. Durante sua transição ela usou e abusou da criatividade e de estilos, texturas e cores durante o processo. “ Me diverti, coloquei cabelos coloridos, texturas cacheadas, ruivas, enfim, inovei. Depois que eu tirei os apliques, decidi usar o meu cabelo natural, foi bem legal também. No começo foi difícil, mas usei mesmo assim, valeu a pena, me redescobri.”

Alexandre Cervi, cabeleireiro e especialista em transição capilar, conta que o segredo é ter paciência. “A transição é uma fase de determinação e paciência, especialmente  nos momentos em que ficam duas ou mais texturas no cabelo. Sempre tem alguns truquinhos que ajudam - umas amassadas ou finalizadas nas pontas/partes mais lisas pra tentar acompanhar a raiz cacheada ou crespa, às vezes rolam umas escovadas que amenizem o contraste liso-crespo, umas disfarçadas com coque ou rabo de cavalo, acessórios de cabeça, etc.”

Um dos truques é sempre hidratar bastante, para ajudar o cabelo a crescer saudável, além de conhecer história de pessoas que já passaram pelo processo e possa usar de inspiração. “É importante dar aquela desapegada durante as fases "no meio do caminho" para que o tempo passe, o cabelo se renove e seja possível concluir logo a transição.” completa Alexandre.

Porém a questão de usar ou não cabelos crespos, transpassa a questão estética, e se entrelaça na questão de autoestima e também no racismo, já que historicamente, o cabelo crespo é uma característica de pessoas negras. “Nós, mulheres negras somos submetidas o tempo todo a um padrão de beleza que jamais faremos parte por mais que dediquemos a vida a isso.  Por esse motivo, é muito difícil assumir e amar os cabelos crespos como são em sua genuinidade. Acredito que o cabelo e a cor da pele são uma dupla inseparável.  São a raiz e a herança de um povo. Muitas pessoas se deixam levar pelo que vêem na televisão e não buscam conhecer melhor suas origens. “ complementa Sara.

Quando perguntas que conselhos teriam para quem está pensando em passar pela transição elas indicam que a pessoa tenha persistência. “Tenha força. Vai demorar e provavelmente será muito difícil no início, principalmente se não sabe se quer fazer o big chop ou não. Mas uma hora a transição vai terminar e com o tempo, você vai reaprender a se amar, e perceber que o mais importante, é estar bem consigo, não o que outros falam.” diz Carol.

3 comentários

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  • Paulo Rodrigues
    17 Jul 2017 às 16:06

    Alexandre WHO?

  • Kelia
    17 Jul 2017 às 08:53

    Os cabelos cacheados e crepos estão cada vez mais lindos, parabéns a todas as mulheres que estão aceitando seus cabelos como são, eu adoro meus cachos. E depois que o Alexandre Cervi, começou a cortar, estou mais apaixonada. Alexandre Cervi é um profissional maravilhoso e dedicado no que faz.

  • Ana
    17 Jul 2017 às 00:47

    Cabelo não faz de ninguém caráter sim.

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