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Terça-feira, 20 de novembro de 2018

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O poeta-andarilho e mendigo, que fazia músicas e poemas para Cuiabá, virou nome de parque: Zé Bolo Flô

Da Redação - Marianna Marimon

14 Fev 2014 - 12:00

Foto: Reprodução

Esta é a única imagem que se tem de Zé Bolo Flô, com o santo em mãos, de camisa listrada, de baixo porte, negro e cabelos crespos

Esta é a única imagem que se tem de Zé Bolo Flô, com o santo em mãos, de camisa listrada, de baixo porte, negro e cabelos crespos

Um poeta-andarilho. No fim da vida, taxado como louco e institucionalizado como tal, morto como um indigente, sem nome, missa ou flores. Nascido como José Inácio da Silva, eternizado como o folclórico Zé Bolo Flô. Agora é nome de parque na cidade que tanto amou e poetizou, Cuiabá dos seus encantos e desencantos, a qual retratou em versos e letras de canções que nunca cantou. Desde criança, ao cantarolar “eu vim, eu vim, eu vim de lá para cá, eu sou, eu sou, eu sou de Cuiabá/ terra de Dom Aquino/ me lembra os tempos de menino/ jogava peteca/ soltava ioiô/ brincava com o Zé Bolo Flô”, sequer imaginava que se tratava de uma música da autoria do poeta-mendigo, meio louco, meio gênio, que carregava consigo um saco de estopa com todas as letras que povoavam a sua imaginação febril.

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Foi durante as décadas de 1960 e 1970, que Zé Bolo Flô ao perambular por Cuiabá, se consolidou no imaginário popular da cidade. O apelido foi dado pelos cuiabanos, que tinham deste costume para caracterizar o dia a dia com seus personagens. De origem humilde, para se manter enquanto vivia de favor na casa de uma família tradicional, José Inácio da Silva vendia bolos e flores no centro de Cuiabá. Por isso, ficou conhecido como Zé Bolo Flô.

Era sujeito atrevido na sua humildade sensível. Adentrava as principais missas da cidade, com suas roupas maltrapilhas, um terno desgastado e uma camisa desbotada, e assim, com o saco nas costas, parava em frente ao altar, rezava e ia embora. Sempre carregava um santo para proteção. Religioso, estava em todas as festas de santo e acompanhava as esmolas do Senhor Divino. Ainda vivo era um símbolo, sua presença era festejada nestas festas públicas, e o poeta mendigo transitava entre as classes médias e pobres, mas era visto com maus olhos pela alta elite cuiabana, que torciam o nariz quando invadia a igreja com sua presença humilde.

Pintura de Dalva de Barros retrata Zé Bolo Flô no altar da Igreja com o saco ao lado
O poeta popular foi tema até de dissertação de mestrado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) de Sílvia Ramos Bezerra sobre estudos literários e culturais, que contribuiu para entender melhor o que foi e como chegou a esta representação de ícone cuiabano. Com depoimentos colhidos dos cuiabanos antigos, ali contam que Zé Bolo Flô era semi-analfabeto.

Seus poemas eram criados em sua mente fervilhante, e ganhavam o papel com a ajuda dos estudantes que passavam pela Praça Alencastro, um dos pontos que o andarilho estava sempre presente. Cuiabá passava pela transformação de cidade pequena para cidade grande, borbulhante, um caldeirão de pessoas, transeuntes, dos quais Zé Bolo Flô tirava inspiração para suas poesias e canções. A musicalidade corria em suas veias poéticas. Compunha, cantava ou recitava, e quem passava pela praça o ajudava a colocar no papel, que logo ia para alguma gráfica, virava folheto e se espalhava por Cuiabá.

A inspiração pela cidade transpirava de boca em boca, de folheto em folheto, de causo em causo. Zé Andarilho, Zé Meio Louco, Zé Poeta, Zé do Saco. O pobre, humilde, maltrapilho, que participava dos carnavais da cidade, empolgado e alegre como ninguém, ia à frente dos blocos carnavalescos puxando os foliões. Também era lembrado nos programas de auditório, sempre ao lado dos cantores que entoavam as canções de sua autoria. Seu sonho era cantar, que nem passarinho. Não conseguia, e por isso, só se deu a criar.

E sua figura estava sempre a caminhar pela cidade, com seus poemas a marcar o compasso, e as canções a marcar o tempo. Rodopiava como em um giro e trilhava do Porto ao Centro de Cuiabá. Zé Bolo Flô estava sempre lá. Até o dia em que não esteve mais. O trancafiaram como louco no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, e lá morreu por volta de 1972 e 1974. O poeta-mendigo, o poeta-andarilho ganhou as páginas dos jornais. Morreu como indigente, mas foi lembrado saudosamente pela imprensa. E ao sair da vida entrou para a história. O mito, a lenda, o folclore que povoam Zé Bolo Flô.

Em sua mendicância, recebeu ajuda e simpatia dos cuiabanos e em troca, dava um poema, uma canção ou um verso como agradecimento. Coloria a vida dos que passavam por si, que as vezes, sem o olhar diretamente nos olhos ou sem entender sua alma rebelde e poética. Mas, o imagino a caminhar por Cuiabá, vagarosamente, com o terno amassado e a camisa velha. Nas costas, o saco de estopa, o símbolo da sua loucura, da sua caminhada incessante em busca de algo que nunca saberemos.



Dentro do saco de estopa, suas ideias, seus olhares, seus pensamentos, canções, poemas, desilusões, a solidão que gritava solene em seus ouvidos e que o mostrava o seu lugar no mundo: desamparado pelos homens, mas regido pela arte pulsante que o dominava. E sem se importar, do mesmo jeito que viveu, morreu. O saco de estopa pode ter parado no lixo, e seus poemas perdidos para sempre, mas a sua imagem continua viva, e é na memória coletiva e afetiva da cidade, que Zé Bolo Flô se fez parque, se fez árvore, caminho e flor.



18 comentários

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  • od
    26 Fev 2018 às 14:53

    Errado, em 1975 quando trabalhava no centro de Cuiaba via o Zé bolo flô dorminda no estacioanmento da Empresa Mieldici contabilidade, (onde localiza-se hoje a tecelagem avenida, esquina com a Av. Getúlio Vargas e fundo da Prainha). viveu até por volta 1978, vi-o em umas dessas festas de "Bem-bem" ao som de Baranjack.

  • Juraci Gualberto de Arruda Juraci
    05 Set 2017 às 14:17

    Alguém sabe quem canta a seguinte letra da música "Cuiabá, Cuiabá, Cuiabá dos poetas, cidade maravilhosa cheia de encanto o meu Cuiabá"...,

  • Joao Neto
    22 Abr 2017 às 14:28

    Hoje ele é lembrado com carinho, e os que torciam o nariz pra ele nada. Descanse em paz grande personagem de Cuiabá.

  • Marlene
    07 Abr 2017 às 22:36

    Tbem discordo dá data de falecimento dele. Cheguei aqui em1975 e via o Zé lá na praça Alencastro, cantando e fazendo feliz muitos que passavam... Acho que sua internação no Adauto Botelho, se deu por ele começar a beber e ficar agressivo com os que passavam por ele, mas isso se deu por volta de1978/79

  • Marlene
    07 Abr 2017 às 22:36

    Tbem discordo dá data de falecimento dele. Cheguei aqui em1975 e via o Zé lá na praça Alencastro, cantando e fazendo feliz muitos que passavam... Acho que sua internação no Adauto Botelho, se deu por ele começar a beber e ficar agressivo com os que passavam por ele, mas isso se deu por volta de1978/79

  • Maria Aparecida
    05 Abr 2017 às 18:41

    Morei por vários anos no Bairro Araés e vi por muitas vezes vi Zé bolo flô passar na nossa rua, seu andar era rápido, mas por vezes cambaleante em suas pernas cansadas e inchadas. Dê longe eu e meus irmãos ficavamos observando ele passar, no seu misto de sofrimento e alegria dentro de uma visível situação de desamparo social, para não dizer, abandono. Ainda me lembro de duas frases que ele cantarolava em alta voz assim: "...Andar de cuecaaaa, andar de calcinhaaa..., andar..." e ele continuava e sua voz ia sumindo com a distância. Discirdo com a data de falecimento de Zé bolo Flô, pois nasci em 1971 e eu devia ter por volta de 7 a 8 aninhos naquele tempo.

  • terezinha cunha garcia
    29 Abr 2014 às 21:23

    Homenagens justas e leais , bjs conterraneos queridos.

  • totó
    14 Fev 2014 às 15:49

    Ainda bem que Dalva viu zé bolo flo e o documentou em uma de suas telas em óleo sobre tela qual será doravante, o olhar de todos brasileiros.

  • dercy de arruda silva
    14 Fev 2014 às 15:29

    Conheci zé bolo flor, a minha mãe tinha uma escola de samba chamada estrela do oriente e ele desfilava na nossa escola, e vivia na nossa casa , ele o coje, o baixinho e teófilo , teófilo era aquele homem pequenino que carregava a mala do dinheiro das esmolas de são benedito , esse ia para a minha casa um mês antes do carnaval e só, ia embora um depois sabe eu sinto saudades desse povo hoje só o baixinho ainda é vivo o Zé bolo flor vivia cantando com os meus irmãos, eles tocavam violão e ele cantava. só não imaginava que depois de tanto tempo ele seria lembrado como poeta , como sempre costumamos não dar valor a nossas coisas jamais eu imaginaria Zé bolo flor sendo lembrado como poeta. temos foto dele fantasiado na nossa escola.

  • MARCO ANTONIO
    14 Fev 2014 às 15:19

    BELÍSSIMA ALÉM DE MERECIDA MATÉRIA SOBRE QUEM OUVIMOS O NOME TODOS OS DIAS MAS NÃO SABEMOS QUEM FOI, PELO MENOS NÃO EU. PARABÉNS OLHAR DIRETO. ZÉ BOLO FLÔ, SAUDADES E QUE ESTEJA COM DEUS. OLHAR DIRETO, CONTINUEM A FAZER MAIS MATÉRIAS COMO ESTA QUE RETRATAM O PASSADO DE NOSSA GENTE. OBRIGADO.

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