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Sexta-feira, 22 de setembro de 2017

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"Não olhar pelo retrovisor": os supostos encontros entre Taques, Mendes e Silval na versão do delator

Da Redação - Paulo Victor Fanaia Teixeira

04 Set 2017 - 09:20

Foto: Rogério Florentino Pereira/OD

Taques e Silval

Taques e Silval

Injetar R$ 12 milhões na campanha oponente, deixar de investir no companheiro de coligação Lúdio Cabral (PT) e “deixar tudo pronto” para o empresário Alan Malouf receber R$ 200 milhões em precatórios do Governo do Estado. Este era o preço que o então governador Silval da Cunha Barbosa (PMDB) deveria pagar para que “Pedro Taques não olhasse pelo retrovisor", ao assumir o Executivo, em 2015.

Quem afirma isto é o próprio delator, em acordo firmado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em longo relato, Silval narra as diversas reuniões que teria tido com o ex-prefeito Mauro Mendes, que assumira interinamente o cargo de financeiro da campanha do tucano, e com o empresário Malouf. Tudo com intermédio do ministro Blairo Maggi e com as participações de Luiz Pagot, Paulo Taques e Eraí Maggi.

O suposto acordo fracassou, Silval deixou de investir no médico petista, mas não doou nenhum centavo a campanha de Taques, que venceu a disputa naquele ano e, tão logo assumir o poder, determinou abertura de uma série de investigações às contas passadas do governo.

Confira abaixo trechos da delação do ex-governador:

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Narra Barbosa que em 2014, os candidatos favoritos eram Pedro Taques, pelo PSDB, e Lúdio Cabral, pelo PT. Por força de coligação (PMDB/PT), o então governador Silval Barbosa apoiava o petista, chegando inclusive a ajudar financeiramente a campanha de Lúdio.

No entanto, ainda na pré-campanha, Silval teria sido procurado por Blairo Maggi e Mauro Mendes, então prefeito de Cuiabá, “acerca da necessidade de aproximação com o candidato Pedro Taques, pois ele teria condições de se eleger”. De cara, o peemedebista ficou enfezado, perguntou “qual seria a vantagem de se aproximar de Pedro Taques?”. Tendo Blairo e Mendes afirmado que se aproximasse dele e deixasse de investir no petista, Taques assumiria o compromisso de não investigar o passado. “Pedro Taques não olharia pelo retrovisor", teriam dito os dois.

Em narrativa ao Ministério Público Federal, Silval relembra a frase supostamente dita pelo então futuro governador. “Não iria ficar remexendo nos erros cometidos nas gestões anteriores tendo Pedro Taques se utilizado também da seguinte expressão dirigida ao Declarante 'não vou ficar olhando pelo retrovisor se você não investir na campanha de Lúdio'.

Posteriormente, teria acontecido outra reunião entre o colaborador e Mauro Mendes, sendo que ness encontro o prefeito da capital falava em nome de Pedro Taques. “Mauro pediu ao colaborador auxílio financeiro para a campanha de Pedro Taques no valor de R$ 20 milhões, sendo que em contrapartida, vencendo as eleições, Pedro Taques não iria vasculhar as contas das gestões anteriores”.

Uma terceira reunião finalmente teria colocado os quatro à mesa: Silval Barbosa, Pedro Taques, Blairo Maggi e Mauro Mendes. A sede da reunião foi o apartamento do prefeito, em um condomínio no bairro Jardim Itália.

“Nessa reunião Pedro Taques pediu ao colaborador para não investir na campanha de Lúdio”, diz Silval. Em contrapartida, Taques “não iria ficar remexendo nos erros cometidos nas gestões anteriores”. O delator concordou e Blairo Maggi se interessou, pois tinha sabia que atos ilícitos “foram realizados para quitar despesas deixadas” por ele.

No fim da reunião, Silval Barbosa chamou Pedro Taques no canto e perguntou sobre o auxilio de campanha de R$ 20 milhões pedido por Mauro Mendes no encontro anterior. Taques teria respondido que o colaborador tratasse desse assunto com Mauro Mendes, não com ele. Dias depois, já no inicio da campanha, Mendes agendou outra reunião em sua casa, da qual participaram Taques, Silval e ele, sendo que nessa reunião o tucano teria reclamado ao colaborador que alguns secretários do governo Silval estavam auxiliando Lúdio Cabral na campanha, tendo inclusive citado o nome de Alan Zanata (SICME). Segundo Pedro Taques, Alan Zanata estaria distribuindo panfletos apócrifos denegrindo sua imagem.

Silval prometeu resolver o problema, tendo conversado com Alan e outros secretários, pedindo para que não se intrometesse na campanha do PSDB, tendo inclusive Zanata negado a autoria desses panfletos.

Passados mais alguns dias dessa reunião, Pedro Nadaf, então Secretário Chefe da Casa Civil, disse a Silval que teria sido procurado por Alan Malouf e que o sócio do Buffet Leila Malouf havia adiantado que a coordenação financeira da campanha de Pedro Taques a partir daquele momento seria dele e não mais de Mauro Mendes, de modo que quaisquer valores que fossem repassados para a campanha do PSDB, deveriam ser entregues a ele.
 
O grupo de Silval a princípio estranhou, insistiu que o próprio Pedro Taques havia dito que seu interlocutor era Mauro Mendes. Para comprovar sua entrada na campanha, Alan Malouf agendou uma reunião com eles e Taques, que confirmou ser o empresário seu financeiro de campanha. 

Em nova reunião, Pedro Taques, sentado ao lado de Alan Malouf, agradeceu a Pedro Nadaf e Silval Barbosa pelos esforços em prol de sua campanha. Taques “percebeu que a campanha de Lúdio Cabral estava financeiramente tímida”, diz Silval. Terminada a reunião, o colaborador pediu para Nadaf injetar recursos na campanha de Taques.

Dinheiro da JBS: 

Ao MPF, Silval acrescenta informações sobre a suposta doação a Taques:

Encerrada a reunião entre as partes, que ocorrera 60 dias antes das eleições, “o declarante (Silval) conversou com Pedro Nadaf sobre a possibilidade de utilizar o crédito de R$ 12.000.000,00 que possuíam com o Grupo JBS S/A, referentes aos ‘retornos’ dos incentivos fiscais concedidos em favor da empresa referente aos anos de 2013 e 2014; Que o declarante decidiu repassar parte desses ‘retornos’ recebidos da JBS S/A para a campanha de Pedro Taques visando honrar compromisso assumido anteriormente”.

Silval Barbosa e Pedro Nadaf teriam se reunido com Wesley Batista em São Paulo, sendo que nessa conversa o declarante disse Wesley que queria se utilizar de R$ 4 milhões dos retornos para encaminhar à campanha de Taques.

Wesley Batista concordou com o repasse, mas disse que tinha que “’amarrar compromisso para o futuro’ e por isso precisaria sentar com Pedro Taques; Que Wesley confidenciou ao Declarante que já havia ajudado Pedro Taques na campanha ao Senado com valores através de uma ‘off-shore’ para um escritório de advocacia ligado a ele (Pedro Taques)”.

Silval propôs a Wesley que encaminhasse os "retornos" diretamente a Taques por isso Wesley gostaria de conversar pessoalmente com o então futuro governador. “Que após tal reunião Pedro Nadaf e Alan Malouf foram até a sede do Grupo JBS S/A, em São Paulo, para tratar do assunto com Wesley Batista, restando definido na reunião que ele viria até a cidade de Cuiabá para conversar pessoalmente com Taques, tendo Nadaf informado ao Declarante, posteriormente, que tal encontro teria ocorrido”.

Silval deixa claro: não tem certeza que o pagamento foi realizado.  “O declarante acredita que o valor de R$ 4.000.000,00 tenha sido pago diretamente a Pedro Taques ou a outros candidatos da coligação”, pois o crédito do declarante perante Wesley de R$ 12.000.000,00 passou a ser de R$ 8.000.000,00; Que o declarante não sabe dizer se o valor de R$ 4.000.000,00 tenha sido declarado ou repassado ao ‘Caixa 2’ da campanha”.
 
Precatórios de Alan Malouf:

Silval também relata que em uma dessas reuniões entre Alan Malouf e Pedro Nadaf, o empresário disse ao então chefe da Casa Civil que sua família tinha um precatório no valor de mais de R$ 200 milhões para receber do Estado e que havia tratado desse assunto com Pedro Taques, que, por sua vez, garantiu a que se o governo Silval deixasse tudo pronto, com pareceres favoráveis, ele se comprometeria a pagar em sua gestão. O governador concordou e então pediu para que Nadaf tomasse as providencias necessárias para deixar tudo encaminhado o pagamento a Malouf.

Reunião na Fazenda de Eraí Maggi:

A última reunião antes destes personagens se tornarem inimigos mortais teria sido na chácara de Eraí Maggi (o ‘rei da soja’, primo do ministro Blairo), sendo que estavam presentes Pedro Taques, Silval Barbosa, Paulo Taques, Luiz Antonio Pagot e Eraí Maggi. Neste encontro, Eraí agradeceu Silval por desistir de investir na campanha de Lúdio Cabral, ao passo que a deles arrecadava cada vez mais. Momento em que Pagot assumiu a palavra e prometeu ajuda financeira, que acertaria detalhes com Silval.

Encerrada a reunião, Pedro Taques agradeceu a Silval e pediu para que ele cumprisse o pedido de auxílio de Pagot, não precisando acertar nada com Alan Malouf, pois já havia arrecadado bastante, tendo o colaborador concordado.

Nesse momento, Silval, Pagot e Paulo Taques sentaram-se ao lado de Eraí Maggi. Pagot pediu para finalizar a campanha com R$ 2 milhões. "Tendo Pagot solicitado ao Declarante o auxílio financeiro de R$ 2.000.000,00 consistentes em R$ 1.000.000,00 em espécie e o equivalente a R$ 1.000.000,00 em combustível, por meio de tíquetes, para distribuir no Estado", consta da delação.

Silval concordou e pediu para que Pagot passasse em seu gabinete para executar o pedido, o que acabou não ocorrendo.  

Ao fim de sua narrativa, no volume 1 de sua delação, Silval diz que não injetou nenhum recurso na campanha de Pedro Taques, no entanto, teria cumprido com a palavra de não investir de forma maciça na campanha de Lúdio Cabral. 

Pedro Taques venceu a disputa. Ao vestir a faixa de governador, mal olhou para os olhos de Silval. Ao sentar-se no Palácio Paiaguás, permitiu abertura de diversas apurações nas contas da gestão passada. Algo no suposto combinado, teria dado errado.

Reuniões Republicanas:

No último dia 30, o ex-prefeito de Cuiabá, Mauro Mendes (PSB), confirmou – em entrevista à Rádio Capital FM - que existiu uma reunião entre o governador Pedro Taques (PSDB) e o ex-chefe do Executivo, Silval Barbosa (PMDB), antes do período eleitoral. Segundo ele, foi uma “conversa extremamente republicana” e não houve nada de ilegal ou imoral nisto.
 
Também confirmou que chegou a pedir apoio financeiro a campanha de Taques. “Não é proibido pedir ajuda”. 

Nega, entretanto, que tenha em algum momento exercido a função de Alan Malouf. Nunca fui coordenador financeiro do Pedro Taques, posso falar claramente sobre uma reunião bem antes da campanha eleitoral, foi uma conversa extremamente republicana. Falamos de política, cenário, possibilidade, possível candidatura do então senador. Tudo isto durou uma hora e poderia até ter sido transmitido pela internet, porque não haveria problema”.

Taques: 

O governador Pedro Taques (PSDB) confirmou no último dia 30 que de fato se reuniu com Silval Barbosa (PMDB), durante sua campanha eleitoral em 2014. Todavia, Taques garantiu que não pediu dinheiro à Silval e, embora defenda o instituto da delação premiada, descreditou o acordo firmado entre o ex-governador e a Procuradoria-Geral da República. “O cara quando está preso pode falar coisas, mas ‘ouvi dizer’, ‘falei isso’, ‘teria’, aí no condicional não é delação”, repudiou.

“Eu não vejo nenhum problema em um senador, outro senador e o prefeito da Capital se reunirem com o governador. Quando nós íamos crescendo nas pesquisas, o governador Silval Barbosa nos procurou e, através do prefeito Mauro Mendes, houve essa reunião. Mas eu não pedi um real para o Silval Barbosa”, assegurou Pedro Taques na ocasião.

Especificamente sobre a doação da JBS, o governo já se manifestou oficialmente por meio de nota, em resposta a reportagem publicada pela TV Centro América. “Não houve doação de nenhum valor da JBS para a campanha de Pedro Taques em 2014. A TV manipula trechos da delação que não passam de mera suposição para tentar envolver Pedro Taques nas práticas criminosas de Silval Barbosa e seu grupo político”, diz nota do Governo do Estado, que acrescenta.

“Não há uma menção de Silval Barbosa em sua delação ligando gráficas à campanha de Pedro Taques. A propósito, a TVCA pega um trecho da delação no qual ele admite um pagamento ilegal de R$ 4 milhões por despesas gráficas da sua própria campanha, e mente ao afirmar que seria da campanha de Pedro Taques”, justifica a nota do governo.

11 comentários

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  • Ziraldo
    05 Set 2017 às 09:37

    Dessa hisoria toda so quero saber quando o cumpade ze domingo fragado assobe pro tribunal de contas....ai é a coroaçao do homem publico....parabens ze domingos vcficou bonito contando aquela dinherama

  • jota jota
    05 Set 2017 às 08:46

    Que vergonha, com certeza isso tem um grande sinal de verdade.

  • marta
    05 Set 2017 às 08:33

    Falar o quê de alguém que se dizia o paladino da moral e da ética ?! Se igualou aos demais sr. Taques!

  • Mariazinha
    05 Set 2017 às 07:08

    O amigo do Pedro Taques está de volta ,todo todo . O Demóstenes voltou à bandidagem em Goiás. Foi READIMITIDO ao MPE?GO. Riam ou chorem !!!

  • Wagner
    05 Set 2017 às 07:06

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  • Carla Maria
    04 Set 2017 às 15:19

    Parece que o livro dos INOCENTES ainda não foi escrito, mas a vida ensina muita coisa, especialmente quando ela repete muito.

  • ANA
    04 Set 2017 às 14:55

    depois de todo este escandalo em rede nacional , e terminar em pizza é pra acabar mesmo

  • Cícero
    04 Set 2017 às 12:54

    Quem acompanhou a eleição sabe que a própria mídia divulgava essas reuniões. Portanto, há presunção de veracidade nas informações do ex-governador Silval Barbosa.

  • O Cara com um cigarro na boca
    04 Set 2017 às 11:57

    Acho que vou vomitar nesse lamaçal. Vocês já vomitaram em um lamaçal? Tentem vomitar. Vamos todos vomitar nessa hora morta da história de Mato Grosso. Eles são iguais cachorros, se esfregam na carniça, coletivamente, um a um, para o cheiro ficar igual. Deplorável.

  • Macaco Hippie
    04 Set 2017 às 11:51

    Cara do céu, tá repugnante tudo isso, desolador. Eles estão fazendo com nossa democracia Igual um pai que cria o filho com carinho e esperança e depois o filho vira um drogado e marginal. Nietzsche, aquele filósofo do bigode grande e sem namorada, já havia previsto, em seu livro "Agaia Ciência", de que a democracia seria lugar fértil para homens medíocres e inferiores. Eu não quis acreditar em Nietzsche, cuspi nele e chamei-o de mentiroso e lunático e sem amor: perdão, Nietzsche, perdão.

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