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Objetos encontrados perto de Cuiabá apontam presença do homem há quase 30 mil anos nas Américas

Da Redação - Wesley Santiago

27 Nov 2017 - 10:13

Foto: Divulgação

Objetos encontrados perto de Cuiabá apontam presença do homem há quase 30 mil anos nas Américas
Uma recente descoberta de vários objetos (ferramentas de pedra, fogueiras e adornos), em um sítio arqueológico que fica a 80 quilômetros de Cuiabá, aponta para a presença do homem na região há pelo menos 27 mil anos. O achado tem dado combustível à discussão histórica na arqueologia moderna: a data de chegada dos seres humanos às Américas. As escavações aconteceram na região da Serra das Araras.

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A reportagem da BBC Brasil aponta que a descoberta recente foi feita no sítio arqueológico de Santa Elina, a 80 km de Cuiabá. Os arqueólogos responsáveis pelas escavações, Denis Vialou e Águeda Vilhena Vialou, do Museu Nacional de História Natural da França, afirmam que essa região brasileira já era habitada há pelo menos 27 mil anos.
 
"Uma prova é a presença de mais de 300 objetos de pedra lascada, com serrilhados e retoques, que só poderiam ter sido feitos pela mão do homem", afirma Águeda, que realiza escavações na região da Serra das Araras desde 1995. Restos de fogueiras também são outros fatores que apontaram a presença humana.
 
Ao todo, foram utilizados três métodos diferentes para determinar a idade dos objetos, envolvendo desde radiocarbono 14 até luminescência ótica. O sítio é considerado muito raro pelos historiadores e tem uma tripla raridade: "A primeira é que ocupações humanas pleistocênicas (entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás) são raras e por enquanto lá é o único local descoberto no centro do continente sul-americano”.
 
A segunda e a terceira raridades dizem respeito aos adornos encontrados: alguns foram feitos com ossos de preguiças-gigantes do gênero Glossotherium, já extinto. "É o primeiro caso no Brasil de uma perfeita associação do homem com a megafauna extinta", explica ela. "Há a confecção de objetos simbólicos com ossos da megafauna, transformando-os em adornos".
 
Discute-se a chegada do homem às Américas desde os tempos de Cristóvão Colombo, quando desembarcou no Caribe em 12 de outubro de 1492. Ele foi recebido pelos tainos, um povo amistoso, que o navegador genovês a serviço da Espanha achou que fossem indianos, pois estava convencido que havia chegado à Índia - e permaneceu com essa convicção até a morte.
 
Teorias não faltam. A mais antiga e resistente é o modelo conhecido em inglês como Clovis-first (Clóvis-primeiro), que descobriu no Novo México (EUA) artefatos de pedra lascada, datados de 11,4 mil anos. Segundo essa teoria, defendida principalmente pela comunidade arqueológica americana, a chegada teria ocorrido há pelo menos 12 mil anos.
 
Já o chamado "modelo das três migrações", sugerido em 1983 por Christy Turner, se baseia num amplo levantamento de diversidade dentária, que concluiu ter havido três levas migratórias da Sibéria para a América.
 
A primeira, há 11 mil anos, teria dado origem a todos os índios das Américas Central e do Sul e à maioria dos povos nativos norte-americanos. A segunda teria chegado há 9 mil anos e originou os índios ancestrais dos Apaches e Navajos, sobretudo na costa pacífica do Estados Unidos e Canadá. A última seria bem mais recente, há 4 mil anos, e composta pelos ancestrais dos esquimós e povos aleutas (no Círculo Polar Ártico).
 
Cientistas brasileiros também têm suas teorias sobre o fato. Uma delas foi desenvolvida pelo biólogo e antropólogo Walter Alves Neves e pelo geógrafo Luís Beethoven Piló, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Eles propõem que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, a primeira há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering.
 
De acordo com eles, a primeira leva seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígines australianos. A segunda era de mongoloides, semelhantes aos asiáticos e índios americanos atuais.
 
Controvérsia
 
Retornando à descoberta feita em Mato Grosso, alguns pesquisadores brasileiros a veem com cautela e outros, como a confirmação de que os humanos chegaram ao continente muito antes do que propõem algumas teorias. "Os autores são arqueólogos com excelente formação, portanto suas publicações devem ser levadas em consideração", diz a arqueóloga Niéde Guidon.
 
No que todos concordam é que o modelo Clóvis-primeiro está ultrapassado, por causa de uma série de descobertas nas últimas décadas.
 
"A ideia de que a cultura Clóvis teria sido a primeira a surgir na América foi definitivamente descartada devido à antiguidade incontestável do sítio Monte Verde, no Chile, de 12,5 mil anos atrás, diz o pesquisador Francisco Mauro Salzano, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).
 
A reportagem completa da BBC Brasil pode ser conferida AQUI.

2 comentários

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  • Nelson
    27 Nov 2017 às 14:21

    A própria Niede Guidon tem trabalhos na serra da capivara no Piaui que mostram que a ocupação das Américas é muito mais antiga do que as teorias de arqueólogos indicam. As escavações da equipe de Guidon no Piauí começaram a contestar esse modelo já em 1983. Na ocasião, pedaços de carvão encontrados no sítio Paraguaio, o primeiro investigado pela pesquisadora, traziam indícios de que a ocupação ali era de, ao menos, 31.500 anos atrás. Em 1984, uma nova datação, também em pedaços de carvão, marcava 32.160 anos. Os achados foram publicados na revista Nature, em 1986. Com o passar dos anos, no entanto, descobriram-se indícios de 58.000 anos atrás e, em 1991, chegou-se à data que deixava, e muito, Clóvis para trás: os 100.000 anos.

  • Maria Teresa Carrion
    27 Nov 2017 às 11:34

    A noticia da BBC fala de uma descoberta que não é recente. O livro de História de Mato Grosso: da ancestralidade aos dias atuais, da professora Elizabeth Madureira Siqueira e publicado pela Entrelinhas Editora em 2001 já anunciava essa pesquisa sobre a presença do homem em Mato Grosso há mais de 27 mil anos, o que derruba as hipóteses mais aceitas que falam da presença do homem nas Américas há apenas 12 mil anos. Vejam mais detalhes sobre esse assunto na segunda edição do livro da professora Elizabeth Madureira que acaba de ser lançada.

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