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MC de 'funk ostentação' de SP faz maratona de até 50 shows por mês

G1

14 Mai 2013 - 10:45

Nome conhecido do “funk ostentação”, vertente paulista com letras sobre artigos de luxo, MC Guimê faz cerca de 50 shows por mês com média de R$ 10 mil de cachê, segundo sua produção. Os R$ 500 mil mensais vêm de trabalho intenso, uma "corrida do ouro" com até nove shows em uma noite e pouco glamour nos bastidores. O G1 acompanhou, em maio, uma série de três shows em cidades diferentes em período de quatro horas (veja vídeo ao lado). Não faltou nos shows "Plaquê de 100", música que teve o quinto clipe mais visto no YouTube no Brasil em 2012, com 25 milhões de visualizações até hoje.

O MC cantou às 0h37 em Sumaré (SP), às 2h44 em Osasco (SP) e às 3h56 em Carapicuíba (SP). Os shows duraram pouco mais de 20 minutos, com Guimê e DJ. A equipe tem produtor, cinegrafista, roadie, dois seguranças e motorista, que dirige rápido entre uma casa noturna e outra. O público variou entre 600 e 1,5 mil pessoas. As casas são simples, com camarins pequenos ou inexistentes.

Guilherme Aparecido Dantas, de 20 anos, nasceu em Osasco (SP), e foi abandonado pela mãe aos seis meses. O luxo descrito nas letras não corresponde à história de vida de Guimê - é, em parte, anseio do garoto humilde. Por outro lado, o funkeiro descreve novas cenas de sua vida que lembram os luxuosos clipes de rap americano dos quais é fã.“Já fiquei com seis 'minas' em seguida”, diz o cantor, que passou a frequentar festas do jogador Neymar.

‘Parecia um rato’

“Quando nasci, o médico disse que eu não andaria, seria quatro anos atrasado e teria que usar respirador. Hoje, tenho fôlego para shows seguidos”, conta o músico ao G1, sentado no fundo da van. Ele diz que veio ao mundo com seis meses de gestação. “Minha mãe meio que tentou me perder”, conta.

O bebê que “parecia um rato”, nas palavras de Guimê, foi criado a partir dos seis meses só pelo pai, eletricista de origem humilde, a quem chamava de mãe. “Era ele quem me dava leite quando bebê, na mamadeira”, justifica. A criança “birrenta” cresceu em Osasco e estudou até o terceiro ano do Ensino Médio, enquanto se tornava obstinada com o sucesso.

Hoje, MC Guimê usa um cordão de ouro, que diz ter custado R$ 32 mil, relógio de R$ 4.600 e óculos de R$ 600. Ele mora em um apartamento que comprou no Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, e termina de construir uma casa em Sorocaba (SP). Na garagem da família, Guimê já incluiu um Honda New Civic, uma Volvo, um antigo Corsa e uma moto Honda RR.
Com 'os brilho das jóia' no corpo de longe 'elas mira' / Da até piripaque do Chaves onde nós por perto passa"
'Plaquê de 100', do MC Guimê

Show relâmpago
Entre números que gosta de citar, o funkeiro perdeu as contas de quantas tatuagens tem no corpo. O funkeiro com visual rapper tem boa desenvoltura no palco, mesmo com voz oscilante. As referências visuais e das letras dão do rap dos EUA, mas o “tamborzão” carioca, emprestado do MC Catra, é onipresente. “É a marca do funk brasileiro, não dá pra abandonar”, ele diz.

A apresentação de pouco mais de 20 minutos em média inclui os hits “Tá patrão” e “Plaquê de 100” (do refrão “Contando os plaquê de 100 / Dentro de um Citroen”), “Como é bom ser vida loka”, do MC Rodolfinho, cantada com jeito de hino entre os entusiastas do “funk ostentação”, e “Vida loka parte 2”, dos Racionais MCs.

O público é sempre jovem e de maioria feminina. O jovem de aparelho nos dentes e cabelo descolorido é recebido com gritinhos. O público masculino canta junto as mais conhecidas, mas as mulheres dominam. "Com 'os brilho das jóia' no corpo de longe 'elas mira' / Da até piripaque do Chaves onde 'nós por perto passa'", ele canta em "Plaquê de 100".

‘Moleque sonhador’

“Para um moleque sonhador como eu, o funk serve bem”, ele diz. “A gente cantava nas favelas, em cima mesas improvisadas de palco. Vários lugares nem pagavam. Cheguei a fazer show por R$ 50. A vontade de cantar era maior que tudo”, ele conta. “Meus pais e muitas pessoas desacreditavam. Isso foi me fazendo trabalhar mais”, diz. O adolescente juntou comprar um “Corsinha”, no qual carregava amigos só para se passarem por produtores.

“O primeiro clipe [‘Tá patrão’, de 2011, hoje com 17 milhões de acessos no YouTube] eu fiz virado de três dias de show, ganhando 200 reais de cachê. Juntei o dinheiro e consegui pagar os 2 mil reais da produção”, lembra. “Não passava necessidade, mas meu pai não tinha dinheiro para comprar coisas de luxo. Pegava óculos emprestados com parceiros”.

Produtor do ‘rock colorido’ ao funk
A virada entre pequenos shows em Osasco e idas a Belo Horizonte e Florianópolis por cachês de R$ 12 mil veio ao conhecer o produtor Hugo Alencar. O empresário agendava shows do Restart. O produtor, Dinho, já trabalhou com o Cine. Depois de contratar Guimê, a produtora de Hugo tem os funkeiros Lon, Rodolfinho e Danado.

“Caiu o quarto show da noite, lacraram a boate de Guarulhos”, anuncia Dinho na van por volta das 2h da manhã, para alívio de Guimê. “Depois desse negócio de Santa Maria o pessoal está mais rígido”, explicou Dinho. O produtor recebe em dinheiro vivo os R$ 4 mil reais restantes do cachê do show na periferia de Carapicuíba.

Os empresários comemoram uma parceria de Guimê com uma marca de bebida energética. Com isso, ele conseguiu R$ 60 mil – R$ 10 mil só pra roupas - para gravar o próximo clipe, "Na pista eu arraso".

Amigo de Neymar

Livre de resolver as questões financeiras, o funkeiro se empenha nas relações artísticas. Quando não fala à reportagem do G1, ele passa o tempo todo entre os shows conferindo fotos no Instagram. Neymar, que o conheceu em uma lanchonete há alguns meses, já postou fotos junto a Guimê.

O músico mostra com orgulho a música que gravou junto com Emicida que cita o jogador do Santos. A produção foge da simplicidade do “tamborzão”, com arranjo mais rico na variedade de instrumentos e letra mais pobre em artigos de luxo citados. “Para a época da Copa”, planeja. Além de Neymar, Restart, Sorriso Maroto, Emicida, João Neto & Frederico, NX Zero e Sambô são listados por Guimê em sua eclética lista de novos amigos famosos.
“Tinha ‘mina’ que, quando eu não era famoso, nem olhava para a minha cara. Eu não tinha carro, moto, ia pra balada de ‘bicão’. Depois que fiquei famoso, peguei essas todas só pra tumultuar. Levava para o hotel, ‘comia’ e nunca mais ‘dava um salve'."
MC Guimê, cantor

Ele se diz “sossegado” em relação a mulheres na maior parte do tempo – mas nem sempre. “Hoje vou a uns bailes inacreditáveis. A gente cantou em Floripa, em umas casas com a galera mais velha, ‘minas’ de 19 anos, que já trocam ideias mais decididas. Em uma manhã só eu peguei seis ‘minas’”, conta.

“Tinha ‘mina’ que, quando eu não era famoso, nem olhava para a minha cara. Eu não tinha carro, moto, ia pra balada de ‘bicão’. Depois que fiquei famoso, peguei essas todas, só pra tumultuar. Levava para o hotel, ‘comia’ e nunca mais ‘dava um salve’”, conta.

Insultos masculinos
Os gritos femininos continuam altos em Carapicuíba enquanto Guimê, já cansado, às 4 da manhã, canta “Cansei de sofrimento”: “Passado ‘cabuloso’ me esquivando da miséria (...) / Hoje eu vou curtir junto com meus aliados / Cansei de sofrimento, cansei de ser humilhado / Vou dar a volta por cima”. Enquanto as mulheres aprovam, alguns homens na boate em o insultam.

Na saída, Guimê tenta explicar os xingamentos. “A gente estava em uma ‘quebrada’. A galera me vê tatuado, com ouro, e pensa que quero ser maior do que alguém. Mas quero mostrar que todo mundo pode. Os fãs que conhecem minha história já sabem que foi difícil para mim. Passo a visão de não desistir do sonho, sou uma prova viva. Essa é minha visão da ostentação”.
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