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Quinta-feira, 24 de setembro de 2020

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Como um líder pode se tornar suscetível a fraudes?

Autor: Cynthia Catlett e Renato Santos

30 Abr 2015 - 11:28

A resposta pode não ser simples, mas há particularidades que a identificam, como a alta lealdade e as pressões. Para percebê-las, não é preciso ir longe. Vejamos o escândalo da Petrobras: se os funcionários de uma organização desse porte não sabem como agir perante dilemas éticos, espera-se que seus líderes sejam exemplo de conduta correta a seguir. Mas ocorreu o contrário, já que seu envolvimento culminou em prisões, investigações e desestabilização corporativa.

O grande paradigma quebrado nesse caso é o de que liderança e exercício do poder promovem comportamentos éticos e evitam fraudes. Contudo, é importante questionar a influência da alta lealdade e das pressões sobre as condutas dos líderes.

Um estudo da PUC-SP mostrou que um líder pode submeter seus princípios éticos aos valores da organização quando motivado pela lealdade e pressionado pelas metas. Apontou ainda que, se for muito influenciado por pressões externas, o comportamento do líder pode “não resistir a sistemas propiciadores de corrupção, como os pouco transparentes, demasiadamente hierárquicos, com controles intensos e inúteis aos resultados”. As organizações devem estar mais atentas às lideranças na implantação de Programas de Compliance, ou seja, no maior cuidado com a seleção, contratação, avaliação e gestão dos líderes.

No entanto, que fique claro: não há relação direta entre conduta e códigos de ética aplicados isoladamente. Há, sim, a necessidade de desenvolver ações empíricas e contextualizadas.

Quando há conformidade entre conduta e códigos de ética que refletem a cultura organizacional, as regras adquirem sentido. O líder tem importância na influência da conduta individual, nas organizações que se esforçam para aumentar sua consistência ética. Mas também a forma de exercer o poder estabelece se o tipo de aliança é em torno de um projeto defensável publicamente ou de outros interesses.

Premido pela responsabilidade de atingir metas, o líder pode se ver exposto ao risco de abandonar regras. Desempenho e ética não têm relação direta de causalidade: um indivíduo pode ser competente e agir de maneira antiética e vice-versa.

Toda essa análise nos remete a um dos casos mais emblemáticos da humanidade: o nazismo. Muitos tentaram explicar como um genocídio foi concebido e executado por pessoas comuns e lideranças. A filósofa política Hannah Arendt concluiu que os genocidas, na verdade, “apenas” cumpriam ordens, sem visão ampla de suas atividades. Qualquer conceito ético foi ignorado em favor dos resultados. O exemplo pode ser extremo, mas sua essência pode ser aplicada para evitar que contextos similares tenham desfechos radicais.

O papel do líder é essencial. Por exercer o poder, está mais exposto às escolhas que envolvem dilemas morais, suas ações têm mais consequências e suas responsabilidades são maiores. Se for influenciado por uma cultura organizacional permissiva, será prejudicado em seu comportamento ético. Condutas individuais pautadas por princípios éticos são fundamentais, mas podem não resistir a sistemas de corrupção.

Se a cultura organizacional displicente quanto à ética e à alta lealdade se combinam, os resultados nas condutas individuais podem ser desastrosos a médio e longo prazo. Regras e sistemas de controle não serão suficientes para impedir a generalização de condutas inadequadas ou corruptas.


*Renato Santos é Sócio da S2 Consultoria – Dimensão Humana do Risco, empresa que propõe soluções na identificação, desenvolvimento e restabelecimento da Integridade Organizacional.

*Cynthia Catlett é Sócia da área de investigações de fraudes e prevenção a lavagem de dinheiro da Grant Thornton do Brasil.
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