Imprimir

Artigos

Luciara e o desejo da maioria

Rui Prado

 Participei de uma audiência pública no município de Luciara para debater a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em um local ocupado há mais de 50 anos por retireiros e posseiros. Fiquei impressionado com a bravura dos luciarenses que fecharam o comércio, deixaram o trabalho e praticamente pararam a cidade para participar do encontro. Mais de 300 pessoas expuseram aos ministérios públicos estadual (MPE) e federal (MPF) os motivos pelos quais os moradores não querem a implantação de mais uma reserva no município. Muitas pessoas falaram, entre elas autoridades presentes, advogados, moradores, retireiros e técnicos.

Às margens do rio Araguaia, Luciara está a 1.167 km da capital de Mato Grosso e abriga 2.224 habitantes. A pecuária é a principal atividade econômica do município que possui 37.347 cabeças de gado, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). O Araguaia chama a atenção por suas belezas naturais e pela coragem dos brasileiros que saíram de diversos cantos do país para desbravar uma nova região, viver, construir família e produzir.

A preocupação dos luciarenses é coerente. Talvez agravada por outro exemplo contraditório de democracia, a retirada dos moradores da gleba Suiá-Missú, em dezembro de 2012, no Alto da Boa Vista, quando mais de 7 mil pessoas foram arrancadas de suas casas para cumprir um mandado judicial que ainda está em julgamento. Não é exagero dizer que a região está traumatizada.

Na audiência ficou claro que todo o processo está sendo conduzido por apenas uma família que é a favor da reserva e que está na atual diretoria da Associação dos Retireiros do Araguaia (ARA). O projeto inicial da criação da RDS era de 35 mil hectares e foi ampliado pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio) para 198 mil hectares, sem a consulta da população. O município já possui quatro reservas indígenas e oito unidades de conservação municipais. Apesar de o desejo desta diretoria da associação não ser o mesmo da maioria da população de Luciara, ela conta com o apoio da Prelazia (igreja), de técnicos do ICMBio, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente, e do procurador da República Wilson Assis Rocha, que participou da audiência e deixou bem claro seu posicionamento.

Vi uma cidade pequena e tranquila viver hoje em conflito por que outras pessoas querem ditar o que é bom para todos. O poder público precisa agir democraticamente para impedir que interesses externos e ideológicos prevaleçam. Mais do que isso, precisa atuar para garantir o desenvolvimento social e econômico desta região conhecida como “Vale dos Esquecidos”.

*Rui Prado é produtor rural e presidente do Sistema Famato (ruiprado@famato.org.br)
Imprimir