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“O Brasil está exportando fábricas e empregos, além da soja em grão”, declara o presidente da Abiove

Da Redação - Viviane Petroli

17 Nov 2014 - 08:00

Foto: Assessoria Aprosoja-MT/Abiove/Reprodução

“O Brasil está exportando fábricas e empregos, além da soja em grão”, declara o presidente da Abiove
Segundo maior produtor de soja, o Brasil mais exporta a matéria-prima (soja em grão) do que a transforma. Com isso, gera mais empregos no exterior, como é o caso da China, que hoje é a maior cliente da oleaginosa brasileira. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o que falta no Brasil e em Mato Grosso, além da logística, que ajuda a reduzir custos, é a política tributária.

Em entrevista ao Agro Olhar, durante o seminário “Soja Plus: Gestão da Propriedade Faz a Diferença”, realizado no dia 4 de novembro, em São Paulo (SP), o presidente da Abiove, Carlo Lovatelli, comentou, por exemplo, que para a soja adentrar ainda mais na indústria alimentícia brasileira é preciso ter escala e logística. Conforme Lovatelli, na Argentina os parques industriais estão na "porta" dos portos e as distâncias percorridas entre fazendas e indústrias são de aproximadamente 300 quilômetros, enquanto em Mato Grosso chega-se a 2 mil quilômetros para o grão chegar in natura aos portos.

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Ainda, de acordo com o presidente da Abiove, tais entraves da indústria de soja vem sendo debatidos com ao menos os últimos quatro presidentes do Brasil.

Confira a entrevista exclusiva do Agro Olhar com o presidente da Abiove:

Agro Olhar - Como está hoje à questão da industrialização da soja aqui no Brasil, principalmente em Mato Grosso já que somos grandes produtores e temos poucas indústrias?

Carlo Lovatelli - A indústria infelizmente vem na contra mão da política tributária brasileira. Nós não temos conseguido incentivar a instalação de mais indústrias no país, porque a demanda de produto com valor agregado não está acompanhando o crescimento da soja como cultura, como commoditie brasileira. Infelizmente, as nossas regras do jogo, nossa política tributária, aonde a gente tributa a exportação de valor agregado e não a matéria-prima e somos o único país que faz isso, infelizmente, faz com que as fábricas sejam questionáveis neste processo e as grandes empresas do comércio internacional mundial elas têm a tendência de colocar estas fábricas em outros locais aonde não exista essa tal limitação. Tipo Rússia, tipo China. Então, o Brasil está exportando fábricas e empregos, além da soja em grão.

Daí, o não acompanhamento do crescimento da soja como commoditie mundial. Ela não é acompanhada proporcionalmente pela instalação de mais parques industriais brasileiros. Mato Grosso, embora esteja em uma situação um pouco melhor que os demais estados brasileiros produtores, por ser mais organizado na cultura da soja, também não fica atrás deste processo. Nós todos gostaríamos que tivéssemos mais fábricas, que exportássemos mais farelo e óleo e menos grão e com isso o Brasil teria mais emprego no setor, mais parque industrial, teria benefício maior local. Infelizmente, essa é situação atual. O Brasil é um grande exportador de grãos e quem se beneficia com a manufatura e o processo industrial lá fora são outros países que não o nosso. Mas, isso aliado a outro fator importante, que é o fator de custo Brasil de transporte. Nosso país é um país continental. A soja viaja quase 2 mil quilômetros, vocês conhecem isso muito bem no Mato Grosso, e o custo Brasil também onera bastante a rentabilidade da soja para o produtor que é a grande vítima do processo. Nosso herói nacional é a maior vítima do processo. Então, enquanto não houverem mais investimentos de infraestrutura, que já estão sendo ocorrendo, devo dizer em boa parte, a saída pelo Norte já é realidade e era necessária há 20 anos atrás e já está acontecendo e Mato Grosso é um dos que usufrui bem deste processo. Mas, enquanto não houver um maciço investimento em todos os modais de transporte e na política tributária, inclusive de transportes, o Brasil vai ter sempre certa dificuldade de manter uma rentabilidade condizente com o que a soja merece.

Agro Olhar - Hoje, a soja pode ser transformada em diversos produtos, não apenas farelo, óleo e ração animal, mas também em produtos para a alimentação humana e até mesmo em produtos de cosméticos. Como o setor está vendo este crescimento do uso da soja em cosméticos, visto que hoje temos escovas (tratamentos) feitos a base de soja e até mesmo esmalte de unhas que levam soja em sua composição? Como a indústria, a Abiove, vê está questão?

Carlo Lovatelli - Vemos com muita simpatia e estamos tentando incentivar ao máximo possível, inclusive, falando em nível de governo, em Brasília (DF), aculturando as pessoas sobre estás aplicações a soja é realmente um produto espetacular. É a proteína mais barata e a mais acessível no mundo. Os chineses que o digam. E nós sem dúvida alguma quanto maior aplicação para a soja houver, e o biodiesel é uma delas também ou então na função energética que é bastante importante, nós estaremos atrás incentivando isso. Acho que vemos isso com grande otimismo, embora esses volumes sejam relativamente pequenos. A soja é uma commoditie de grande volume e pouca margem, então tem de ser extremamente eficaz a sua comercialização e o seu transporte, pois não nos esqueçamos que a soja tem os seus preços fixados em bolsa, tanto o grão em sua fase de origem nação como o farelo e óleo em sua fase final. Então onde está a diferença, onde acontece a diferença? É na eficiência do transporte de distribuição do produto, que é aonde as empresas e os produtores se mostram mais eficazes, ou seja, quanto melhor o empreendimento maior é o resultado positivo.

Agro Olhar - No caso da indústria alimentícia, o uso da soja, nós vamos ao supermercado comprar um biscoito, uma farinha, vemos que é caro. Uma bebida a base de soja chega a custar R$ 6 a R$ 7 o litro, por exemplo. Por que é tão caro? É essa falta de industrialização aqui no país?

Carlo Lovatelli - É cara porque, primeiramente, não tem escala suficiente para ter um custo mais diluído. A escala é relativamente pequena. Segundo a logística, como comentei. Os parques industriais estão não muito próximos dos grandes locais de consumo, isso foi uma deficiência inicial do processo da soja no Brasil. Hoje, você pega uma Argentina que é mais recente no boom da soja os grandes parques industriais estão em cima dos portos e o transporte é 300 quilômetros no máximo, enquanto o nosso chega a dar 2 mil quilômetros. Então, o fator custo por falta de escala é bastante preponderando. Nós esperamos que com o tempo e o costume desgeneralizando para o consumo de produtos a base de soja a escala talvez melhore essa relação de preço.

Agro Olhar - Quais são os maiores entraves hoje do setor industrial? É a questão da logística, da falta de indústrias, a questão da tributação ou até mesmo a questão das biotecnologias?

Carlo Lovatelli - Essa questão da biotecnologia são assuntos pontuais que vão ser resolvidos em curto prazo. Isso é questão negocial. Isso se resolve. Eu acho que o problema mais crônico, mais complicado para o setor da soja no Brasil são dois: logística e política tributária. São os dois grandes entraves e cada um deles tem várias demandas, multiplicações que atrapalham, mas uma vez que consigamos resolver parte destes problemas nós resolveremos 80% dos problemas do setor da soja.

Agro Olhar - Vocês pretendem conversar com a presidenta Dilma Rousseff (PT) sobre a questão da tributação e também das melhorias em logística?

Carlo Lovatelli - Nós estamos conversando pelo menos com os últimos quatro a cinco presidentes de forma quase semanal. Essas são as nossas bandeiras, nossos principais problemas e nós estamos falando em Brasília e com os estados continuamente e isso tem ocorrido o tempo todo porque é algo que realmente tem de ser resolvido e que não é fácil. É toda uma estrutura que tem de ser modificada.

2 comentários

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  • Urbanista
    17 Nov 2014 às 13:05

    É verdade que a China oferece muitos empregos. Mas os trabalhadores de lá são os mais explorados do mundo. Quem estiver reclamando do salário no Brasil que mude para a China. Lá você vai trabalhar 18 horas por dia e vai receber um salário de miséria. Sem falar que na China não existe aposentadoria para o trabalhador e os sindicatos são proibidos pelo governo.

  • Ejol
    17 Nov 2014 às 10:02

    Mas temos bons exemplos em MT apesar da burocracia imposta ao investidor brasileiro, o grupo Fiagril de Lucas do Rio Verde. Ainda tem empresário com visão e persistência. Este país e este estado ainda são viáveis.

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