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Desvalorização do real facilita exportações que deverão seguir ativas em 2015, diz presidente da Aprosoja-MT

Da Redação - Viviane Petroli

07 Jan 2015 - 16:00

Foto: Aprosoja-MT

Desvalorização do real facilita exportações que deverão seguir ativas em 2015, diz presidente da Aprosoja-MT
A safra 2013/2014 foi atípica com muita chuva, porém de recorde de produção. Com a safra 2014/2015, cuja colheita em algumas localidades em Mato Grosso iniciou em 19 de dezembro, as estimativas de produção não são diferentes, mesmo que o plantio tenha sofrido atrasos com a falta de águas. Segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), diante da situação da soja, o milho ainda é uma incógnita para o setor, por mais que os preços tenham reagido na reta final do ano passado.

Mato Grosso no início da safra 2014/2015 chegou a ficar aproximadamente 20 dias sem a presença de chuva nas lavouras, o que de acordo com o presidente da Aprosoja-MT, Ricardo Tomczyk, provocou um deslocamento no calendário da oleaginosa o que pode acarretar problemas com o controle de doenças. Até o dia 06 de janeiro o Estado havia registrado no Consórcio Antiferrugem 24 casos de ferrugem asiática, contudo há estimativas de mais focos.

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Em entrevista ao Agro Olhar o presidente da Aprosoja-MT salientou que a tendência é de o mercado de exportação se manter "bastante ativo" diante o real desvalorizado, pois a desvalorização "facilita" os embarques

Confira a entrevista com o presidente da Aprosoja-MT, Ricardo Tomczyk:

Agro Olhar - Como foi o ano de 2014 para o setor produtivo da soja e milho? Economia? Preços?

Ricardo Tomczyk - 2014 foi um ano bastante conturbado. Nós começamos com uma colheita de soja complicada com muita chuva em que tivemos perdas consideráveis em alguns lugares. Em uma média geral foi uma colheita de soja difícil a safra 2013/2014. Passamos por um período de queda nos preços internacionais também muito acentuado, que em determinados momentos até a projeção da safra futura (2014/2015) era de uma situação muito apertada e em algumas praças já registrando possíveis prejuízos. Tivemos custos de insumos da safra 2014/2015 muito elevados, talvez dos mais elevados já registrados. Em uma média de 14% a 15% de aumento geral nos custos. Nós tivemos uma situação difícil, também, no plantio da safra 2014/2015 da soja em função do atraso das chuvas, muitas situações de replantio, problema com a qualidade de insumos, e aí destacando sementes, onde tivemos muitos problemas com a qualidade das sementes. Tivemos um plantio deslocado da sua janela ideal. No plano econômico, como eu falei, uma depressão dos preços internacionais que trouxe bastante insegurança em determinados momentos, principalmente, em relação a safra futura amenizada agora com as últimas altas do dólar, que trouxe um impacto relativamente positivo para a produção e amenizou parte da queda no mercado em dólar, mas ainda é um cenário preocupante, porque temos toda a safra ainda para ser cuidada, todos os tratos culturais para serem feitos, tem ainda o período de colheita que pode haver complicações climáticas. Porém, o cenário no final do ano em função dessa reação do dólar deu uma amenizada na questão econômica, até proporcionando que o mercado futuro de soja andasse bastante. Hoje, já temos praticamente 50% da safra 2014/2015 comercializada e isso traz uma segurança bastante positiva.

Agro Olhar - E 2015 como o setor acredita vá ser? Colheita e preço?

Ricardo Tomczyk - Como eu falei a questão de preço já está relativamente contornada em função da alta do dólar e o produtor aproveitou esta oportunidade, o que fez o mercado andar e chegarmos a cerca de 50% da safra comercializada. Então, boa parte do risco já foi diluída. A questão climática ainda é uma incógnita. Como eu falei, o plantio está deslocado no calendário e isso pode acarretar problemas com o controle de doenças, por exemplo, mas tudo isso ainda está dentro das perspectivas. Não temos como medir exatamente quais serão as consequências. Podemos ter um quadro onde tudo ocorra bem e a gente uma produção bastante grande, como podemos ter um quadro com complicações que tendem a reduzir a produção.

Agro Olhar - A questão do dólar ela tem seu lado positivo e seu lado negativo. Quais são esses lados?

Ricardo Tomczyk - Lado positivo que ele se reflete na parte do custo de produção que não é dolarizado. Os insumos normalmente são dolarizados e isso a questão do câmbio não intervém no resultado. Você vai vender soja em dólar e vai pagar conta em dólar e dólar versos dólar não têm risco. Agora, boa parte dos custos são em reais e quando o dólar está valorizado diante do real você tem uma situação em que você usa menos dólar para pagar a mesma conta. Então, isso traz um resultado positivo para o produtor. O que é maléfico nesta situação é a volatilidade. Isso realmente não é positivo, porque traz um pouco de insegurança. Variações muito grandes num curto espaço de tempo podem sair de um cenário de prejuízos e ir para um cenário de lucro e voltar para um cenário de prejuízo dentro de um espaço muito curto e a volatilidade é realmente perigosa para qualquer um.

Agro Olhar - A questão do milho como é que o setor está vendo? A área já é certa que irá cair, não apenas pela questão dos preços, mas também pela janela ideal comprometida?

Ricardo Tomczyk - A questão da janela ideal é um complicador sim, não há dúvidas. Ainda não é possível ter uma certeza do quanto da área vai diminuir e isso também tem influência dos preços. Uma vez que há uma previsão de queda de área os reagem e já reagiram, o que volta a estimular o produtor a até assumir um risco adicional em plantar o milho. Então, a definição de área acredito que nós só vamos saber quando terminar o plantio mesmo. Vai ser uma tarefa muito difícil de fazer uma previsão, porque se os preços continuassem baixos era fácil, era certeza que a área iria diminuir muito, mas os preços voltaram a subir e já existe condições bastante interessantes de mercado futuro e isso pode estimular o produtor a assumir um risco adicional na produtividade se ele tem garantia de preço.

Foto: Pedro Silvestre

Agro Olhar - Como o setor está vendo das exportações? Em geral, no ano de 2014, elas estiveram em queda em decorrência do milho, porém a soja cresceu um pouco.

Ricardo Tomczyk - A tendência é que tenhamos um mercado de exportação bastante ativo, até porque o câmbio desvalorizado, o real desvalorizado, ele facilita a exportação, uma vez que os custos, por exemplo, de frete eles ficam mais diluídos na conta. São custos formados em reais e quando você usa menos dólar para pagar você diluí esse custo na conta. Isso facilita, incentiva a exportação. Nós temos um mercado chinês que é forte, continua crescente, continua pujante, demandando não só soja, mas demandando milho, carnes e isso com certeza vai ser o grande direcionador do mercado a demanda chinesa.

Agro Olhar - Você falou da questão da China. Como está a abertura de portos de outros países?

Ricardo Tomczyk - A demanda mundial é constante, mas a China é o grande motor. A Europa, o próprio Japão continuam demandando soja, mas o grande motor, que tem o grande potencial de crescimento é a China.

Agro Olhar - A questão da logística nós estamos vendo a BR-163 passando por transformações, principalmente no eixo que a concessionária Rota do Oeste, que pertence à Odebrecht TransPort, que está passando por recuperação em um trecho de 450 Km, incluindo a Rodovia dos Imigrantes. Como o setor está vendo e prevendo como será o escoamento?

Ricardo Tomczyk - Vai melhorar. É inegável que vai melhorar. É muito positivo esse cenário de melhoria na estrutura. É fundamental, nós já estávamos uma pane geral, principalmente na BR-163, então, o trabalho que a Rota do Oeste está fazendo já de recuperação de imediata, não só da duplicação, mas recuperação da pista existe e quesitos de segurança, de apoio já são bastante positivos. Entendemos que a duplicação vai acontecer e está acontecendo num ritmo muito interessante, tanto o trecho que está sob concessão da Rota do Oeste quanto o trecho que está sob responsabilidade do DNIT (obra) vemos avanços e isso é muito importante. O cenário da BR-163 ao norte, também, indo para os portos do Pará, principalmente Miritituba, avançou e temos mais um trecho que já finalizou asfalto e hoje faltam em torno de 125 Km que restam ser asfaltados e que já deveriam estar asfaltados, mas já é uma realidade o escoamento de boa parte da safra para o Norte, também. Temos uma estrutura transporte de fluvial já funcionando e uma tendência muito rápida da estrutura portuária, em especial de navegação fluvial pelo Pará e isso é extremamente importante. Temos um plantio cresce ano a ano e se a infraestrutura não aumentar minimamente que seja dificilmente nós vamos conseguir sair do sufoco, por mais que haja duplicação, por mais que haja o terminal novo do trem em Rondonópolis, mas é muita produção que se acrescenta todo ano e realmente todo e qualquer investimento em infraestrutura para viabilizar alternativas para o escoamento da produção são necessárias.

Agro Olhar - E as doenças e pragas? Nós temos a ferrugem asiática, a Helicoverpa armigera, ou seja, temos diversas. Como está esta questão?

Ricardo Tomczyk - Esse é um debate que a Aprosoja-MT terá na sua agenda de 2015 como prioritário ao debate do sistema de produção. Nós precisamos rever muita coisa no sistema de produção que adequamos e adotamos. É um sistema que não existe precedente no Mundo, portanto não a como comparar e muito da tecnologia utilizada agora fomos nós que desenvolvemos e ela está passando por uma fase probatória. Muitas práticas se mostraram ineficientes, nós tivemos aí perda de ineficiência no milho Bt, por exemplo, das biotecnologias muito rápido. Temos a questão dos fungicidas que é extremamente preocupante. Então, nós temos que rediscutir o nosso sistema de produção, principalmente no que tange ao manejo, nós temos já muita tecnologia desenvolvida, mas pouco aproveitada, pouco utilizada. Temos que ter uma conscientização primeiro do produtor, porque ele precisa rever seu processo produtivo, e depois da parte técnica e também da parte comercial. Nós precisamos de um grande acordo da cadeia para rever estas práticas.

2 comentários

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  • Luis Dias
    08 Jan 2015 às 11:47

    O dólar alto só beneficia os exportadores a curto prazo e pune a população que fica impedida de adquirir bens de melhor qualidade, ficando limitada ao que é disponível no mercado interno. No médio e longo prazo, o aumento do preço dos insumos e maquinários gera um efeito em cascata de aumento de preços o que significa INFLAÇÃO e com o real desvalorizado essa inflação significa perda de poder de compra e no mercado interno e externo, ou seja, quem sofre é o pobre que além de perder o poder de compra, fica limitado a produtos de baixa qualidade.

  • João Menna Neto
    07 Jan 2015 às 17:25

    O Presidente economizou e foi bastante cauteloso com relação ao milho. Mesmo com a desvalorização atual do dólar, o grão aqui produzido corre sério risco de não chegar ao mercado em condições de competitividade, mesmo reconhecendo, precocemente, a redução da área a ser plantada. A ampla deficiência na logística existente e o baixo consumo regional, interferem drasticamente na comercialização do produto. É possível que mais uma vez a intervenção governamental seja necessária para assegurar mercado, mesmo que institucional, e desovar a produção regional. Haverá recursos financeiros suficientes para a Conab? Eis a questão.

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