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Quinta-feira, 09 de dezembro de 2021

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ENTREVISTA

“A assistência técnica é apenas um dos problemas da agricultura familiar”, afirma Suelme

Foto: José Medeiros/GCom-MT

“A assistência técnica é apenas um dos problemas da agricultura familiar”, afirma Suelme
A assistência técnica em Mato Grosso é apenas um dos problemas encontrados hoje na agricultura familiar. O abandono de algumas cadeias, como a do café e a piscicultura, colocaram o Estado em um patamar de 30 anos de atraso e que atualmente corre-se contra o tempo para minimizar a distância em relação às demais unidades federativas.

O ano de 2015 foi um ano de colocar a “casa” em ordem, segundo o secretário Agricultura Familiar e Regularização Fundiária (Seaf), Suelme Fernandes, enquanto em 2016 se colocará em prática aquilo que se “esboçou” e conseguiu tirar do “abandono”.

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Em entrevista ao Agro Olhar, o secretário da Seaf relata os focos para 2016 e os desafios que se terá pela frente, principalmente quanto a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e a convocação dos novos funcionários públicos que passaram no último concurso público para a Empresa.

Confira a entrevista com o secretário Agricultura Familiar e Regularização Fundiária (Seaf), Suelme Fernandes:

Agro Olhar - Como está a agricultura familiar em Mato Grosso?

Suelme Fernandes - A agricultura familiar tem um grande desafio por ser um assunto novo no Governo, por ser uma Secretaria nova. Estamos construindo um novo foco de atuação da política pública. Se for considerar a história da agricultura do Estado não houve uma decisão de governantes de direcionar o foco para a agricultura familiar. Ela é uma pauta nova, um assunto novo e de grandes desafios, além de um histórico de abandono completo e de investimentos. Quando falamos de agricultura familiar estamos querendo resgatar políticas que se perderam há 30 anos, 20 anos. A política do café tem 20 anos, 30 anos, 40 anos sem investimento. O pirarucu tem 30 anos sem investimento. A piscicultura, que serviu mais como objeto eleitoreiro que uma atividade produtiva, também. O ano de 2015 foi um ano de organizar a casa, de criar eixos, afirmar o nosso espaço político. A Assembleia Legislativa já conta com uma Frente Parlamentar para a agricultura familiar e isso é inédito em Mato Grosso ter um grupo de agentes políticos pensando nisso. O governador Pedro Taques acabou de ir para a França levar a agricultura familiar em uma das agendas da COP 21. Aos poucos estamos conceituando o que é essa nossa estratégia de governo. Para 2016 teremos um incremento no orçamento, que pode chegar a R$ 37 milhões aproximadamente com o auxílio de emendas parlamentares, para desenvolver nossas metas e ações.

Agro Olhar - Além da questão de investimento e de equipamentos, que já está sendo resolvido, um dos entraves na agricultura familiar é a questão técnica, a assistência técnica. O que a Seaf tem feito quanto a isso?

Suelme Fernandes - A Empaer foi esquecida nos últimos 10 anos, 12 anos. A frota da Empaer que encontramos era uma frota de 2001. Esses veículos estavam todos parados. O Governo de Mato Grosso e o presidente da Empaer, Layr Mota, estão fazendo um trabalho fantástico em recuperar o patrimônio público. Hoje, essa frota não é uma frota nova, mas está funcionando e está recebendo manutenção para poder chegar à ponta. A Empaer precisaria de três mil funcionários e temos hoje algo em torno de 450 apenas. É um esforço muito grande para o Governo de Mato Grosso tentar resgatar esse patrimônio público que é um passivo muito grande, além das dívidas da antiga Casemat, entre outras, que acabou virando na massa falida da Empaer com uma dívida astronômica de algo em torno de R$ 700 milhões, INSS, Imposto de Renda. Então, é uma empresa com grandes desafios e problemas para serem resolvidos. Mas, no entanto, a intenção do governo, e vamos ter dificuldades em 2016, é de chamar os novos funcionários públicos que passaram no concurso público para dar uma oxigenada. A assistência técnica é apenas um dos problemas da agricultura familiar. O arranjo produtivo, as políticas públicas, o crédito, a regularização fundiária. É uma série de problemas que precisam ser resolvidas. Os resultados talvez não venham tão rápidos como as pessoas esperam, mas se houver uma continuidade política por um longo período de um, dois, ou três governos, uma política de estado para a agricultura familiar, eu não tenho dúvidas que esse Estado aqui tem tudo para ser o maior produtor de alimentos deste país. Temos condições ambientais adequadas, temos 6 milhões de hectares em área de pequenos produtores, temos famílias assentadas, tradicionais, indígenas, quilombolas, enfim, talvez seja o melhor ambiente do país para produzir alimentos.


  Foto: Assessoria Empaer

Agro Olhar - Não só a produção de alimentos, como hortaliças e frutas que são pontos fortes aqui, temos percebido que a Seaf-MT tem focado a pecuária leiteira. Tanto que em 2015 cerca de 100 refrigeradores de leite foram entregues. O que a Secretaria tem feito e pretende fazer para esse setor, uma vez que a pecuária leiteira em Mato Grosso é formada em grande parte por pequeno produtor?

Suelme Fernandes - Cerca de 80% é de pequenos produtores e hoje, talvez, seja a principal atividade econômica da agricultura familiar. Nós temos estruturado a cadeia do leite a partir da entrega dos resfriadores. Entregamos 98 em 2015 e vamos entregar mais 100 em 2016, pois o resfriador permite que um número significativo de comunidades possam armazenar adequadamente o leite, com condições sanitárias para que o caminhão do laticínio possa fazer a coleta desse leite. Então, ela é uma parte importante dessa estruturação da cadeia do leite. Mas, em 2016 teremos ataque muito forte em pastagem. Hoje, a produção de leite nossa ainda é muito baixa diante da quantidade de rebanho existente, porque na época da seca o gado come mal. Não há um sistema de irrigação, a pastagem vai decaindo e acabamos tendo uma produção menor. A ideia nossa é a partir de 2016 é entrar com um programa em alguns municípios estratégicos de orientação técnica de rotacionamento de pastagem, que é um arranjo que se faz dentro da pastagem em que se distribuem vários piquetes para que o gado na época da seca possa ser remanejado de um piquete para outro tendo sempre pasto verde e saudável para ele poder se alimentar, pois o animal se alimentando bem a produção vem bem. É preciso resolver esse problema, porque o melhor preço do leite é exatamente na época da seca quando o mercado está desabastecido e é quando a produção cai quase pela metade. Vamos começar não de forma global para todas as comunidades rurais, mas vamos tentar buscar algumas fazendas modelos que possam ir fomentando essa técnica que é muito simples e que possa ir "contaminando" os outros produtores para impactar no manejo da produção da pastagem e que possa impactar no resultado do leite. Se conseguirmos com um projeto conseguirmos efetivar essa pastagem ou manejar melhor a alimentação do gado na época da seca nós teremos um incremento muito grande no lucro do pequeno produtor. Mais do que isso, podemos sair de oitavo produtor de leite do Brasil e rapidamente chegar à terceiro ou quarto colocado. Nós temos boas empresas âncoras, bons laticínios bem consolidados. Hoje, Mato Grosso, além de abastecer o seu mercado interno, está vendendo leite para fora do estado. Essa é uma cadeia estratégica que terá investimento neste ano para que possamos melhorar e incrementar a produção.

Agro Olhar - Outro ponto em que Mato Grosso tem ganhado destaque é quanto a piscicultura. Tanto que em 2015 a Sudeco aprovou uma proposta da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec) para a destinação de 20% do FCO Rural para essa cadeia. Podemos melhorar essa atividade?

Suelme Fernandes - A piscicultura é uma cadeia que virou uma verdadeira coqueluche em Mato Grosso. Primeiro pelos rios, segundo estudos internacionais, nos próximos 20 anos acabarão os peixes de rio. Uma prova disso é aqui a bacia do Rio Cuiabá, onde você já tem uma dificuldade enorme na pesca nativa. A pesca artesanal é uma atividade que infelizmente vai entrar em extinção muito rapidamente por causa da pressão da carga de comercialização do peixe. Então, a alternativa é substituir isso pelo manejo da produção de peixe. Toda a nossa estruturação na cadeia do peixe, que tem recursos disponíveis para isso, nós vamos atacar em uma produção, principalmente, onde há mercado que é o Vale do Rio Cuiabá e em Cuiabá, em especial. A intenção é ativar um mil tanques de piscicultura que estão desativados por algum motivo. Já estruturamos a Empaer que em seu laboratório em Nossa Senhora do Livramento produzia 500 mil alevinos por ano e que agora irá produzir três milhões de alevinos, para que possamos ter um peixe com procedência. A Empaer tem estruturado um projeto para qualificar melhor os produtores de piscicultura. Um tanque de 700 m² o produtor deve gastar em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil de ração no ano, mas é um lucro muito grande. E outra coisa que estamos estudando para 2016 é poder incluir o peixe na alimentação escolar.

Agro Olhar - Uma das ações desenvolvidas em 2015 pela Seaf foi quanto ao café, em especial na divisa de Mato Grosso com Rondônia. Porém, não apenas nesta região temos produção. Tangará da Serra é um grande produtor de café também, por exemplo. Como é que a Seaf irão trabalhar do café, por que querendo ou não Mato Grosso possui potencial?

Suelme Fernandes - Temos 20 mil hectares de café produzindo no estado, sendo 90% proveniente da pequena agricultura. Provavelmente muitas as pessoas não sabem que estão tomando um café produzido em Mato Grosso e processado aqui. Nós abastecemos muito o mercado interno com a produção local e temos um grande potencial. O que eu encontrei quando assumi essa Secretaria, como em todas as outras cadeias, pelo menos 30 a 40 anos de atraso só na cafeicultura. Assim, sabendo nós entramos com um grande programa envolvendo nove municípios da região Norte e Noroeste do Estado, que é aonde tem a maior vocação produtiva. São colonizadores que vieram do Paraná, do Espírito Santo já com as sementes para plantar café. Tem gente que ama e gosta do café. Então, esses ambientes são os melhores ambientes para aperfeiçoar e aumentar a produção. Nós, em 2015, já entramos com um estudo de viabilidade para a implantação de viveiros clonais, fomos até a Embrapa e a variedade que se produz em Mato Grosso é uma variedade de 30 anos atrás. Estamos andando de "Fusca", enquanto a Embrapa já inventou a "Ferrari" que é o Café Clonal BRS lá de Rondônia. Para se ter uma ideia o que produzimos em 10 hectares com a nossa variedade se produz em um hectare com essa desenvolvida pela Embrapa. Já estamos levando para estes nove municípios e vamos estruturar os viveiros para disseminar essa nova variedade, porque com a tecnologia a performance aumenta. Inicialmente são estes nove municípios, pois eles estão muito agrupados geograficamente, mas nada impede abrirmos para outros municípios, como Tangará da Serra. No modelo antigo (variedade) somente o modo como a Embrapa e a Empaer estão ensinando a poda dá para incrementar em 30% a produção.

Agro Olhar - E a questão do Prohort?

Suelme Fernandes - Estamos felizes por ter fechado em 2015 lançando a primeira cotação de produtos da agricultura familiar. São 43 itens da agricultura familiar que há mais de 20 anos não se fazia cotação. Qual é a importância de se cotar os preços da agricultura familiar? Qual a importância disso para o consumidor lá na ponta? Quando você vai comprar um quilo de cenoura você precisa saber quanto ela foi cotada no preço do mercado estado, nas centrais atacadistas, para saber se houve preço exorbitante por parte do supermercadista, que às vezes você tendo um indicador fiscal você têm como comparar o custo e até pode denunciar crimes contra a economia popular, preço abusivo e todas as outros ganhos nisso. Para o produtor se ele não possui um índice oficial qualquer preço que o atravessador dá para ele serve. Se eu tenho um índice oficial e alguém fala que o quilo da mandioca está R$ 3 ou R$ 4 e neste indicador está R$ 6 ou R$ 7 eu tenho condições de negociar o preço. Como não se fazia isso o produtor acaba ficando refém dos preços das centenas de atravessadores que compram produtos e às vezes há os bons comerciantes que põe preço justo, mas há uma grande parcela de aproveitadores que vivem escravizando o pequeno produtor. Essa cotação oficial tem impacto, também, na produção do pequeno produtor, pois na medida em que ele souber onde estão os melhores preços e em que época estão ele irá organizar sua produção para aquele período. A cotação é vital para a organização da agricultura familiar e nós vamos divulgar isso.
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