Olhar Direto

Segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Opinião

Lá se vão 300 anos…

Autor: Marcelo Portocarrero

06 Jul 2019 - 08:00

Das varandas dos apartamentos é fácil perceber como Cuiabá cresceu através da expansão de sua área urbana.

Cresceu tanto que se tornou uma metrópole levada por avenidas e pontes a mesclar seus habitantes com os de Várzea Grande sua cidade irmã. O rio que lhe dá nome e que para alguns as separa sempre foi o elo de união que as tornou uma só desde tempos imemoriais.

Este mesmo rio foi o caminho percorrido pelos bandeirantes que para cá vieram a mais de três séculos e para a maioria das pessoas que daqui saia durante muitos anos. Poderíamos até chamá-lo de rio-estrada por ser o único meio de acesso a essa região durante o primeiro período da ocupação do sertão do centro-oeste e por sua efetiva contribuição na expansão de nossas fronteiras até nos tornarmos o maior país do continente sul-americano. Coincidência ou obra divina o Centro Geodésico aqui está desde que Rondon, o maior sertanista desse país o determinou e implantou.

O preço do progresso veio sendo cobrado aos poucos e mais efetivamente desde o início da década de 70 como que referendando o Plano Nacional de Desenvolvimento – PND, implementado pelos governos militares para promover a descentralização e a interiorização do desenvolvimento do país o que colocou Cuiabá bem no meio desse processo.

Assim, do quase isolamento Cuiabá passou a ser uma excelente oportunidade e propiciou que muitos para cá viessem fazendo a cidade receber os efeitos benéficos e também os colaterais do progresso já que teve que conviver com o rápido e descontrolado aumento de sua população.

Essa bem-vinda circunstância passou a interferir na bucólica cidade fazendo com que aquele modo de viver que foi determinante para a formação da cultura cuiabana, fortemente caracterizada pela simplicidade, alegria e receptividade fosse aos poucos se adaptando aos novos tempos.

De outro lado a paisagem arbórea que durante muito tempo determinou seu apelido de Cidade Verde está cada dia mais distante, tanto que para muitos hoje só é percebida através de frestas por entre os edifícios.

Se já está difícil ver os coloridos contrafortes de Chapada dos Guimarães ou as serras que se mostravam ao longe no rumo de Rosário Oeste o que dizer então do morro de Santo Antônio que agora só pode ser visto de algumas partes de cidade ou quando se tem a oportunidade de ir ao vizinho município que recebeu seu nome.

Certo é que o progresso descontrolado e mal administrado trouxe junto a poluição que acabou com a saúde do rio obrigando a população a adaptar seu paladar ao sabor dos peixes que são criados fora de suas insalubres águas ou mesmo trazidos de longe onde a pesca ainda não foi contaminada pela má influência da cidade.

Só os mais antigos se lembram dos pescadores deslizando em suas peculiares canoas por debaixo da ponte Júlio Müller. Naquele tempo os cuiabanos compravam peixe fresco diretamente da fonte, quando eram guardados vivos nos jacás de bambu trançado, uma das tradições ribeirinhas que o progresso exterminou.

Tudo isso acontecia na rampa de acesso ao rio no bairro do Porto, bem perto das casas comerciais e residenciais onde os ribeirinhos aproveitavam a fartura do rio para jogar anzol na certeza de “matar” um bagre na minhoca ou uma peraputanga no pinhão.

Não era surpresa, mas dependia de saber a hora para encontrar os pescadores retirando do rio enormes pintados, cacharas e jaús que mal cabiam em suas rústicas canoas de tronco numa época em que ainda se pescava com rede, zagaia e espinhel. Aqueles gigantes de outrora sempre estavam acompanhados de pacus, pacu-pevas, jurupocas, jurupenséns, bagres, piavuçus e tantas outras espécimes que por aqui abundavam.

Quem mora na parte alta da cidade, ali pelo entorno do antigo quartel do 16° BC, hoje 44° BIM, sabe que lá ainda existe um pouco do saudável verde na paisagem urbana, mantido graças às velhas mangueiras, ingazeiros e outras árvores bem tradicionais da antiga cidade.

Com o passar do tempo aquela característica foi sendo apagada, assim como as edificações antigas foram dando lugar a prédios modernos sem muita preocupação com a preservação do patrimônio histórico a despeito do belo trabalho realizado em alguns deles como por exemplo o Arsenal de Guerra, o Colégio Senador Azeredo e a Escola Modelo Barão de Melgaço.

Entretanto, muito da história da cidade também foi sumariamente destruído como é o caso da Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, para citar apenas um, o mais emblemático de todos. Por mais que se dignifique a majestosa Basílica construída em seu lugar a antiga igreja jamais será apagada da memória daqueles que a conheceram e que não se conformam com seu injustificado fim.

O que ainda se vê é o inexplicável desleixo com o que resta do patrimônio histórico da cidade quer seja pelo poder público, quer pela inércia da população ao assistir passivamente a destruição de seu passado.

Guardadas as diferenças, esta vem sendo a sina dos espaços públicos como a Praça Alencastro que já foi jardim e hoje é parada de ônibus, da Praça Ipiranga que também já foi jardim e agora nem da para dizer o que é. Aliás, este também parece ser o destino de alguns eventos, festejos e tantos outros equipamentos públicos que para atender aos “planos de revitalização”, prefeito após prefeito, vereador após vereador, estão sendo descaracterizados e raramente recuperados em suas formas originais, principalmente quando utilizados para outras funções.

Infelizmente esse raciocínio tido como progressista acaba por prejudicar as tradições e história de Cuiabá.

Uma pena!

Marcelo Portocarrero é Engenheiro Civil
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