Olhar Direto

Domingo, 20 de setembro de 2020

Opinião

Os vários carnavais brasileiros e a época pós-moderna

Autor: Carlos Américo Bertolini

20 Fev 2020 - 08:00

Falar sobre os carnavais passados, refletir sobre sua longa trajetória, cujo término em nossos dias revela um grave deslocamento de comportamentos e atitudes, é sempre uma experiência desafiadora. Como encarar o “Carnaval dos 500 anos do Brasil”? Será que esse carnaval foi diferente daqueles dedicados a comemorar “300 anos de Cuiabá”?
 
Para o analista cultural atento aos fios da trama do discurso de brasilidade ufanista, para aqueles que acreditam em questionar nossa vivência individual e os testemunhos de nossas lembranças, sabe que só ha contribuição relevante ao articulá-la com o percurso cronológico dos movimentos coletivos.
 
Há uma vasta história das manifestações momescas em épocas anteriores a invenção do país antes de 1822. Mesmo enquanto América portuguesa, ou em período breve, um território dos domínios espanhóis, as populações europeias brincavam carnaval antes de que qualquer um sonhasse que este país dos carnavais fosse virar o pesadelo em que nos encontramos.
 
O reinado de momo é a possibilidade de ter alguma alegria com o país em mãos de estúpidos e carolas, por exemplo. Mas esta quadra cronológica não é, tampouco, a primeira vez que um regime autoritário finge ser democrático, ou que os funcionários públicos de alta cúpula cuspam reiteradamente no prato que comem e afrontem os mais básicos princípios de cidadania. Respeitar o contribuinte, o eleitor, o cidadão é um bom tema para expetativas fantásticas, pois nada disso existe no momento, puro reinado do ancestral ódio aos pobres, ainda que travestido de nova política, de um lado, e a população que insiste em esperar por uma vida minimamente digna do nome, de outro. Afinal não custa ter esperança que as coisas melhorem, o que, por sua vez, é um típico tema ideal para carnaval.
 
Diversos analistas lembram que há várias dimensões para o carnaval, bem antes da invenção do Brazil, iniciada, grosso modo, após 1822. Vejam bem que o carnaval, visto em sua trajetória multimilenar, permite previsões sobre o futuro próximo, como a de que seu tema será, em 2022, referente aos “200 anos de independência”. Há um mecanismo simbólico que garante repercussão a este rito de inversão. Pois na base do carnaval dos universitários de Coimbra, muito antes das navegações lusitanas serem sequer concebidas, havia uma única data em que os estudantes elegiam o rei de sua república. Pois é, um único dia para que os subalternos sentissem a troca de lugar dentro de determinada hierarquia, portanto, alunos mandando em seus professores, só na fantasia. Um dia para compensar o fardo carregado ao longo do resto do ano.
 
Os bailes de máscaras, em salões ou na Piazza San Marco em Veneza, também contribuíram para apimentar as relações conjugais e tornar possíveis as demais relações adulteras, pois a comemoração se sustentava no pacto de que todos participantes desconheciam as fantasias alheias… É lógico que os amantes pulavam tais compromissos e se divertiam às claras diante de seus respectivos cônjuges, escondidos pelo suposto anonimato… Essa é outra dimensão do rito de inversão: fingir estar fantasiado e tirar algum proveito disso.
 
Do ponto de vista cronológico, o carnaval é uma festa determinada pela divulgação da data do domingo de páscoa. Dele é abatido o período de 40 dias de jejum, e foi comum até o final dos regimes absolutistas europeus, acontecendo entre o dia de reis e a quarta-feira de cinzas. Mas nessa época já existia a dita América portuguesa, reproduzindo os hábitos e comportamentos da metrópole. Tanto quanto as touradas de Cuiabá, que eram encenadas após a cumpridas as etapas da liturgia da festa do divino espírito santo, nosso carnaval também está vinculado por muitos laços com a religião católica. Poucos atentam para a constatação de que os carros alegóricos apareceram primeiro em procissões na antiga capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com sede no Rio de Janeiro entre1815 e 1822, portando as imagens cultuadas em cada efeméride.
 
O carnaval carioca, com desfiles de escolas de samba só aconteceu a partir de 1928. O samba não era um ritmo tocado no século 19… Mas foi a geração do movimento estético autodenominado modernista que patentou a junção dos termos acima declinados. Ainda bem que em nossa época a festa popular tenha recuperado suas múltiplas raízes musicais e abandonado a tolice de que uma única cidade fosse dona da festa. Causa muita alegria perceber que as populações de Salvador, Recife, São Luís, Belém do Pará e de Parintins (AM), dentre de muitas outras localidades, não se preocupem com o que burocratas da cultura oficial digam a seu respeito, e dancem os ritmos que querem. Esta também é uma faceta do rito de inversão… Quantos de nós acreditaríamos que o maior contingente de foliões do país um dia se apresentasse em São Paulo?
 
O carnaval transborda os estreitos limites das receitas de autoridades e da tentativa de apropriação de sua vitalidade pelos capitalistas e demais negociantes, transgredindo e subvertendo a pasmaceira insuportável que nosso país vive nestes dias de carolice e intolerância oficiais. Viva o carnaval, longa vida aos foliões.
 
Podíamos sugerir a criação do bloco “Dê uma banana pro seu Messias”, mas aí o plágio seria injustificável, ou não?
 


Carlos Américo Bertolini Bacharel em Ciências Econômicas (IFCH/UNICAMP/1980); Mestre em Educação (IE/UFMT/2000); Doutor em História (IGHD/UFMT/2016); funcionário público federal, lotado na UFMT (08/1982); e-mail:.
 
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