Olhar Direto

Sábado, 19 de setembro de 2020

Opinião

Da Varíola esquecida...

Autor: Lidiane Álvares Mendes

21 Fev 2020 - 08:00

A varíola foi por um longo período causadora de pânico e mortes entre as civilizações. O vírus está adormecido nos laboratórios de segurança máxima situados, um no Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta nos Estados Unidos e outro no Centro Estatal de Pesquisas de Virologia e Biotecnologia em Koltsovo na Rússia, desde a década de 1980, quando aparentemente foi erradicada no mundo e divergindo opiniões de cientistas políticos, médicos e pensadores contemporâneos, pelo fato deste vírus estar armazenado em países que historicamente são inimigos, pairando no ar a incerteza de sua utilização como arma biológica, foi por um longo período causadora de pânico e mortes entre as civilizações.

Sua trajetória é longa. Há casos de varíola catalogados desde antes de Cristo. Até o final da década de 1970 o vírus caminhou pelo mundo. Seu nome é derivado do latim, e significa mancha ou pústula, característica comum aos que portaram esta doença. Durante o período das grandes navegações, ela atravessou os mares e sorrateiramente aportou no Brasil, onde seu primeiro surto foi trazido por colonos franceses no Maranhão de 1555. Tão logo os europeus atravessaram o oceano para a colonização das terras além-mar e a intensificação do tráfico de negros escravos se fez presente, a varíola se propagou nas vilas e cidades em formação, adentrando os sertões brasileiros com os jesuítas.

O vírus perambulou pelo período colonial brasileiro e no Império de Dom Pedro II causou terror em terras mato-grossenses. O cenário era a Guerra do Paraguai, único conflito armado internacional no qual o Brasil lutou diretamente contra seu vizinho Paraguai. Foi nas fronteiras do então território do Mato Grosso, que na época abrangia as atuais regiões de Mato Grosso do Sul e Rondônia, que a guerra se consolidou entre os anos de 1864 a 1870, e foi no meio desta batalha que a varíola deu o ar de sua graça, aportando na então capital deste vasto território em 1867. O vírus desembarca em Cuiabá com o comboio vindo de Corumbá, na alma do soldado Antônio Félix, pertencente ao Batalhão de Voluntários. Durante o percurso, 71 militares foram infectados.

O estrago estava feito. Do desembarque do soldado em outubro de 1867 até dezembro daquele ano, quando a doença foi enfim controlada, a varíola matou 3 mil habitantes da pacata Cuiabá, levando em consideração que havia 12 mil habitantes nestas paragens, sendo um saldo de mortes de extrema relevância para a sociedade local. O vírus não escolheu raça, cor, credo, sexo, idade e/ou classe social. A população entrou em desespero e o pânico tomou conta das vielas, ruas e becos. O burburinho em torno da varíola foi geral a ponto do então Presidente da Província, José Vieira Couto Magalhães, mandar construir um hospital para abrigar pobres e indigentes.

No cemitério do Cai-Cai a quantidade de corpos que chegavam era tamanha que foi necessário o empilhamento dos defuntos e logo, os cadáveres eram queimados. Os soldados vasculhavam as residências em busca de mortos e moribundos, e como é típico de qualquer sociedade: enquanto uns choravam outros vendiam lenços! Ou, enquanto uns enterravam seus mortos, outros vendiam remédios milagrosos como o chá de erva de cão, feito de fezes de cachorro.

A varíola que assolou Mato Grosso em 1867, tem em sua perspectiva aspectos parecidos com as epidemias do século XXI, quando o contágio pode ser através do contato com objetos infectados, pelo ar, espirro ou gotículas que saem enquanto o indivíduo infectado fala. Além disso, as notícias falsas e os tratamentos milagrosos divulgados antes, de boca em boca, e hoje pela mídia virtual, que guardada as devidas proporções de período, causam pânico na população, elevando o medo da morte consagrando o senso comum em acreditar e divulgar notícias sobre epidemias e suas mazelas sem checar conscientemente a informação.

De tempos em tempos, vemos passear pelos continentes, vírus e bactérias, que assim como a varíola levam a óbito milhares de pessoas. De tempos em tempos, também vemos as sociedades apavoradas diante destas epidemias, buscando respostas nas convenções divinas e esquecendo-se de que o surgimento de vírus e bactérias e seu alojamento no organismo dos seres humanos, são consequências do aumento populacional, da devastação ambiental e das convenções políticas e econômicas estabelecidas durante séculos. As epidemias são no mínimo causadas pelo comportamento desregrado dos seres humanos. Assim como a varíola, as epidemias do século XXI demonstram as incertezas que regem a vida.

Da varíola “esquecida” nos laboratórios dos Estados Unidos e da Rússia, da varíola que assolou Mato Grosso no período Imperial, e da varíola que não se houve notícias aos novos vírus que surgem e são controlados, podemos observar as particularidades comuns que envolvem as epidemias que cruzam os séculos e assombram os seres humanos – que é a invasão nos espaços ambientais – quando se toca no que não deve, recebe o que não quer!
 

Lidiane Álvares Mendes, é mestra em História pela Universidade Federal do Amazonas. Professora da rede pública e privada de educação em Mato Grosso.
 
Sitevip Internet