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Quarta-feira, 14 de abril de 2021

Opinião

O mercado e o custo social: a dicotomia de um país a beiro do abismo

Autor: Fernando Henrique da Conceição

26 Fev 2021 - 08:00


A relação entre mercado e governo sempre está presente de forma indireta ou direta, em diversas atividades econômicas. É utópico e sofista acreditar que existem estruturas governadas essencialmente pelo mercado. As relações público-privado podem se dar tanto no âmbito da oferta quanto no da demanda. As políticas públicas, a tributação e a própria moeda são meios a partir dos quais o governo interfere e participa das atividades de mercado. Dessa forma, acreditar que a situação econômica deve ser regulada pelas “leis do livre mercado” penalizará principalmente a parcela mais pobre da população, para a qual o gasto com alimentos é proporcionalmente mais alto do que nas demais camadas sociais. 

Nesse aspecto, o aumento do desemprego, e, consequentemente, a queda da renda e o aumento da precarização das relações de trabalho, juntamente com a pandemia contribui ao mesmo tempo em que reduz as pressões do custo do trabalho sobre as margens de lucro das empresas, o desemprego e consequentemente a queda de renda deprimem a demanda , tornando mais difícil ajustar os preços. O que estamos vendo ao longo desses dois primeiros meses de 2021.

Dessa forma, sacrificar milhões de brasileiros no altar do “Deus mercado”, retirando-lhes os meios de subsistência enquanto aumenta a transferência de recursos orçamentários aos detentores da dívida pública, não parece ser uma maneira inteligente de tocar um país quebrado a beira de um abismo político econômico. A desigualdade social vem crescendo e o índice de pessoas na pobreza e miséria também. O custo social é enorme e a pandemia ainda auxiliou nessa triste constatação. Literalmente o Brasileiro vem “sobrevivendo”, já que mais de 50 milhões de pessoas vivem com apenas um salário mínimo, quase 30% da população.

Nesse começo de 2021, o salário mínimo consegue adquirir pouco mais que 1,7 cesta básica, a menor relação desde 2005. O valor do salário mínimo no Brasil está abaixo da média mundial (US$ 486.00) e é também inferior ao de países das Américas (US$ 668.00), considerando a metodologia de paridade do poder de compra, a partir de cálculos da Organização Internacional do Trabalho.

Existe por tanto uma dicotomia de um país a beira de abismo. Poucos lucram com a financeirização e muitos estão em colapso social, sem renda, sem perspectiva de emprego e passando fome e em plena pandemia, sem ao menos perspectiva de vacina. Ou assumimos que somos um país pobre, subdesenvolvido e criamos políticas públicas universais que facilitam o acesso a saúde, educação e renda e a uma vida digna, ou sobreviveremos sempre na incerteza e reféns de políticas mercadológicas que praticamente beneficiam algumas dezenas de famílias. Parafraseando o Professor André Luiz Passos Santos da USP: “Segundo a sabedoria popular, existem diversos meios de se matar o carrapato. Um deles é matando-se a vaca. É nesse caminho que queremos persistir? EHHH professor, a vaca foi para o brejo e no abatedouro não nos sobrou nem a carne moída.

Fernando Henrique da Conceição Dias (fhdias1290@gmail.com) Economista Mestrando em Economia pela UFMT Pós graduando em Gestão de Projetos Gerente Comercial.
 
 
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