Olhar Direto

Quarta-feira, 14 de abril de 2021

Opinião

Prefeitura de Cuiabá libera as aulas presenciais no pior momento da pandemia

Autor: Claudio Dias Filho

02 Mar 2021 - 08:00

A situação da pandemia de covid 19 vem se agravando muito nesses últimos dias no Brasil. No    dia 24 de fevereiro chegamos a 250.000 mortos, um dia depois completou 1 ano do primeiro caso no Brasil e nesse mesmo dia, batemos o recorde negativo de mortes foram mais de 1.500 em 24 horas (1). E ainda no dia 25 tivemos o colapsado a rede de hospitais em Porto Alegre o que levou à suspensão das aulas presenciais naquela cidade(2). Mesmo nesse cenário temos um retorno de aula presencial em Cuiabá nesta segunda-feira 01 de março justamente no pior momento da pandemia no Brasil.

Esse seria o momento de manter e aperfeiçoar o ensino remoto até a vacinação de pelo menos todos os educadores e as pessoas do grupo de risco da comunidade. Não se trata dos professores “furarem fila” e se tornarem grupo 2, (atualmente os professores são do grupo 4) mas sim de vacinar todos do grupo de risco para que , logo após os professores sejam vacinados para iniciarmos o sistema híbrido. Cada idoso que morre de covid 19 é porque o plano de vacinação nacional não foi eficiente. Temos que cobrar aceleração nesse plano e ao mesmo tempo ter paciência de continuar se cuidando. No caso das escolas mesmo com a lentidão e má vontade do governo federal podemos ter a vacina em dois ou três meses. Com a vacinação garantimos a segurança dos mesmos. Qualquer fatalidade que venha a acontecer com um deles será uma vida que foi em vão pela ansiedade de um retorno precipitado e em momento inapropriado. 

Na última quinta-feira, 25 de fevereiro, até o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que compactua de uma política de negação da gravidade da pandemia, afirmou “que o país vive  uma nova etapa da pandemia de Covid-19”, com aumento na contaminação que pode "surpreender gestores”.  Nesta mesma reunião, o representante do Conselho de Secretários de Saúde, Carlos Lula,  afirmou que o mês de março poderá ser o mais difícil já enfrentado devido ao alto número de estados com leitos em ocupação quase máxima.(5) Afirmativa que vai ao encontro do que declarou o cientista Nicodelis em entrevista a CNN Brasil: "Março pode ser pior momento desde início da pandemia e, eu ouso dizer, da história do Brasil, porque nunca tivemos um evento capaz de matar tantos brasileiros em tão pouco tempo como o que nós estamos passando", (11). Faço um apelo para nos atentarmos ao bom senso e enxergarmos o avanço monumental que infelizmente a pandemia está tendo em várias partes do mundo e no Brasil não tem sido diferente; desde dezembro de 2020 já caminhávamos para uma segunda  onda, que gerou o colapso no sistema de saúde de Manaus em janeiro com falta inclusive de insumos básicos como oxigênio. Após o colapso de Manaus, tivemos o caso de Porto Velho,  ambas as cidades localizadas em Estados vizinhos ao nosso. Muito desse colapso se deve às aglomerações, falta de cuidados muitas vezes até estimuladas por políticos como o presidente do Brasil, mas soma-se a esse fator a nova variante que domina os novos casos no Amazonas e chegou em Rondônia. Como para os vírus não existem fronteiras muito provavelmente essas variantes já circulam entre nós (7) e nesse sentido o próprio governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, que desde o início da pandemia assumiu uma postura fraca em relação ao isolamento social alertou no dia 3 de fevereiro de 2021 que Mato Grosso pode ter colapso semelhante ao do Amazonas (4) . O Secretário Estadual de Saúde em audiência que avaliou a possibilidade do retorno às aulas também chama a atenção para os perigos do retorno presencial e não recomendou o mesmo: “Gilberto Figueiredo disse que não considera este momento seguro para o retorno às salas de aula. Enfatizou que dentro de 15 dias Mato Grosso não deve ter mais leitos de UTI disponíveis”. “Essa volta com segurança deve estar alicerçada na redução substancial de casos de Covid-19”.(6)  A partir da analise da situação feita em audiência pública com presença da sociedade civil a SEDUC/MT  manteve para a rede estadual de ensino o sistema remoto.

Contrariando todos os alertas e os indicativos mais graves da pandemia a prefeitura de Cuiabá que vinha adotando no início da pandemia algumas medidas mais restritivas, misteriosamente mudou de postura e de forma irresponsável liberando as aulas presenciais e não poderia escolher pior momento.  A prefeitura cedeu em grande parte a pressão da rede particular de ensino, liderada pelo sindicato patronal dos donos de escolas.  Ao sair da reunião no mês de janeiro com os representantes das escolas privadas afirmou: “Não podemos ser insensíveis à realidade da rede privada. É uma situação muito dramática e, claro, quem é empresário do setor está passando uma situação muito difícil”. (12) O prefeito mudou o tom e passou a defender o retorno por uma questão econômica não levando em conta o risco sanitário que tal decisão traz e não percebe que crise financeira nas escolas particulares ocorre justamente pela crise econômica grave que o país está passando e não necessariamente pela adoção temporária do sistema remoto.
“Respira e Não Pira” (Kid Cosmic)

Ano passado as previsões de criação de uma vacina eram de 3 a 4 anos. A ciência teve a capacidade técnica de criar várias vacinas em menos de um ano de pandemia esse feito histórico é fruto de um esforço conjunto de toda a humanidade. Essa conquista deve ser usada para acalmar a ansiedade de se expor, já que surgiu uma esperança no horizonte que mesmo com toda dificuldade, está cada vez mais próximo. As palavras mais do que nunca são paciência, solidariedade, empatia e luta pela vacina. Explicar para os nossos filhos e filhas que o momento que estamos passando requer um pouco mais de cuidado para que em breve possamos aos poucos retornar as atividades e encontrar nossos amigos e amigas faz parte do aprendizado humano que desejamos para eles. Essa cautela ajudará que o mais breve possível saiamos dessa pandemia por isso devemos reivindicar vacina para todos e todas. 

Mesmo as escolas que em tese desenvolveram protocolos cuidadosos para a redução de danos não estão preparadas para o novo contexto pandêmico onde as novas variantes como as que foram detectadas no Brasil (Manaus), África do Sul e Inglaterra despertam mais preocupação. Passamos a ter mais interrogações do que já tínhamos antes. As pesquisas estão acontecendo quase de forma paralela ao surgimento das variações para tentar explicar o fato do aumento exponencial de contaminação nessas regiões com o maior percentual de casos graves. Em vários países já substituem o uso de máscaras caseiras por máscaras industrializadas de preferência as tipo N95 ou PFF2 tidas como eficientes para as novas variantes. (10) Também chama atenção o aumento de casos da doença envolvendo pessoas mais jovens modificando em grande parte o perfil dos doentes.  Questão essa que também está em investigação para um melhor entendimento. Há hoje muitas incógnitas.  Provavelmente em breve teremos mais informações sobre essas pesquisas e esse também é um dos motivos para aguardarmos (8) (9). Como diz a música Argumento do sambista Paulinho da Viola “Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar” prudência pode ser outra palavra importante nesse momento.

O destino de um é o destino de um é compartilhado por todos. (Mestre dos Magos)
              
Neste momento toda cautela é bem vinda. Cuidar de si é cuidar da comunidade já que todo caso que precise de auxílio hospitalar aumenta a pressão sobre o sistema de saúde. Evitar a contaminação é um exercício coletivo e uma responsabilidade social. O que alguns chamam  de  “direito individual” de se expor seja na rua ou em uma sala de aula, nesse pode prejudicar toda a comunidade já que gera aumento de internações em hospitais, expõe os trabalhadores da educação a doenças no local de trabalho, muitos dos contaminados mesmo que “curados” da Covid carregam seqüelas, sem contar o risco de perda de uma  vida, qualquer revés que possamos ter será  irreparável  com forte impacto psicológico para toda a comunidade escolar.

A escola para além da educação formal também tem uma missão humanista que nesse momento faz-se necessária por em prática, mais que palavras, devemos ter a ação como exemplo.  Já chegamos até aqui, muitos se perderam no caminho, mas nós continuamos e queremos viver mais e ver em segurança toda a sociedade. Preservar a saúde de nossas crianças, mas também dos educadores além dos familiares que convivem com pessoas da comunidade escolar e evitar o aumento da saturação do sistema de saúde são nossas obrigações.


Claudio Dias Filho é professor e pai
claudiodias47@gmail.com
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