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Sábado, 22 de junho de 2024

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Coluna Flash Fiction volta com novo conto: O poder do suco

A suqueria demorou pra fazer sucesso. Mas quando fez foi coisa de louco.

Eles começaram como todos começam. Laranja, abacaxi, uva, maracujá, melão, melancia, tamarindo, pêssego, jabuticaba, acerola, kiwi, tudo que é fruta. Água ou leite. Açúcar ou adoçante. Também faziam comida: pastel, sanduíche natural, misto quente.

Era uma coisinha simples: rua parada, dez mesas dentro, doze fora, TV na parede. Não lotava nem esvaziava. O dono resolveu improvisar com misturas exóticas. Suco de lasanha bolonhesa, peixe assado, filé-mignon, picanha com alho, arroz com piqui, farofa de bacon, feijoada, brócolis com alho, pururuca, pastelão de frango com aspargo.

A ideia pegou. Falavam que era vitamina, não suco. O dono rebatia que pouco importava a classificação desde que vendesse. Implantou o delivery. Em um mês tinha 20 motoqueiros na folha de pagamento. Começou a importar produtos.Suco de foie gras, suco de lagosta no molho barbecue, suco de salmão com gengibre, suco de pepino norueguês com raspas de cacau. Um sucesso atrás do outro.

Outras suquerias vieram em seguida. A cidade foi infestada. O estado. Logo o dono viajava o país treinando franqueados. Com o dinheiro montou um centro de pesquisas, testando todos os ingredientes possíveis. A suqueria virou multinacional. As pessoas não queriam mais mastigar; faziam suco de qualquer coisa. Pratos e talheres foram substituídos por grandes copos. Indústrias de canudos plásticos e liquidificadores ditavam a economia. O panorama mundial foi transformado. E a mutação começou. Os dentes não eram mais necessários. Caíram.

A humanidade enfim se rendera ao poder do suco.

SANTIAGO SANTOS é escritor, jornalista, tereréficionado e mora em Cuiabá. Publica doses concentradas de literatura no www.flashfiction.com.br - de conversas de boteco a universos paralelos, de casos indecifráveis à análise do sorriso de um dragão banguela. A coluna no Olhar Conceito é publicada todo sábado.

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