Olhar Conceito

Terça-feira, 25 de junho de 2024

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Franz Kafka: “Diante da Lei” e o artista do impossível

 [Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que nem é meu objetivo desenvolver aqui nem me caberia alcançar num texto de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Somos o leitor e eu sentados conversando sobre estes artistas. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

[Segundo aviso: aproveito o fato de morar na Alemanha para falar hoje e nas próximas semanas sobre autores de língua alemã e/ou autores brasileiros que tiveram alguma relação com a literatura em língua alemã. Ao final do intercâmbio voltarei à nossa literatura em língua portuguesa.]


Franz Kafka (1883-1924), como eu já disse semana passada e em muitas outras ocasiões, dispensa apresentações: é um dos autores mais lidos no ocidente. Semana passada conversamos sobre a sua narrativa ,,Ein Hungerkünstler” (“Um Artista da Fome”, 1922). Conversaremos desta vez sobre outra narrativa sua, o ,,Vor dem Gesetz” (“Diante da Lei”), publicado pela primeira vez em 1915.

A narrativa, tida como uma “parábola”, escreveu Kafka como parte de seu romance inacabado ,,Der Process” (“O Processo”, publicado em 1925, após a morte de Kafka). A parábola, portanto, foi extraída do romance e publicada pelo próprio Kafka separadamente como texto literário completo – um dos poucos textos do autor lançados enquanto ele ainda vivia.

Sendo assim, conversaremos aqui sobre a parábola ,,Vor dem Gesetz” como texto autônomo, já que o próprio Kafka o tratou como tal.

O texto é curtíssimo. São apenas duas páginas. Em linhas gerais, a parábola é a história de um homem “do campo” que se vê diante do “Portão da Lei” – e do seu vigilante, que não deixa que o homem do campo atravesse o portão afirmando que atravessá-lo “É possível, mas não agora”. O homem do campo, então, espera. Espera “dias e anos”. Até às pulgas no casaco do vigilante pede o homem do campo ajuda (não pedimos nós mesmos sempre ajuda às “pulgas do casaco” alheio?). Os anos passam, o homem do campo já está prestes a perder a visão por velhice (e por insistência – não perdemos nós também a visão depois de tanto tentar?), e já na boca da morte resolve o homem do campo fazer uma última pergunta ao vigilante, que ainda está lá. Pergunta o motivo de, durante todos esses anos, nenhum outro homem ter tentado atravessar o Portão da Lei, visto que todo homem anseia pela Lei. A resposta e o desfecho eu não conto aqui para não estragar a leitura dos que se aventurarão pelo (curto) texto de Kafka.

“Diante da Lei” estamos todos nós, de um jeito ou outro. O Portão está sempre ali, sempre entreaberto, sempre “à mão” – terrivelmente “sempre à mão”: terrivelmente porque a mão nunca chega, nunca alcança o que almeja.

A leitura mais óbvia (e também válida, porém não a única) da parábola é aquela das dificuldades do homem frente à burocracia, assim como da crueldade que essa dificuldade implica, principalmente aos homens de classes abaixo da dominante: minorias de todo o tipo – ou seja, uma parte considerável dos homens. Digo “crueldade” porque essa impossibilidade de utilizar a lei (sendo, assim, por ela utilizado) é a triste realidade daqueles que não ocupam posições de poder. Assim é o homem, assim sempre foi e infelizmente assim ainda será.

Essa leitura, porém, é ainda rasa. Fosse só este o conteúdo do texto de Kafka, nem mesmo a sua maestria estilística salvaria o texto do esquecimento depois de algumas décadas. Fosse só isto o texto de Kafka, não seria ele um clássico.

Ou seja, além da óbvia maestria estilística de Kafka e da primeira camada de interpretação, há ainda muitos outros elementos interessantíssimos em ,,Vor dem Gesetz”, a saber: a impossibilidade de saber o homem o que ele mesmo é; a impossibilidade de saber o homem o que o outro é; a impossibilidade de saber o homem o que o mundo ao seu redor é (ou o mundo dentro de si, ou o mundo dentro do outro). A impossibilidade é uma constante na arte de Franz Kafka.

São, portanto, muitas as camadas. E exatamente isso, como já dito acima, faz do texto um texto clássico. O texto clássico não se esgota: ele encontra leituras e leitores novos com o passar do tempo, e muitas outras num mesmo tempo e em cada leitor. O texto clássico é o objeto visto de cima, de baixo, da esquerda, da direita, de dentro. Quando mais o texto dá, mais ele tem e mais ele é. O texto clássico é a fonte d’água que não seca nunca.

Kafka nos deu a lição.

*A coluna Rubrica, publicada todas as segundas no Olhar Conceito, é assinada por Matheus Jacob Barreto. Matheus nasceu na cidade de Cuiabá/MT. Foi um dos vencedores das competições nacionais “III Prêmio Literário Canon de Poesia 2010” e “III Prêmio Literário de Poesia Portal Amigos do Livro de 2013”. Teve seus poemas vencedores publicados em antologias dos respectivos prêmios. Em outubro de 2012 participou da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Estuda na Universidade de São Paulo e mora na capital paulista.  Escreveu o livro “É” (Editora Scortecci, 2013).

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