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Sábado, 22 de junho de 2024

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Caderno H: Cuiabana vai a Paris e conta suas experiências em notas de viagem

(A escritora e jornalista cuiabana Stéfanie Medeiros começou uma nova aventura ao mudar de ares e começar uma temporada na Europa. Inspirada por suas referências literárias e pelas maravilhas de passar pelos mesmos lugares que suas grandes inspirações, rodeada de cafés, pessoas e lugares diferentes, ela começou um diário virtual. Suas notas de viagem voltaram para a coluna que ela já possuiu no Olhar Conceito, " Caderno H", e são publicadas todos os domingos neste portal).

Notas de viagem (quinto dia: 6 de maio de 2015, PARIS, França)

- O diálogo mais bonito dos últimos tempos aconteceu em um ponto de ônibus. Condutor: "Paris?"; Stéfanie: "Paris!".

- Lição do coração: Existe, em ordem crescente de intensidade, os seguintes sentimentos: Uma atração, uma queda, um desabamento, uma distração, uma "parada aí", a paixão, o "pra que rotular as coisas", o relacionamento complicado, o relacionamento sério, o amor e Paris.

- O taxista que me levou pra casa (sim, *minha casa*) falava francês, inglês, espanhol e *português*.

- Na hora do aperto eu falo francês que é uma beleza.

- Como lidar com o nascer do sol em Paris?

- Anfitrião prestativo é aquele que atende o telefone às 6h e te guia até o lugar que você não consegue achar. No caso, a porta do apartamento.

- Dormir em Paris é melhor que dormir em Cuiabá porque quando você acorda você está em Paris. E também porque sonhar torna-se obsoleto.

- Aquela imagem mental: Dormindo debaixo do edredon, finalmente sem sentir frio, parei um momento para visualizar aonde eu estava. No coração de Paris. Fui comprar pão e vi Notre Dame.

- Doa-se coração, porque Paris já bombeia meu sangue de uma forma mais eficiente.

- Um frio de rachar e as pessoas tomando sorvete como se estivesse calor.

- Eu simplesmente memorizei o mapa de Paris.

- Como saber quem são as francesas: Ou elas estão "walking in beauty like the night" de salto alto ou estão de mini saia. Está frio, meus queridos. Cheguei batendo os dentes aqui.

- Andar em Paris é muito fácil por um motivo simples: você não anda pra chegar em tal ponto. Você anda e é isso.

- Tempestade repentina. Achei que o teto do restaurante fosse cair na minha cabeça ou sair voando. Eu e um grupo de americanos do Texas fomos correndo para dentro.

- Eu estou achando é bom que a pessoa fale em francês comigo mesmo que tenha que repetir umas cinco vezes até eu entender. Não dá pra recorrer ao inglês a vida inteira, né.

- As pessoas realmente ficam estupefatas quando descobrem que vim do Brasil até aqui sozinha.

- Tenho que parar com essa coisa de querer apoiar as artes. Ainda não tenho dinheiro para isso. P.S.: vou ouvir música russa e ucraniana até o final da viagem.

O segundo diálogo mais bonito de todos os tempos aconteceu em uma frutaria em Paris. Stéfanie: “Bom dia, você fala inglês?”; Atendente:“Não, mas você fala bem francês”.

- Do meu apartamento dá para ouvir os sinos de Notre Dame.

- Comecei a me sentir uma pessoa “grande” depois de conseguir atravessar a cidade sozinha no metrô sem me perder nenhuma vez.

- Comprei macarons.

- Acho um desrespeito colocar o pão francês da França em qualquer coisa que mude o gosto dele.

- Ainda não sei o que eu vou fazer amanhã.

Notas de viagem (Sexto dia: 7 de maio de 2015, PARIS, França)

- Tudo seria mais fácil se Paris fosse uma cidade pequena.

- Paris funciona melhor enquanto arte do que enquanto cidade/ metrópole.

- As necessidade práticas da vida atrapalham a vida em si.

- Todo mundo usando casaco nessa cidade e não se acha um sobretudo nas lojas. Só roupa moda verão.

- Queria viver em um filme do Woody Allen.

- O trânsito de Paris é pior que o de São Paulo.

- Sentar em volta de uma fonte é " uma coisa aqui".

- Eu tenho um caso grave de síndrome de Cristina (De "Vicky, Cristina e Barcelona").

- Paris não é uma festa, não é a capa da Vogue andando na rua, não é uma viagem no tempo a meia noite, não é romance na certa, não está com o clima estável e está difícil de achar risoto. Paris é, na verdade, bem melancólica. Mesmo quando faz sol.

- Reparei agora: Os personagens de "Meia noite em Paris" são milionários.

- Ille St Louis está rapidamente tornando-se meu lugar preferido em paris.

- A ponte dos cadeados já está ficando sem espaço para o amor. Em alguns pontos, tem placas de "não coloque os cadeados". A maioria da ponte está tampada.

- Em qualquer buraco de Paris tem um músico.

- A triste compreensão de que qualquer buraco que dê para escrever serve.

- Pensar sobre: Toda arte que é arte no sentindo clássico é uma reflexão sutil sobre o fazer artístico. O que "disfarça" essa metalinguagem é o uso da imaginação na trama.

- Frustração 1: Eu tenho medo de andar em Paris a noite.

- Frustração 2: Estou sem saco pra ser turista.

- Frustração 3: Se Paris é uma festa, eu não fui convidada.

Notas de viagem (Sétimo dia: 8 de maio de 2015, Paris, França)

- Você sabe que acordou cedo quando nem os cafés estão abertos e só tem a galera fitness na rua. Juro que tinha um homem praticando artes marciais na margem do Sena.

- Hoje resolvi visitar meu amigo Monet.

- ÓBVIO que errei na hora de comprar a passagem de trem.

- Um senhor francês muito gentil me ajudou na estação. Até fiquei com saldo positivo para a próxima viagem.

- Fofura da madrugada (porque antes das 9h é madrugada): Cachorrinho indo pegar o trem. Fofo!

- A pontualidade do transporte público aqui é quase bruxaria.

- Como da última vez em que estive aqui, acho que quando eu voltar para casa vou conseguir lidar melhor com a vida real. *Ou não*.

- Não tenho palavras pra descrever esse interior da França. Lindíssimo. I <3 Normandia.

- Giverny é a vila mais amor do mundo. Entendo perfeitamente porque Monet alugou a casa que mais tarde seria sua propriedade e inspiração mesmo sem ter dinheiro na época.

- Depois de visitar os jardins de Monet, não tenho mais certeza de que ele foi um pintor melhor do que foi jardineiro.

- Monet ficou falido por um tempo, mas quem anda pela casa e jardins dele hoje em dia tem a clara impressão de que ele foi um lorde das artes.

- Sério, a sensação de andar nesses jardins valeu o metrô, trem e ônibus que tive que pegar para chegar até aqui.

- Só pra ressaltar: O jardim de Monet é de *tirar o fôlego*.

- Tinha muito brasileiro caminhando nestas estradas.

- Nas três horas que fiquei perambulando pelas trilha floridas de Monet, fiquei pensando em como minha mãe ia gostar desse lugar.

Idiotice: Quando passei pela ponte japonesa, não consegui evitar o seguinte pensamento: Woody Allen também passou por aqui.

- Na saída comprei a biografia ilustrada do meu amigo.

- Tem coisa mais agradável que esperar o ônibus tomado chocolate quente, lendo um livro sobre Monet, com uma vista *maravilhosa* das colinas de Giverny?

- Sabe qual a vista do ponto de ônibus? A mesma de um quadro do Van Gogh.

- Somente amando a Normandia.

- Monet: "A cada minuto uma luz sempre em mutação transforma a atmosfera e a beleza das coisas"

- Planos para o futuro: Aprender jardinagem e construir um refúgio florido.

Eu também quero uma vida simples. Que nem a do Monet.

- Vou até fazer um álbum, porque olha...

Notas de viagem (Oitavo dia: 9 de maio de 2015, Paris, França)

- Aprendi mais um nome para amor a primeira vista: Shakespeare and Company.

- Nesta livraria, tem uma seção inteira para a "Geração perdida".

- Quem imaginaria que entre uma festa e outra e mesmo com a ressaca das bebedeiras, a Zelda Fitzgerald escreveu um livro? Está na minha lista de leitura.

- Não tem como não amar um lugar onde você encontra o seguinte livro: "Woody Allen, prosa completa".

- Visita ao museu Rodin: Vamos combinar que esse franceses tinham uma coisa por jardins. E que jardins!

O museu Rodin estava praticamente vazio hoje, um sábado.

- Infelizmente, o Hotel Biron, aonde ficam os jardins do Museu Rodin, está em reforma. O que não é uma tragédia, mas uma parte do jardim está interditada. E a fachada maravilhosa do hotel essa cheia de andaimes na frente.

- Eu sei que "O pensador" é a estátua mais famosa do Rodin, mas a obra"Os portões do inferno" me deixou sem fôlego. Uma master piece.

- Sobre “Os portões do inferno”: Era para ficar em um museu que nunca foi concluído. Tem mais de 200 figuras em relevo. A obra foi inspirada no livro "A divina comédia", de Dante Alighieri (quem mais?). É realmente impressionante as camadas, as expressões de cada figura, a posição retorcida dos corpos. Repito: impressionante.

- Também amei como Rodin retratou Balzac de uma forma bizarríssima. Quando eu vi a estátua, pensei que fosse qualquer coisa, menos o Balzac.

- Acho que Rodin ficava desconfortável esculpindo a genitália masculina. Todas parecem inacabadas.

- Ainda sobre o Jardim: Que maravilha ter um jardim desses. Aliás, essa não é a casa do Rodin. Pelo que eu entendi, ele vinha passear aqui com o cachorro dele. Passear não, "meditar".

- Não consigo evitar imaginar aquelas senhoras do século 17/18 caminhando por um jardim desses com seus longos vestidos, conversando sobre uma coisa qualquer. Ou aquela cena clássica da donzela correndo por entre as árvores, segurando as longas saias magnificamente bordadas enquanto o rapaz corre de brincadeira atrás dela. Ah, o flerte de antigamente!

- Outra coisa: Dá para ver a torre Eiffel do museu Rodin. Fique em frente ao “Os portões do inferno" e olhe para o outro lado. Você vai ver os arbustos em forma de cone e bem no meio "O pensador" e a torre.

- Na fonte em frente ao hotel, dois patos nadam e tomam sol sem a menor preocupação do mundo. Uma criança ficou horas rindo deles. E eu fiquei horas rindo da risada da criança. E do pato também, que estava mergulhando e era fofo.

- Me sentindo a "phyna" comprando roupas em Paris, mesmo sendo em uma loja de departamento "Fast Fashion".

- Siga o mapa. Não ache que tudo é perto, porque não é. Não parece, mas Paris é uma cidade muito grande. E se perder depois de ter andando muito em um museu não é legal.

- Prova de que os franceses são educado e alguns são muito gente boa: Precisava trocar uma nota de cinquenta. Pedi para o moço do açougue em frente ao apartamento. Ele não disse nada, só pegou o dinheiro, sorriu, falou "de rien" e voltou a cortar a carne. Modos contidos não são falta de educação. Talvez pensem isso porque no Brasil o pessoal é meio "espalhafatoso".

- Pensamento aleatório: Idade média é pedra bruta. Iluminismo francês é pedra travestchy.

Aquele momento que você percebe que faz uma semana que você não come carne vermelha (não de propósito, claro).

- Meus pés sangraram de tanto andar hoje.

Notas de viagem (Nono dia: 10 de maio de 2015, Paris, França)

- No final da tarde, as pessoas sentam nas margens do Sena para aproveitar a vida. Decidi me juntar a eles.

- Sentada com o pé perto da água, fiquei pensando há quanto tempo eu queria estar aqui. Faz seis anos desde a última vez em que pisei em Paris, mas eu tinha 16 anos e o mundo era diferente. E agora eu estou sentada na margem do Sena vendo o pôr do sol. Que vida.

- Île Saint-Louis é a minha aorta parisiense particular.

- O preço do copo de Coca-cola e da taça de Chardonnay é o mesmo aqui: Cinco euros.

- Jantei no "Auberge de la reine blanche" na noite passada. Tomei só UMA taça de vinho (viu, família) e comi uma carne vermelha *maravilhosa*. De sobremesa: Profiteroles com calda de chocolate. Ok, ok, foram duas taças.

- Estou preocupada em engordar mais? Não muito. Pela amanhã andei por umas cinco horas. Antes do jantar andei pela *minha* ilha inteira. Depois de comer dei mais uma volta em Saint-Louis. Pelo jeito, meus pés estarem quase caindo é irrelevante.

Não faz nem seis meses eu estava comendo hambúrguer em um restaurante com uma foto autografada da Joelma. Ontem a noite comi carne em um bistrô com fotos autografadas de atores teatrais e bailarinas clássicas.

- Faz quatro dias que estou somente com a minha companhia. Sinceramente? Não tenho do que reclamar. Eu sou mais legal em Paris.

- Nos lugares normais, a água *vem com a mesa*.

- A atendente no "Auberge de la reine blanche" era muito bonita. E simpática.

- Eu realmente queria ser uma daquelas pessoas misteriosas sobre as quais não sabemos nada. Mas não dá. Minha vida é um livro semi-aberto ilustrado com mapas e diagramas.

- Por que eu não estou comentando a beleza dos homens franceses? Porque eles já moram aqui, precisa de mais?

- Vendo o pôr do sol em uma ponte do Sena, entendi melhor o que Monet quis dizer com: "Eu não quero pintar a ponte, a árvore, o barco. Eu quero pintar o ar em volta da ponte, da árvore e do barco". O pôr do sol não é bonito pela rotação da terra, mas pelo reflexo da luz nas coisas mundanas. O sol não é tão bonito sozinho.

- Casal que vem à Paris e não sai se amando mais é porque não se amou nem um pouco.

- Na volta pra casa, ainda na ponte, um homem que estava muito bêbado e sorrindo de qualquer coisa ficou me encarando. Quase caiu umas vinte vezes. Pensei "Ok, quem não sorri em Paris é porque está morto". Mas na rua seguinte ele continuou me seguindo. Entrei na sorveteria famosa daqui, que estava cheia de gente, para ele não saber aonde eu ia. Ele foi embora trançando as pernas. O dono da sorveteria ficou me olhando, tentando entender o que eu queria. Ele perguntou um monte de coisas que eu não entendi, até que que disse "você quer ir ao banheiro?". Eu disse "não" e ele falou "está bem" e continuou com a vida dele. Só falei "não" porque não sabia falar "tem um bêbado me seguindo e queria despistá-lo" em francês. Sério, de onde vocês tiraram que os franceses são mal educados?

No Museu D'Orsay

- Voltei para o quadro "A enigma", de Gustave Doré, umas vinte vezes. A dor que esse quadro transmite me representa. Lindíssimo.

- Ri alto quando vi o quadro "Madeleine chez le pharisian", de Jean Beraud. A cena é a seguinte: Maria Madelena jogada no chão implorando, Jesus sentado em uma mesa com os membros da sociedade de Belas Artes. A cara de Jesus nesse quadro não tem preço. É tipo: "Porra, galera, malz aí, mas o que que eu posso fazer?". Os membros da sociedade de belas arte também estão com expressões fantásticas de estupefação. Um deles parece dizer "Olha a gafe aí, Gézuz".

- Me identifiquei muitíssimo com o espírito do quadro "Severine", de Louis Welden Hawkins.

- No quadro "Le Jeune Fille et la Mort", de Marianne Stokes (1908), a morte está dizendo: "Bitch, please".

- Parou, parou, parou! Então quer dizer que aquelas obras do Lautrec são quadros enormes e não pôster que nem eu tinha pensado? *Impressionada*.

- As maquetes dos cenários do ballet "Les Bacchantes" também fazem parte da exposição. Parecem um conto de fadas.

- Ah, não! Agora parou com a putaria. Tem uma maquete de Paris. Você vê ela de cima de um chão transparente. Dá um medinho, mas fui até o meio.

- Pelas maquetes e quadros, já dá pra saber que a ópera de Paris é fantástica.

- Status: Boquiaberta com a coleção impressionista. É difícil de acreditar que esses quadros já foram considerados rascunhos inacabados.

- Vendo um outro lado do Monet. Ele pintou *muito*. Muito mais do que a série do jardim aquático dele.

- Renoir continua sendo meu impressionista favorito.

- Eu amo essas rachaduras que tem em algumas telas. Acho que acrescenta.

- Os gatos e cachorros são fofos até nas pinturas. Ainda mais nas pinturas impressionistas. Não agüento tanta fofura.

O triste de um museu grande é que chega uma hora que você cansa e não consegue mais. Tradução: Pés latejando e fome.

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- Hemingway, aos seus vinte e poucos anos, freqüentava o Café de Flore, o Le Deux Magot e a Brasserie Lip. Hoje em dia, entre esses dois cafés tem uma loja enorme da Louis Vitton e de outro lado da rua estão a Cartier e Armani. Ou seja.

- Outra prova de que aqui já não é o paraíso dos escritores jovens e falidos: Em qualquer lugar normal, vinte euros você come um prato principal generoso e toma um copo de vinho. No Café de Flore, vinte euros é um omelete ordinário e uma xícara de chocolate quente. E a água grátis aqui é um copo mínimo com um cubo de gelo, não uma jarra, como é em outro lugar qualquer.

- O mais triste é que tem parisiense que parece frequentar esse café. Aqui, segundo dizem, ainda é point de encontro da galera da literatura. E dos turistas-leitores, claro. Digo triste porque eu não conheço ninguém.

- As pessoas que estão lendo aqui são turistas e os livros são guias. Não dá pra trabalhar no grande romance latino-americano desse jeito.

- A maioria das pessoas que parecem freqüentar aqui estão na meia idade. Ou são aquelas francesas maravilhosas que a gente vê em filmes.

- A passarela dos parisienses chics chama-se Saint Germain-des-Près.

- Se a geração do Hemingway era a perdida, a minha é a indecisa. Mas chamar de "y" realmente soa melhor.

- Hoje em dia existe um outro nome para a Saint Germain-des-Près: Ostentação.

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