Olhar Conceito

Terça-feira, 25 de junho de 2024

Colunas

Cai do cavalo

Arquivo Pessoal

Dia desses, montada em um alazão, eu fazia a ronda em umas terras não muito distantes de Cuiabá. Eram duas e meia da tarde de um dia típico da nossa região.

O sol a pino, a temperatura altíssima, a água do cantil não existia mais, a maçã que sempre carrego havia sido consumida, e vez e outra sentia ligeiras vertigens.

Quando o calor ficava insuportável eu parava um pouco embaixo de alguma árvore, tirava o chapéu, enxugava a testa, respirava e tocava.

O juízo me aconselhava a voltar para a sede da fazenda. Optei por não ouvir e enquanto ia correndo as cercas da terra eu pensava: mais um pouco termino. A uma certa altura do percurso olhei para o lado e quem me acompanhava nessa ronda havia tirado o chapéu pra se abanar, tentando se refrescar.

Ele trazia na face traços de cansaço e fome. Estávamos até aquela hora sem almoçar.

Olhando para aquela pessoa silenciosa e exaurida pelo calor, a ficha caiu de que eu não estava sendo razoável e falei: “vamos voltar, amanhã terminamos”!

Estávamos a uma boa distância da casa, mas devagar, sem forçar os animais, chegaríamos sem muita demora.

Nessa hora senti que meu cavalo se desestabilizou, deu uma espécie de tranco e em uma fração de segundo percebi que iria cair. Exigi um pouco mais de mim, tentei me manter montada, no controle da situação, mas que nada, fomos eu e o cavalo para o chão.

Já no chão senti uma dor aguda, tão grande, que me tirou o ar.

Quando retomei os sentidos me encontrava deitada com a cabeça apoiada em um pedaço de pau. Izael me abanava agoniado, falando repetidamente: “Dona Isolda, não faz isso comigo”!

Eu queria me manter de olhos abertos, tinha receio de apagar novamente, mas a dor era tanta que eu os fechava para tentar me concentrar na respiração e quem sabe acalmar a dor. Desesperar nessa hora só vai piorar, pensava eu. Calma, respira!

Senti náuseas, muito mais vertigens, meu coração não batia, galopava. O rosto dos meus filhos começaram a se intercalar em minha mente, olhava para cima, via o azul do céu e o sol continuava a pino. Não sei precisar quanto tempo fiquei nesse estado meio sim, meio não, tomada por sensações e pensamentos desconexos. O medo insistia em me assombrar.

Aos poucos, o mal estar maior foi diminuindo, restando somente a dor. Pedi para o meu parceiro me ajudar a sentar e perguntei se foi cobra que havia assustado o cavalo. Ele contou que o animal tinha se enroscado em um cipó, provocando a queda dos dois.

Comecei a observar o que tinha acontecido com a minha perna direita, a dor vinha dela. Tentei tirar a bota, a dor me fez desistir, então puxei a barra da calça e encontrei um hematoma grande na canela. O cavalo ao se levantar bateu com a pata provocando o estrago. Devagarzinho e com a ajuda do Izael fui tentando levantar, foram várias tentativas e embora a dor persistisse, não havia quebrado nada.

Como em tudo podemos enxergar o lado positivo, com esse episódio não foi diferente, pude constatar que osteoporose eu não tenho, já que o coice foi grande.

A volta para casa demorou mais que o esperado, paramos algumas vezes e por todo o tempo dois sentimentos invadiram meu coração: o de gratidão por não ter sido pior e o de arrependimento por não ter ouvido minha intuição, em ter sido tão estúpida, teimando em fazer algo que o meu corpo já dava sinais de que não era viável. Não respeitei meus limites, desrespeitei os limites do Izael, não parei quando deveria ter parado.

A vida sábia como ela só, assumiu o comando e decidiu me parar.

Mais um pouco e termino... Quanta embriaguez!

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