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Terça-feira, 25 de junho de 2024

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Christa Wolf: o panfleto e a literatura

Stéfanie Medeiros

[Antes de começar a coluna de hoje, vou repetir o aviso dado na coluna anterior (e farei isso por mais algumas semanas); a saber: “Acho interessante esclarecer algo que já me parecia claro, mas que talvez ainda não esteja: este texto (ou os anteriores, ou os próximos) não é uma análise propriamente dita – lhe falta profundidade de análise, profundidade essa que nem é meu objetivo desenvolver aqui nem me caberia alcançar num texto de jornal. Este texto é uma conversa com o leitor. Apenas isso. Somos o leitor e eu sentados conversando sobre estes artistas. Aviso feito, vamos à conversa de hoje.]

[Segundo aviso: aproveito o fato de morar na Alemanha para falar hoje e nas próximas semanas sobre autores de língua alemã e/ou autores brasileiros que tiveram alguma relação com a literatura em língua alemã. Ao final do intercâmbio voltarei à nossa literatura em língua portuguesa.]


Christa Wolf (1929-2011) foi uma escritora alemã que viveu e produziu predominantemente na Alemanha Oriental, sendo considerada uma das figuras mais significativas da literatura alemã da segunda metade do século XX.

Seus romances aliam uma prosa limpa e fluida a uma técnica narrativa muito sofisticada – sendo esta última qualidade algo não muito comum no contexto literário da Alemanha Oriental. A censura ferrenha exercida pelo governo ditava que a literatura (e as artes no geral) deveriam ser simples e transmitir uma mensagem – a mensagem do partido e da ideologia vigente. Em outras palavras: a arte deveria ser panfletária. Christa Wolf, no entanto, apesar de ter sido até sua morte uma grande defensora da Alemanha Oriental, não se dobrara às demandas do governo e continuou desenvolvendo suas complexas experimentações sobre os focos narrativos e os limites entre ficção e memória. É de se estranhar que, mesmo assim, Christa Wolf tenha sido uma figura de grande prestígio na Alemanha Oriental. Sua relação dúbia frente ao regime, seus elogios e suas críticas ao governo fizeram de Christa Wolf uma figura altamente controversa.

A arte é, por si só, antipanfletária. E assim é por sua própria natureza: a “mensagem”, seja ela qual for, não pode estar acima do valor estético da obra de arte, já que o valor estético é o elemento mesmo que define a arte como arte (no entanto, definir o que é “valor estético”, é claro, continua sendo um grande problema). Se a “mensagem” se sobrepõe ao valor estético, o texto vira um panfleto, que pode sim espalhar ideias benéficas, úteis, empoderadoras, justas e que fortaleçam as minorias. Mas um panfleto é no final das contas só mesmo um panfleto. Não é obra de arte.

É claro que os dois elementos (“mensagem” e valor estético) podem coexistir. Aqui me atrevo e dou um palpite: temos muita sorte de ter obras nas quais eles de fato coexistem, e exemplos disso há muitos: “São Bernardo” de Graciliano Ramos; “Rosa do Povo” de Drummond; “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto; o conto “A Confissão de Leontina” de Lygia Fagundes Telles; “Mar Novo” de Sophia de Mello Breyner Andresen; “Mãe Coragem e Seus Filhos” de Bertolt Brecht; “Ulisses” de James Joyce; etc. A lista é longa. Estas são grandes obras de arte – e que, além disso, têm um potencial de mudança social. Mas entre estes exemplos citados e ainda entre os não citados há um ponto em comum, que define tudo: neles o valor estético está acima da “mensagem”. Se um escritor, no entanto, mesmo assim pretender atuar politicamente, não é com a literatura que ele conseguirá. A literatura é, infelizmente, fraca – impotente. Sua natureza mesma é essa impotência. É triste, mas é a realidade. Pensar o contrário é superestimar a literatura e o número de pessoas que a leem. A mudança que a literatura pode causar é a miraculosa mudança individual – e, claro, de mudança individual em mudança individual a sociedade vai rastejando para um melhoramento; mas “mudança social” como imaginada por nós e por outros concebida, essa a literatura não tem forças ou capacidade para fazer.

Se o escritor quiser protagonizar mudanças sociais, ele o conseguirá, mas não com a literatura, e sim por outros meios: ele deverá escrever panfletos (e não romances), subir em palanques, quebrar tabus e de algum modo desestabilizar as estruturas sociais convencionais. Isso ele não conseguirá só com seus romances e poemas.

Não tenho a pretensão de, nesta coluna de jornal, hoje, definir “valor estético”: livros e livros, milhares, dezenas de milhares de páginas já foram e serão escritas sobre o assunto, e seria muita petulância minha achar que eu o definiria em 3 páginas de Word. No enquanto, tenho cá comigo algumas impressões acerca do “valor estético” e que gostaria de compartilhar hoje com o leitor: é importante notar que, por “valor estético”, não entendo somente o belo em sua definição clássica. O belo pode ser terrível (quem não se lembrará de Rilke?), pode ser sujo, pode ser miserável, pode ser monótono, pode ser exuberante: há uma miríade de categorias de belo. E quando o que é belo se alia a um trabalho de criação artificial (artística) com suas diretrizes e geometrias próprias, dá-se o valor estético.

Isso tudo parece Christa Wolf ter entendido. Sua literatura e sua atuação política ou pública têm diretrizes diferentes, porque Wolf sabia da limitação de cada uma. Seu livro ,,Nachdenken über Christa T.” (1968; em português algo como “Considerações sobre Christa T.”, “Reflexões sobre Christa T.” ou ainda “Em busca de Christa T.” [esta última, tradução de Andreas Amaral]), por exemplo, é de uma maestria e simplicidade assustadoras, continuará sendo lido por gerações e estudado por ainda mais gerações. É um romance, não um panfleto. Por ter escrito este livro, no entanto, (e apesar da atuação política mais do que ativa de Wolf na sociedade da Alemanha Oriental) Christa Wolf sofreu severas represálias do governo – para usarmos aqui um eufemismo.

“Reflexões sobre Christa T.” é um livro complexo. Complexo em seus vários focos narrativos (há pelo menos a voz da narradora [sim, no feminino], a voz da própria Christa T., as cenas desmentidas na própria narrativa, as muitas cenas cogitadas para uma única situação, etc); complexo em sua mescla entre memória (realmente existiu uma mulher chamada Christa T., e que Christa Wolf de fato conheceu) e ficção (Wolf avisa já no início do livro que aquela é uma obra ficcional e que ela não se sentira obrigada a observar veracidade alguma); complexo em sua metalinguagem (a narradora reflete a todo momento sobre o próprio ato de narrar e as limitações que ele implica).

O incrível, no entanto, é que ao mesmo tempo em que o livro é complexo, ele é também muito simples. A linguagem é absolutamente cristalina, sem palavras enormes e complicadas, sem grandes discursos rebuscados. Simples e cristalina, a linguagem ao mesmo tempo veicula as experimentações mais nebulosas e complexas de “Reflexões sobre Christa T.”.

É possível depreender dessas linhas todas, então, que “Reflexões sobre Christa T.” é um livro dúbio: simples e complexo, conformista e revolucionário, burguês e socialista, ficção e memória. Dúbia é também Christa Wolf, e depois de eu escrever todas estas tinhas e de ler tudo o que li da obra de Wolf, este colunista que vos fala continua com a pergunta na ponta da língua, sem resposta: que tipo de escritora foi Christa Wolf? Não sei. Sei que foi uma do tipo genial.

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