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Terça-feira, 25 de junho de 2024

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Caderno H: Cuiabana conta como foi sua visita a "Capela Sistina da pintura rupestre" em Lascaux

(A escritora e jornalista cuiabana Stéfanie Medeiros começou uma nova aventura ao mudar de ares e começar uma temporada na Europa. Inspirada por suas referências literárias e pelas maravilhas de passar pelos mesmos lugares que suas grandes inspirações, rodeada de cafés, pessoas e lugares diferentes, ela começou um diário virtual. Suas notas de viagem voltaram para a coluna que ela já possuiu no Olhar Conceito, " Caderno H").

Notas de viagem (Vigésimo terceiro dia: 24 de maio de 2015, Lascaux, Dordogne, França)

- Durante a manhã, molhei as plantas e fiquei lendo. Depois fiz o almoço. A outra ajudante (uma nova que chegou no final da semana passada) ficou encarregada de outras tarefas. Eu fiz uma salada no almoço. Depois do almoço, nos arrumamos e partimos para a estrada rumo à Lascaux II.

- Para saber: A caverna de Lascaux foi descoberta em 1940 por quatro adolescentes. Depois de pesquisas e etc, determinaram que as pinturas tem por volta de 17 mil anos, embora não seja uma certeza absoluta por conta da pigmentação indatável. De qualquer forma, decidiram fechar a caverna original porque o CO2 da respiração dos visitantes estava deteriorando as pinturas rupestres. Por conta da demanda dos turistas, construíram uma réplica da sala dos touros e do “divertículo axial”, chamada de Lascaux II. E é para lá que fomos. E mesmo sendo uma atração turística, não é fácil de chegar.

- Outro detalhe: Lascaux II fica do lado da caverna original.

- Enfim, a aventura: Para chegar a Lascaux II, você tem que primeiro ir a uma cidade chamada Montignac, que fica a caminho. A cidade é a coisinha mais fofa. É no mesmo estilo de Heidelberg. E essa cidade minúscula provavelmente tem uma programação cultural e turística mais abrangente que a de Cuiabá.

- Nós a princípio pensamos que era só ir até Lascaux II, comprar as entradas e entrar. Mas na estrada apareceram várias placas dizendo que você tinha que comprar os ingressos em Montignac. Voltamos e nos dirigimos ao escritório do turismo.

- As entradas custam dez euros e você só pode entrar com um guia - isso na *réplica*. Ou seja, você tem um horário bem específico para entrar. O último tour era às 18h10. Ainda eram 16h. Compramos mesmo assim.

- Outras regras que me chocaram: Não pode tirar foto da réplica (sim, eu tirei, amigos. Eu sei que vocês viram). Crianças que fizerem barulho são expulsas (razoável, mas meio extremista). Cadeiras de roda e carrinhos de criança são proibidos por razões técnicas. Agora parou. Parou, parou, parou. Se eles construíram a porcaria de uma réplica, por que não fizeram acessível?! *Revoltada*.

- Tá bom, enquanto esperávamos, decidimos tomar sorvete em Montignac. Todo mundo no grupo (éramos as quatro mulheres. Ou três mulheres e um bebê fêmea) pediu aqueles cornetos que você acha em qualquer buraco do mundo. Eu pedi uma taça com o sorvete local mesmo. Só digo uma coisa: Bom demais.

- Deu tempo de andar um pouco por Montignac. Ver as ruas históricas, os rio, as ruínas de um castelo que eu não sabia qual era ao longe. O interior da França é de tirar o fôlego.

- Quando deu a hora, entramos no carro novamente e nos dirigimos à Lascaux II. Tinha uma fila enorme de gente, mas, todavia, contudo, no entanto, os grupos entravam a cada dez minutos. Então teríamos que esperar dar 18h10 em ponto.

- Para você imaginar: Em volta do local aonde ficam as cavernas, temos aquelas florestas de lugares bem úmidos. Ela estava bem verde e o local fresco. Estávamos no topo, então de alguns pontos tínhamos uma vista espetacular de campos, de Montignac e de casinhas isoladas naquela imensidão verde. Ao redor de Lascaux II, há várias trilhas. Uma delas leva até a entrada da caverna original, que é, obviamente, bloqueada por um portão e vigiada. Mas você pode olhar a entrada da caverna.

- A visita é uma coisinha muito estranha. Primeiro você passa por uma porta escura e entra em uma sala com algumas maquetes e pinturas nas paredes. Nesta primeira sala, local onde você tem que ficar com o seu grupo como um rebanho, explicam como descobriram a caverna, que ela tem cerca de 17 mil anos, que não dá para datar as pinturas com precisão, que os pigmentos usados são encontrados na natureza até hoje, etc.

- O mais interessante: Os homens pré-históricos que fizeram estas pinturas não moravam mais em cavernas. Estes homens já construíam tendas e cabanas e viviam do lado de fora. E aí que bateu aquela coisa em mim: Por que eles faziam isso? E note que as pinturas estão somente na parte superior da caverna. Não tem nenhuma onde a pessoa simplesmente fica em pé e faz uma macumba ali para ajudar na caça. Não: Essas tinham várias cores, perspectiva, simetria e estavam apenas no topo. Por que homens que tinham que passar por todos os tipos de dificuldade da pré-história (tipo achar comida? Ficar a salvo de animais selvagens? Cuidar da cria apropriadamente? Não morrer de infecções e outras coisas que parecem uma razão idiota para morrer hoje em dia?) tiravam esse tempo para fazer pinturas? Estar na réplica não despertou aquela emoção de estar frente à frente com a história, mas eu sabia que a apenas uma caminhada curta de distância estava a original. E que essa era a história. E que nessa homens há 17 mil anos sentiram a necessidade de pintar. Que nessa tinha a figura de um unicórnio, animal inexistente no mundo, mas que estava lá mesmo assim. Que nessa tinha o real e o imaginado. Era como estar lado a lado com o início do processo criativo. Foi muito significativo.

- Na segunda sala, explicam como fizeram a réplica. A equipe usou exatamente a mesma pigmentação na original, as mesmas técnicas, etc. Eu achei essa réplica muito irônica. Ao lado, estava a materialização daquela necessidade inexplicável de criar coisas sem utilidade para a vida prática, mas extremamente significativas de alguma forma. E aqui estava eu, em uma réplica dessa necessidade, tendo que conter a *minha* necessidade de registrar as coisas. E isso porque queriam vender cartões postais a 80 centavos de euros. De um lado, o apogeu de quando o espírito criativo começou a florecer. Do outro, uma cópia cheia de limitações. Sério, humanidade? Sério?

- Revolta dois: Por que, ao invés de construir uma réplica, não procuraram soluções para podermos visitar a original? Usar máscar de oxigênio, ser permitido ir apenas em uma bolha, fazer um tunel de ar controlado, sei lá. O homem é tão inteligente e tão ridículo ao mesmo tempo. Enquanto a caverna original está lá em sua solidão em nome da preservação (isso para uma espécie que definitivamente vai ser extinta em x anos), já estão construindo Lascaux III. Não aguento com essas coisas.

- Sobre as figuras de Lascaux II: Sempre que eu via essas pinturas rupestres, eu achava que elas eram pequenas. Mas estas de Lascaux são enormes. Um dos bisões tem mais de três metros de altura. É maior que eu. E todas as figuras enfeitam magistralmente a cúpula da caverna. Era realmente como estar na Capela Sistina da pré-história.

- Eu aposto que 90% das pessoas que eu conheço não conseguem desenhar um cavalo ou um bisão como esses homens pré-históricos fizeram. Homens *pré-históricos*. Temos que reavaliar nossos conceitos. Vendo essas coisas pessoalmente percebo que nossa forma de estudar o passado é meio idiota e definitivamente limitada demais.

- Ver aquele unicórnio estampando a caverna artificial, sabendo que ao lado a mesma figura tinha sido feita por homens há 17 mil anos, encheu meu coração de alegria.

- O “divertículo axial” é tipo um túnel com mais pinturas rupestres. É impressionante saber que isso existe.

- Quando saímos de Lascaux II, fomos procurar a trilha para ver a entrada da caverna original. Não achamos. Fomos embora.

- Quando chegamos em casa, pegamos uma garrafa de vinho e ficamos conversando até meia-noite sobre a vida. Pessoas que viajam sempre têm umas histórias bizarras. Acho que isso pode funcionar, amigos.

- Sorvete, contemplação das esquisitices humanas, percepção da criatividade pré-histórica e vinho. Sim, foi um bom dia. Um dia memorável, eu diria.

- E sabe qual o melhor? Como ontem não tive tempo de escrever as notas, acordei cedo na segunda-feira de folga, fiz um café para moi, sentei na minha escrivaninha em frente a janela (com uma vista para o campo, lago e árvores) e comecei a digitar. Fiquei feliz com a disciplina e me senti a Jane Austen de Dordogne. (E sim, nesse cenário todo, o sol estava nascendo bem na minha frente. E ao meu lado, café. Oh, vida!).

- Agora é comer, me arrumar e pegar o trem para Bordeaux.

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