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Entre falos e flores, Sodré consolida estilo "Neo Qualquer Coisa" para além das fronteiras regionais

Da Redação - André Garcia Santana

18 Abr 2016 - 15:51

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Artista é conhecido pela irreverência e erotismo.

Artista é conhecido pela irreverência e erotismo.

Para muito além de imposições que possam atribuir a seu trabalho quaisquer rótulos locais, Adir Sodré brinca com as determinações geográficas, fazendo do apelo regionalista mera desculpa para o desenvolvimento de criações que tocam pela identidade e abrangência universal. Ao longo dos anos, seu traço expansivo, consistente e inovador, vem celebrando a vida em uma explosão de flores e falos, estendendo-se pelo mundo e levando o cotidiano do Coxipó à Nova York, de Tóquio para a Rua 12 de outubro, e, do cerrado para longe das fronteiras que separam nações.

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Assim, desde o final da década de 70, quando rompeu com os traços de seus mestres, Humberto Espíndola e Dalva de Barros, Sodré consolidou estilo próprio, fazendo do erotismo e da irreverência suas marcas na profissão. Esta busca, justificada pela vontade de “existir diferente”, foi alimentada, segundo ele mesmo, por sua audácia: “Se você não tem coragem, não acontece nada. Eu nasci pra isso, mas eu não tinha muito talento, tinha que aprender alguma coisa.”

A partir deste período optou pelo abandono da temática de protesto, abrindo mão da divisão de cenas entre pobres e ricos, que chegaram a integrar algumas criações. “Eu queria mudar o mundo com a pintura, mas revolução é com arma na mão. A pintura não é pra isso, a arte não resolve nada. Não que eu seja irresponsável, só estou sendo verdadeiro. Por outro lado, essas coisas servem de plano de fundo pra você brincar com o mundo, que por vezes é muito cruel”, conta.

Passando ainda por uma fase inspirada por turistas e pela cantora alemã Nina Hagen, resolveu tornar o apelo dos quadros mais comercial, para que conseguisse vender, resolvendo apostar em naturezas mortas. A tentativa, contudo, fez com ele descobrisse que os frutos estavam vivos, estimulando a associação entre eles e os órgãos reprodutores do corpo humano. “Ao invés de pegar aquela pintura ordinária, comecei a colocar pinto de todo tamanho e xoxota, como ironia. Era visualmente agradável, mas tinha uma mensagem por trás.”

Para isso, encontrou em contornos vaginais e saliências fálicas, o equilíbrio entre a natureza e anatomia humana, também reverenciada em figuras que variam entre santidades, personagens cotidianos e releituras de Fridas, Abaporus e Gueixas. Integradas a cores impactantes, estas representações normalmente se ambientam a cenários exuberantes, compostos por floradas e frutos típicos da nossa região. Não raramente, no entanto, a iconografia da flora assume o protagonismo da obra, fazendo-se igualmente importante no repertório.

Convicto em sua temática, ele decidiu, no final dos anos 80, que seria um artista do Brasil e não somente de Cuiabá, partindo então para a capital paulista. Lá, por acidente, encontrou nas escadarias do Museu de Arte de São Paulo (MASP), a oportunidade que buscava. Ao esbarrar na secretária de Pietro Maria Bardi, um dos fundadores do museu, firmou o primeiro passo na concretização de seu intento. “Foi aí que minha vida mudou. Eu me lembro de mim, totalmente caipira, um jacu, subindo as escadas do MASP com umas telas em baixo do braço”, brinca.



Desde então, fez-se presente em inúmeras exposições pelo país e pelo mundo, e hoje é o único mato-grossense a possuir três obras no Museu. Uma delas, “Enterro de Anjo”, figura desde o dia 7 entre trabalhos de Van Gogh, Renoir e Portinari, na mostra Histórias da Infância. Concebido em 1980, o óleo sobre tela de 102x150cm, está exposto com outros 200 trabalhos, e ajuda a resgatar alguns dos temas que permeiam a idade infantil.

Da casa onde vive e trabalha, fez uma verdadeira galeria com peças de artesanato que remetem aos mais diferentes significados: na janela da sala de entrada, um Adir de papelão em tamanho real, observa incansável a movimentação da rua. De lá até o ateliê, nos fundos da morada, brinquedos, adaptações de objetos transformados por seu pincel, livros, discos e cd’s, se misturam no ambiente, onde uma possível interpretação de desordem permite a concatenação das ideias que ilustra.



Ainda na porta da residência, que também resguarda sua coleção de crucifixos, ele fala que a religiosidade está no inconsciente coletivo, e por isso é importante. “Eu não sei se existe, mas quando eu rezo pra algum santo eu melhoro. Além do mais, você já viu algum santo feio? Todo santo é bonito, e eles só podem existir se as pessoas acreditarem. Deus só existe, porque tem gente que acredita.”

Absoluto no estilo “neo qualquer coisa”, inventado por ele mesmo, o artista dispensa a limitação dos rótulos criados pelas escolas, inspirando-se na própria história da pintura para renovar o fluxo da produção. Deste modo, ao revisitar a própria obra e a de outros grandes nomes, sua proposta é transformar-se em vários, seguindo aquilo seu próprio nome designa: o verbo adir em tradução do latim significa aderir ou adicionar. Os resultados, portanto, passam por combinações infinitas que saem de Adir Horror (referência a Andy Warhol), e vão até Sofrido Kahlo (Frida Kahlo).

Sem estudo formal ou teoria que permita explicar sua criação, Sodré reforça a importância da regionalidade ao justificar que só é possível ser global, a partir do momento em que se pensa localmente. Sobre os reflexos da contemporaneidade na criação, se limita a classificar o momento social vivido no país como “dúbio”.

“Quem está indo a essas passeatas, não se engane! Ultimamente também tenho me sentido indignado, mas não triste ou revoltado. Não espero nada, mas já ficaria um pouco feliz se o VLT ficasse pronto, por exemplo. Falo isso porque estou pensando regionalmente. Como é que vou poder cobrar de fora, se eu não sei o que acontece no m eu quintal? Na verdade acho que sou um anarquista vagabundo.”

Distante de falsas pretensões aproveita para destacar seu desinteresse pela teoria ao afirmar que arte é simplesmente aquilo toca o coração e mexe com quem aquele que a vê. Sem passar por hiatos criativos, revela ainda desenhar inclusive na cama e à mesa, na hora das refeições. "Eu sempre sabia. Quando era pequeno, falei pro meu pai e pra minha mãe que gostava mais de desenhar do que deles."



Questionado sobre a importância do ofício, mistura ironia e desesperança ao disparar que sua obra serve para que possa se alimentar. “Serve pra eu comer, pra me dar pão. Com isso eu pago minhas contas, paguei os estudos da minha filha. Antes eu não sabia que tinha glamour, depois que delegaram, mas pra mim não tem, eu pinto pra comer. E também não tenho pudor de fazer concessão, de fazer uma pintura decorativa. Eu sempre fui muito irônico, e cínico, eu acho que isso tudo é o caos.”

Afora a dureza das comparações materiais, complementa esta definição com os valores que para ele tem mais significado. Em ritmo acelerado, próprio de sua personalidade inquieta, lembra que a arte existe, acima de tudo, para aliviar angustias e impedir que a realidade nos destrua. “Além de tornar vida mais leve, foi a arte que me transformou em cidadão", finaliza. 

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