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Em aniversário de quilombola de 111 anos, familiares e amigos comemoram conquistas do visionário para seu tempo

Da Redação - Naiara Leonor

14 Jun 2016 - 17:03

Foto: Seduc-MT

Em aniversário de quilombola de 111 anos, familiares e amigos comemoram conquistas do visionário para seu tempo
Entre lutas e conquistas, a vitória da cultura e do conhecimento, graças à sabedoria de uma alma, atualmente mais que centenária. Uma vida que como um livro conta sua história atrelada a sua terra. Em seu 111º aniversário, o mais antigo remanescente quilombola da comunidade de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, pai de 13 filhos, seu Antônio Benedito da Conceição, nos lembra da importância do espírito coletivo para transformação de realidades e construção de um futuro melhor.

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No dia do amor, 12 de junho, nascia em Mata Cavalo seu ‘Antônio Mulato’, aquele que dedicaria a vida por sua comunidade. Com coragem, enfrentou os preconceitos de uma sociedade que ainda se negava a reconhecer os direitos quilombolas. Dentre suas lutas, destaca-se a que resultou na implantação de uma escola na comunidade, na década de 40, para que sua descendência tivesse um destino pautado no direito à educação.

“É um orgulho para nós, porque mesmo antes de ter os direitos solidificados, já tinha alguém que pensava, que defendia os direitos dos seus filhos, principalmente o direito à educação formal. Meu bisavô era um visionário para seu tempo. Ele pensava ‘se estudarem vão ser alguém na vida’ e com esse objetivo ensinou seus descendentes”, destacou Gonçalina, que se formou professora e lecionou na comunidade na nova unidade estadual, a Escola Estadual Tereza Conceição Arruda, nome escolhido em homenagem a sua avó, uma das filhas de seu Antônio, já falecida.

O fato de não saber ler nem escrever não impediu o pensamento a frente de seu tempo e a transformação de destinos que provocou. “Minha avó nasceu em 1936 e assim como os demais irmãos dela, quando chegou a época de irem para a escola, seu Antônio não pensou muito e foi atrás do prefeito para implantar uma escola para que a criançada pudesse estudar. Naquele tempo, ele já vislumbrava que o estudo era o mais importante tesouro que poderia dar aos filhos”, confidenciou uma das bisnetas do remanescente, Gonçalina Eva de Almeida, hoje superintendente de Diversidade da Secretaria de Estado de Educação, Esporte e Lazer (Seduc).

Com sua insistência e determinação, seu Antônio foi atrás de alguém que cedesse um terreno para a instalação da primeira escola da comunidade. Conseguiu um aliado, seu ‘Manequinho’, o benemérito que permitiu que a unidade escolar funcionasse em suas terras.

Mas Antônio Mulato afirma que no primeiro dia de aula, apesar de ter sido ele o intermediador para que a escola chegasse em Mata Cavalo, seus filhos não puderam entrar em sala. “Como naquele tempo não tinha professora negra, veio uma branca de Nossa Senhora de Livramento, chamada Cira, para dar aula. E meus filhos foram contentes para o primeiro contato com a escrita. No entanto, a escola não era muito grande, dava para começar, mas não suportava todos os alunos. A professora então selecionou só os brancos e mandou os negros de volta para casa porque não havia espaço para todos”, relembra ele, ao contar para os netos.

Seu Antônio Mulato não se intimidou e furioso ‘comprou’ a briga com a professora e foi falar com o prefeito. Chamou novamente a comunidade para o debate. Resultado? Conseguiu as vagas para os filhos e outros negros e assim, nessa luta, acabou passando para aos seus descendentes o legado no processo educativo. Para seu orgulho há entre os filhos, professores, advogado, fazendeiros, seguindo as carreiras que escolheram e se transformando em cidadãos.

Tradições

Atualmente moram na comunidade Mata Cavalo 300 famílias, algumas delas com até oito filhos. Ou seja, cerca de 1.200 pessoas. É também a comunidade que mais tem se esforçado na luta pela conservação de suas tradições e das terras.

A memória teve um papel fundamental na construção da identidade do grupo e na conservação dos valores ancestrais, transmitidos de geração em geração pela educação informal, realizada nas festas tradicionais, na organização social e do trabalho e em outras experiências vividas no cotidiano das famílias.

Seu Antônio nasceu, cresceu e vive até hoje na comunidade. Casou-se duas vezes. Da primeira companheira, com quem teve seis filhos, ficou viúvo. Teve um relacionamento passageiro que lhe rendeu uma filha. Depois se casou com a atual esposa, com quem tem outros seis filhos.

Aniversário

O almoço comemorativo ao aniversário de seu Antônio foi simples, mas do jeito que o aniversariante gosta. Cozidão, feijão com catuni (joelho de boi) e uma boa farofa de banana, ali mesmo, em Mata Cavalo. Mas o mais importante, ele estava rodeado pelos familiares e amigos.
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