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Ex-costureira da Daslu se casa no Hospital de Câncer de Cuiabá após vencer a doença

Da Redação - Isabela Mercuri

15 Set 2017 - 18:11

Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto

José Milton e Vandelice

José Milton e Vandelice

A noiva chegou uns vinte minutos atrasada, como manda o ritual. Toda de branco, com um vestido que ela mesma vinha bordando há três meses, o sorriso denunciava: estava estonteantemente feliz. Também, pudera. Ali, onde durante os últimos dois anos passara por momentos tão difíceis – chegando a pensar até mesmo que era o fim – via seu recomeço. Vandelice se casou com o amor de sua vida, José Milton, na tarde desta sexta-feira (15), na capela do Hospital de Câncer de Cuiabá.

Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto

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O diagnóstico foi há cerca de dois anos, mas foi só quando foi para o Hospital de Câncer que ela, que já foi costureira da Daslu, descobriu que a doença era rara: mieloma múltiplo, ou seja, “Um câncer de medula óssea... Uma espécie de leucemia que atinge sangue e ossos, e não é comum na minha idade”, explica Vandelice. Desde o início, o então namorado esteve sempre a seu lado. “Esta comigo desde antes. Lavava meu pé, cuidava de mim, me trocava, fazia tudo”, lembra. “E quando eu estava muito doente, o meu marido sempre falava, ‘não, você vai viver, você vai superar, e eu vou casar com você’. E aí um dia eu falei que casava com ele, só que aqui no Hospital de Câncer. E ele topou”.

O casamento foi por volta das 15h, com a presença de amigos e familiares, além de pacientes do Hospital que quiseram ‘dar uma espiadinha’. A cerimônia, ecumênica, uniu o enlace matrimonial celebrado pelo Ministro Silvio Portella Costas, da Igreja Messiânica, e palavras do  Pastor Deulindo, capelão hospitalar, além do registro civil.
Vandelice entrou na capela ao som de ‘Como é grande o meu amor por você’ e, durante o casamento, o coral do Hospital entoou a música gospel ‘Raridade’. As palavras “Você é precioso, mais raro que o ouro puro de ofir / Se você desistiu, Deus não vai desistir / Ele está aqui pra te levantar / Se o mundo te fizer cair” pareciam casar perfeitamente com o momento.

Ministro Silvio Portella Costas (Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto)

Pastor Deulindo, capelão hospitalar (Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto)

“É uma surpresa. De certa forma, um motivo de muito orgulho. Porque é mais comum você ver pessoas chorando ali dentro, não pessoas sorrindo, considerando o Hospital de Câncer um contexto de muito sofrimento”, comentou o capelão Deolindo. Segundo ele, que está no hospital há sete anos, essa foi a primeira vez que a capela foi usada para um matrimônio.

A história

Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto

Vandelice e José Milton se conheceram de forma inusitada. Ele, que é taxista, foi chamado para levá-la a um casamento comunitário, onde sua irmã casaria. Ela fez questão de chamar o mesmo taxista para ir embora. “Isso ai foi no sábado. No domingo ela me ligou me convidando pra almoçar, então ela foi bem ousada. Dia 14 agora fez 4 anos”, contou o marido.

Com dois anos de relacionamento, a costureira descobriu a doença. “Pra todo mundo que recebe um laudo desse é um baque. A gente se sente abalado, mas graças a Deus, Deus me deu sabedoria pra administrar, e muita graça, muita serenidade, paz, e a gente vem com muito amor, muita fé lutando dia após dia e graças a Deus vencemos”.

Segundo Vandelice, nestes dois anos de luta, um dos momentos mais difíceis foi a cirurgia realizada para retirar os tumores. Depois disso, ela ainda passou por quimioterapia e, em fevereiro deste ano, foi para São Paulo receber um transplante de medula óssea. “Mas não chegou a fazer, porque os médicos chegaram a conclusão que eu estava muito bem, que minha medula estava funcionando bem, e não precisava mais fazer o transplante”.

Foi também durante o tratamento que o casal conheceu a religião Messiânica, à qual se converteram e sob a qual se casaram. A Igreja Messiânica é classificada como uma nova religião japonesa, cujo nome religioso é Meishu-Sama.

Mais do que realizar um sonho e comemorar, o casal decidiu que queria casar no Hospital de Câncer para dar um exemplo, e isso foi admirado por seus padrinhos. Suledi Pereira, amiga de Vandeci há muitos anos, contou que ela mesma se convidou para o cargo no casamento. “[Ela é] super vencedora, de coragem. Eu acreditava que ela ia sobreviver. É muito bonito isso, e um exemplo. Quando ela falou assim, ‘vou casar no hospital de câncer’, eu falei gente, eu quero ser madrinha, eu que me ofereci”, conta. “Porque quando você descobre que tem um câncer, você acredita que é o fim da linha. Nada passa na sua cabeça a não ser a morte. É um exemplo de vida pra acreditar que após o câncer ainda tem vida”.

Suledi Pereira (dir.), seu esposo e filha (Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto)

A noiva concorda: “É muito sentimento. Muita gente olha pra mim com cara de espanto, mas é muito sentimento. Aqui é um lugar que leva luz, leva ânimo. Teve dias de eu fazer medicação muito mal, achando que era o último dia, que eu não ia viver... E a gente tem que pensar que enquanto houver vida, a gente tem que ter sonhos”. 

Foto: Isabela Mercuri / Olhar Direto

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