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Em Cuiabá, professor de Harvard defende modelo assistencial para trazer eficiência à saúde suplementar

Da Redação - Isabela Mercuri

22 Ago 2018 - 11:05

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Dr. Robert Janett

Dr. Robert Janett

Formado há quase 40 anos, e atuando há 25 com medicina integrativa, o estadunidense Dr. Robert Janett, professor da Harvard Medical School e executivo da Cambridge Health Alliance, palestrou na noite da última terça-feira (21) no 1º Fórum de Atenção Personalizada à Saúde, realizado pela Unimed Cuiabá. Ele defendeu a medicina integrativa como forma de atendimento mais humano e eficiente aos pacientes.

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Robert tem uma clínica médica em Boston, onde trabalha 12 horas por semana. “Tenho uma clínica, um cartel de pacientes muito maduro. 1200 pacientes, e trabalho 12 horas por semana lá”, contou, em entrevista na tarde de terça, na sede da Unimed. “Trabalho com dez colegas em uma clínica bem organizada. Tenho que dizer que a minha clínica não é muito bonita, porque não é a planta física que é a chave de nosso sucesso. A chave do nosso sucesso é o fluxo de trabalho, e a maneira de atender os pacientes, que se chama modelo assistencial. E experimentamos esse modelo assistencial há 25 anos, com resultados espetaculares em termos de qualidade e eficiência e satisfação do paciente”.

Mas o que é este modelo? Primeiramente, o médico explica que ele é baseado em um relacionamento pessoal entre uma equipe multidisciplinar e o paciente, que segue por tempo indeterminado, ou ‘enquanto o paciente estiver contente com o serviço’. Esta equipe ajuda o paciente a ‘navegar’ no sistema de saúde. “Porque esse sistema é muito complexo. E se o paciente não tem guia, frequentemente fica confuso, e isso atualmente é o principal problema da saúde suplementar no Brasil. Existem muitos bons especialistas, hospitais, diagnósticos, o que falta ao sistema é esse princípio de organização, baseado em metas, objetivos, sensibilidades especiais do paciente individual. O paciente aqui na saúde suplementar é responsável por se autogestar, por escolher um especialista, mas não sabe se esse especialista é uma escolha correta para sua patologia”, explica Robert.

Além desta ajuda, o médico – ou a equipe – se torna responsável por seu ‘cartel’ de pacientes e pelo resultado dos atendimentos, em termos de eficiência, de qualidade, e de satisfação do usuário. No atendimento ao cliente, o primeiro passo é fazer um ‘checklist’. “Usamos a ‘mágica’ do checklist. O checklist é uma ferramenta simples, mas se todos os itens são seguidos, podemos dar um serviço mais confiável”, explica.

O modelo assistencial não é universal nos Estados Unidos, mas está presente em quase todo o país, assim como em outros lugares do mundo. No Brasil, Robert trabalha há oito anos com alguns parceiros, tentando implementá-lo, sempre adaptando-o à realidade brasileira. Atualmente, no país, mais de cem mil pessoas recebem atendimento por este modelo em vários locais, sendo que a maior implementação é em Vitória, por meio do programa ‘Personal’, da Unimed. Apesar das diferenças entre países, o modelo sempre conta com 4 pontos:

1 - Acesso aberto: “Fácil acesso ao médico e sua equipe”.
2 - Informação: “Entendemos no nível clínico quais são as brechas de atendimento para cada um de nossos pacientes”.
3 – Modelos de confiança: “Durante o momento em que se está olho a olho com o paciente, durante a visita”.
4 – Planejamento: “Antes da visita, durante a visita, depois da visita, e entre as visitas. Porque o que precisa um paciente com uma doença crônica comum, como diabetes, não é um mistério. Já sabemos o que é necessário fazer para dar atendimento de alta qualidade, então programamos essas intervenções e dividimos papeis”.

Dificuldades

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, Dr. Robert conta que há dificuldades na implantação do modelo, principalmente por ‘incomodar’ algumas pessoas. “Tem muita resistência, mas sempre há resistência para mudanças. Sistemas que existem tem inércia. [As pessoas] têm que aprender novas habilidades, o médico tem que deixar o controle e ter confiança em outras pessoas de seu time”, afirma.

Além disso, o próprio sistema se beneficia dos desperdícios do modelo atual. “Existem atores do sistema que se beneficiam do sistema presente. De sua ineficiência. Porque desperdício de um é lucro de outro. Se estamos fazendo muitos exames de ressonância desnecessários, por exemplo, para condições que não precisam de ressonância, [eles] não ajudam o paciente, não ajudam o corporativo, mas ajudam o centro de imagens. Isso é uma fonte de resistência. Temos que quebrar várias expectativas”.

Resultados

Nas experiências já realizadas por Robert e seus parceiros no Brasil, após a implementação deste modelo assistencial, as unidades tiveram melhoramento de performance econômica de 20 a 30%. A chave, segundo ele, é encontrar as ‘brechas’:
“Como fazer? Diminuir a hospitalização desnecessária, diminuir a utilização de Pronto Socorro desnecessária, diminuir exames desnecessários, mandar para o especialista correto na primeira vez, e organizar o sistema de referência para eliminar essas brechas de comunicação, que é a fonte de muito desperdício.

Mas tem outra forma de desperdício: 3% dos pacientes representam 50% dos custos assistenciais. Essa é uma métrica entendida mundialmente, porque a grande porção da população é saudável, tem doença crônica descomplicada, ou é fora do atendimento. Uma porção pequena tem complicações graves dessas doenças crônicas: insuficiência renal com diálises, amputação das pernas e doença vascular oriundas de diabetes, insuficiência cardíaca de tensão arterial descontrolada, AVC, de diabetes ou tensão arterial descontrolada, infarto miocardial: essas são complicações secundárias da doença crônica, que é mais ou menos uma coisa básica. Então, se podemos controlar essa tensão arterial, se podemos controlar a glicemia, muitas dessas complicações podem ser evitadas ou adiadas. Câncer, por exemplo, é caro e é triste. Tem muitos cânceres que podem ser detectados antes que cheguem à crise, ou antes que cresçam”.

Em Cuiabá, Robert acredita que o modelo seja implementado em breve. “Temos que reformar, não temos opção de fazer a mesma coisa sempre, porque a saúde suplementar tem problemas graves. A taxa de inflação está crescendo 20% anualmente. O custo assistencial agora é o dobro do que foi há 5 anos. É insustentável, temos que fazer alguma coisa diferente. Porque não identificarmos e eliminarmos desperdícios? Porque é muito melhor cortar gordura que cortar carne. E eu acho que não é uma crise imediata aqui em Cuiabá, mas vem essa crise. Estamos antecipando. Se começamos agora, podemos evitar a crise”, finaliza.

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