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Sexta-feira, 17 de setembro de 2021

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Em Cuiabá, Junior e Dj Julio Torres exaltam a liberdade musical na cena eletrônica e contam do novo projeto

Da Redação - Isabela Mercuri

01 Set 2018 - 11:58

Foto: Da Assessoria

Junior Lima e Dj Julio Torres

Junior Lima e Dj Julio Torres

Os dois têm anos de carreira na música, mas passados totalmente diferentes. Se um veio de um berço sertanejo, tocou ‘pop’ com a irmã durante 17 anos, e já passou pelo rock’n’roll, o outro sempre esteve na cena eletrônica. Junior Lima se apresentou pela primeira vez em 1989, e Julio Torres em 1993. A vida tratou de uni-los em 2010, ainda com o grupo ‘Dexterz’ - que contava também com o músico Amon Lima. Em 2017, lançaram seu novo projeto, ‘Manimal’, que trouxeram para Cuiabá pela primeira vez na última sexta-feira (31).

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Entre goles de amarula, pouco antes de entrar na apresentação que fariam na casa de shows Musiva, na madrugada deste sábado (1), os dois conversaram com o Olhar Conceito sobre o novo projeto, a cena da música eletrônica, liberdade de criação, e sobre os shows em Mato Grosso. Neste sábado (1), a ‘Manimal’ será atração principal da Manso Weekend, no Águas do Manso Resort (ingressos AQUI).

Leia as partes principais da entrevista:

Olhar Conceito Vocês vieram pra Cuiabá com a Dexterz há alguns anos, na época com o Amon. O que os cuiabanos podem esperar de diferente, qual é a pegada do Manimal?

Junior Lima – É um projeto bem diferente do Dexterz. O Dexterz era mais um DJ set com improviso em cima. Agora é um trabalho todo autoral, acho que do set, 95% é nosso.

Dj Julio Torres – A maioria das músicas é nossa, com edits. Até quando é música de outros artistas a gente dá uma mexida, dá uma editada, até pra ser uma coisa mais autêntica, mais autoral. A gente tinha uma vontade absurda de ir pro estúdio, de produzir nossas músicas, e aí o Manimal trouxe essa possiblidade.

OC – Foi por isso que vocês mudaram o projeto? Por essa vontade de criar?

Junior – Na época eu resolvi dar um tempo. Eu emendei muitos projetos, não saía da estrada, chegou uma hora que eu quis dar um tempo na vida de viajar, fazer show, tirei um período pra mim. Aí acabamos desmanchando o projeto. Ao mesmo tempo eles [Julio e Amon Lima] tinham em paralelo o CrossOver, então o CrossOver seguiu, e eu saí do rolê. E aí a gente [Junior e Julio] acabou se encontrando. (...) A gente ficou um tempo sem se ver, marcou de se encontrar pra ouvir música e tal, e aí acabamos conversando. Eu mostrei algumas coisas que eu estava fazendo pra ele, no estúdio - tinha recentemente estreado o estúdio que eu tinha montado - e aí a gente começou a fazer umas coisas juntos, ele começou a mexer em algumas coisas que eu tinha feito... Quando a gente viu, a gente estava produzindo, e aí acabamos criando o Manimal e virou o que virou.



OC – Hoje vocês vão tocar numa boate, numa casa de shows, mas amanhã é um lugar diferente. É num lugar paradisíaco, a galera vai pra dormir... vocês já fizeram algo nesse sentido? É uma vibe diferente?

Julio Torres – Às vezes a gente pega umas festas assim, que a galera fica num lugar, se hospeda.

OC – E é diferente a vibe?

Julio Torres – Eu acho que sim, porque as pessoas entram na vibe daquilo. Normalmente nesses lugares tem aquela festinha que é durante o dia, a parte da tarde tá rolando sunset, aí a galera toma um banho, descansa e vai pra festa a noite... Acaba sendo diferente porque eles entram no lugar só praquilo, você não tem outra coisa pra pensar, é só festa. Quando a pessoa vem pra festa, ela curte aqui, e depois que ela sai pra rua ela vai comer um negócio e pronto. Então acho que essa conexão é mais forte. É uma outra energia, estamos curiosos.

OC – Hoje vocês vão tocar depois do Kevinho, que é do funk. E o funk é uma muita feita eletronicamente, mas meio que não é considerada música eletrônica, tem uma categoria separada. Vocês enxergam algum preconceito dentro da cena eletrônica com o funk carioca? Vocês, por exemplo, têm alguma influência dele?

Julio Torres – Só uma coisa antes. Acho que tudo hoje é meio eletrônico. Tudo tem algum elemento. É natural os produtores colocarem um sintetizador em qualquer tipo de música. Então a música eletrônica está um pouco envolvida. Mas é funk. Entendo que é funk. Mas o funk é totalmente eletrônico. Porque eles fazem no computador os elementos...

Junior – É, total. Acho que essa separação é muito porque a batida é bastante distinta. O que caracteriza muito a música eletrônica é o beat reto. Então assim, em sua maioria...

Julio Torres – E o funk vem do Miami Bass,um estilo de Miami, que é uma variação da eletrônica.

Junior – É muito primo realmente, mas eu acho que [o funk] tem vida própria. É muito vivo também, culturalmente é muito rico! Por isso que realmente é uma parada que tem uma história diferente. Então acho que é natural que aconteça [a separação], não sinto isso como um preconceito.

Foto: Da Assessoria

OC – Mas vocês tem a influência do funk carioca em algum som de vocês?

Junior – Cara, tem uma música nossa que tem uma batida que é muito do funk, com alguns timbres um pouco diferentes, mas o beat é de funk. Chama ‘Gotta Get Down’. A gente ainda não lançou, mas toca nos shows e ela tem um momento bem funk. Podemos dizer que é uma influência bem direta.

OC – Pelo menos aqui em Cuiabá a cena eletrônica está em crescimento, tem bastante gente produzindo coisas novas. Como vocês enxergam a cena no Brasil?

Julio Torres – Eu acho que no geral tem muitos produtores. Em todo lugar, agora, a galera entendeu que produzir o som é importante. Como aqui tem os produtores, todo lugar que a gente vai tem.

Junior – Da época que eu parei de trampar, que a gente parou de fazer o Dexterz, de fazer a turnê, pra quando eu voltei com o Manimal, é outro cenário. É uma mudança muito grande, drástica, porque realmente tinha uma carência muito grande de produtores brasileiros, o cenário era basicamente de música gringa.

Julio Torres – Com o fim da EDM (Electronic dance music), e a galera começar a ir atrás de um som novo, nasceu essa cena de produzir música no Brasil. Tem até o ‘Brazilian Bass’, deram um rótulo pra isso. Mas eu acho que é tudo variação do House e do Techno. A galera começou a se influenciar, produzir, e agora a gente tem produtor pra tudo que é lado. Então assim, o crescimento é absurdo. Eu fico até assustado com a quantidade de música que rola. A gente está até fazendo um projeto com a Roland, que é o projeto 808, que eles vão pegar um produtor - dessa galera que está fazendo um som - e a gente vai fazer um som junto com alguns produtores. E a menina até me comentou essa semana que eles estão assustados com a quantidade de material que está chegando, porque tem muita gente.

Junior – Democratizou muito. Facilitou muito hoje em dia. Hoje um laptop resolve. Quanto mais você vai voltando no tempo, mais difícil era pra se fazer música. Agora a coisa está muito fácil. O nosso estúdio, mesmo, é feito hoje em dia de um jeito que você tira a parte principal, o laptop, e o estúdio viaja com a gente. Chega lá, só encaixa, e vira um ‘estudiozão’, com as placas, todos os equipamentos. Mas saiu, você continua conseguindo mexer em tudo. Está muito fácil.

OC – Em relação ao acesso à indústria, a tocar na rádio. É claro que tem uma facilidade por você ser uma figura conhecida, mas em comparação ao que era antes, a música eletrônica tem mais acesso ou menos?

Julio Torres – Eu acho que mudou muito o formato como a música chega nas pessoas. Com o telefone as pessoas estão muito conectadas. Às vezes a rádio acaba não sendo a primeira opção da maioria. Então tem muitos caminhos. Não só rádio, como Spotify, Deezer, Apple Music, Youtube (...) a música está muito dividida. Você tem que ter muitos caminhos, tem que entregar a música em várias vias.

Junior – Mas eu vejo que está misturando muito hoje em dia. Tem muito mais espaço do que já teve antes. Vide a festa que estamos tocando hoje. É o mesmo público! A galera que está ouvindo funk, está ouvindo sertanejo, no outro final de semana vai numa festa de eletrônico e conhece as músicas. É muito misturado! Acho que a música eletrônica está cada vez mais mainstream. Vide o espaço que Alok tem hoje em dia, o Vintage, a galera que já está fazendo o trabalho há mais tempo, e está fazendo um trabalho bem feito. Tem uma galera conseguindo coisas gigantescas, tocando em festivais enormes. Eu acho que o espaço está aumentando e está em uma transformação constante, como é pra ser. É orgânico, tudo é cíclico. Hoje em dia a gente ouve muita coisa dos anos 70, dos anos 80, dos anos 90. Sempre acaba voltando as coisas, e se transformando.

OC – Esses DJs mais celebridade, como Alok, vocês acham que eles ajudam a cena por trazer mais gente, ou atrapalham de alguma forma?

Julio Torres – Eu acho que quanto mais tiver gente divulgando, difundindo, levando, ajuda. Porque o Alok, apesar de ele ser agora super mainstream, ele vem de uma cena mais underground, tocando no festival da Bahia, o Universo Paralello. Ele vem de uma cena mais alternativa, levando a música pro mainstream, então acho que ajuda. Como aconteceu com o EDM. Eu vejo vários gringos falando que o EDM foi uma coisa muito boa pra música eletrônica, porque popularizou de uma forma gigantesca. Acabou, mas deixou muitos fãs que migraram pra cá ou pra lá, e esses fãs continuaram. De certa forma trouxe as pessoas pra música, então acho que sempre soma.

OC – Vocês sempre falaram que visam o mercado internacional também. Tem algum trabalho marcado lá pra fora?

Junior – A gente tem umas previsões de lançamento com selos gringos, umas parcerias, umas coisas legais.

Julio Torres – A gente está mixando, coisas que ainda estão em andamento, o famoso ‘não pode contar’.

Junior – Na verdade eu acho que a música eletrônica é muito universal. Ela é muito internacional. E é gostoso viajar trabalhando, levando seu som, então se a gente conseguir fazer isso vai ser sempre divertido, não tem porque não querer.

OC – Você [Julio] tem dois filhos, e você [Junior] acabou de ter o Otto. Mudou alguma coisa no ritmo de trabalho com a paternidade?

Junior – É aquele trabalho que você tem com o maior prazer a mais. Na verdade, meu trabalho não mudou muito porque a gente tem a facilidade, graças a Deus, de ter o estúdio perto ali, como mora um pertinho um do outro, a gente fica sempre colado. Então assim, eu tenho a facilidade de estar ali.

Julio Torres – A gente é privilegiado. Eu estava até comentando isso. Como que o pai que trabalha em horário normal, das 8h às 17h, faz? E o filho não deixa ele dormir a noite toda... e agora?

Junior – E aí chega em casa e o moleque está indo dormir, sabe? E pra mim, eu consigo passar a manhã com meu filho, aí eu vou pro estúdio, aí a tarde, se precisa ajudar pra dar banho ou algo assim, eu vou... e assim vai. Às vezes ele vai me visitar, fica louco querendo mexer nos botões... Acaba que a gente não está no final de semana, que é a parte mais complicada porque a gente viaja.

Julio Torres – É aquela troca do pai que tem que sair das 8h às 17h todos os dias, a gente tem que sair no final de semana.

Junior – Hoje, por exemplo, a Mônica [esposa] foi com ele [Otto] fazer um piquenique, e eu não fui. Mas é isso, o resto, acho que na nossa profissão tem a facilidade de durante a semana estar mais próximo.

Julio – Eu acho que tudo tem o seu porém. Você gosta de fazer música, de tocar, e tem a coisa chatinha de ter que viajar...

Junior – Mas tem o lado gostoso também, de curtir, dar uma saída. A estrada é uma aventura, a estrada vicia. Eu fiquei um tempo sem fazer show... Cara, eu ficava meio deprê, preciso criar algo pra eu rodar. Nós dois temos praticamente o mesmo tempo de carreira, então é uma vida na estrada.

Manimal 'em ação' (Foto: Cool Magazine)

OC – [Para Junior] A maioria dos artistas, quando entra na música, busca o sucesso, chegar no topo. Você estava no topo quando talvez nem soubesse se queria estar ou não. O que te motiva, ainda, a fazer música? No topo você já esteve, o que te leva a continuar?

Junior – Paixão mesmo. Eu sempre fui louco por música. Desde moleque. A primeira bateria eu tive com três anos de idade, porque eu comecei a quebrar a casa dos meus pais com a baqueta porque queria tocar bateria de qualquer jeito. Nem sabia o que estava fazendo, mas era instintivo. Era uma família de músicos, meu pai sempre tocando, minha mãe sabe cantar, meus avós por parte da mãe eram músicos... é uma influência muito direta mesmo sem eles perceberem, era um negócio muito natural. Então música é o que eu sei fazer, e se a gente não se sente produtivo, qual o sentido? Eu peguei um período sabático, e chegou uma hora que não fazia sentido. Eu sou uma pessoa muito criativa, eu tenho muita ideia... [se] estou ouvindo música, tenho um milhão de ideias o tempo todo. Fico infernizando ele [o Julio] toda hora, falando: 'A gente podia fazer uma negócio aqui...' Então, se eu não colocar isso pra fora, eu vou ficar deprimido mesmo. Eu preciso da música pra estar bem.

OC – E você já passou por vários projetos, já tocou pop, rock, e agora eletrônico. Foi na musica eletrônica que você se encontrou, ou é a vibe que você está agora, e pode ser que mude?

Junior – Cara, não dá pra dizer muito sobre o futuro, de verdade. Mas eu me encontrei muito bem na música eletrônica, principalmente nesse projeto, onde a gente tem muita liberdade artística pra criar, pra produzir. Eu me envolvo em absolutamente todas as partes do processo de fazer música, desde o design da onda que a gente vai colocar no negócio, até o reverbzinho... Todo o processo. Aí chega aqui tem o lance de performance, tem tocar o que eu gosto de tocar, toco guitarra, toco batera, tem os momentos de vocal... Então assim, eu consigo transitar por todas as áreas que eu gosto, dos meus instrumentos, das minhas ideias, do que eu gosto de tocar. Até porque a gente tem influências dos sons que eu mais gosto de ouvir, que fora do eletrônico são o rock e o soul. Me completa muito nesse sentido.

A gente está o tempo todo produzindo, compondo, tendo ideias, é muito vivo. E ainda tem a possibilidade - que não existia na minha vida até então - que é de fazer uma música durante a semana no estúdio, dar um trato no som, aquela levantada básica só pra testar, coloca no meio do set, ver o que rolou, voltar pro estúdio, ajeitar...



OC – Então uma apresentação é sempre diferente da outra?

Junior – Totalmente. Muda muito a ordem das músicas, a vibe, a maneira como a gente toca, tudo. É muito vivo. É aberto pra improviso... e ao mesmo tempo é um mercado diferente. Porque eu passei muitos anos no mainstream, com todos os compromissos envolvidos naquilo. E poder viver da música num circuito totalmente diferente, fazendo um outro rolê, fazendo um som diferente, tendo a liberdade que eu tenho... foi onde eu falei: 'Nossa, irado!'. E ainda, eu me apaixonei por sintetizadores. Quando a gente começou a produzir as primeiras músicas, lá no Dexterz, a gente ficava muito no estúdio, eu e o Julio. Foi ali que a gente já ganhou muita afinidade musical. A gente tem uma dinâmica no estúdio que funciona muito, é muito natural. Revezamento de mouses...

Julio – Sim! Eu estou lá fazendo uma coisa, ele já pega o violão, a guitarra... eu escuto já batendo em alguma coisa, e falo: vamos gravar. Aí já transforma numa ideia e vai, sem fim.

OC – A liberdade é o principal então?

Julio – Liberdade é um negócio muito poderoso.

Junior - E o lance do revezamento... se eu estou lá no estúdio fazendo um negócio, saio e ele chega com o ouvido fresco e transforma aquilo. Aí eu volto, ouço, a música deu uma caminhada. Falo: ‘Nossa, caralho, foi pra outro lugar que eu não imaginava!’. É assim, então é muito legal, a gente tem uma química muito massa.

Julio - A gente viaja. Eu estava agora mesmo no quarto mexendo (...) Porque é o que ele falou: a modernidade, o estúdio na mão. Você abre o computador, não tem nada pra fazer...

OC – Mas aí vocês acabam trabalhando bem mais também...

Junior – Mas quando você trabalha com um negócio que você ama, não está trabalhando muito.

Julio – (...) Quando você ama isso, você faz na hora do seu lazer.

Junior – Por exemplo, são duas horas de voo de São Paulo pra Cuiabá. E eu tenho um tecladinho que comprei recentemente, que é um sintetizador maravilhoso que tem batera e quatro canais, e dá pra fazer música nele. Eu vim fazendo. Cara, eu nem vi o voo passar. 

Serviço

'Manimal' toca neste sábado na Manso Weekend

Line Up:

Nacionais:
- Manimal (Júnior Lima e Julio Torres)
- Rafael Cancian

Regionais:
- Leo Bouret
- Tiago Faisão
- Say Ventura
- Thalisson
- Ivo Mioranza
- Cleiton Araujo vs Cleber Araujo

Inicio do evento: 01/09 às 14h; término: 02/09 às 14h
Hospedagem: (65) 9.9947 6655 
Local: Águas do Manso Resort
Ingressos avulsos AQUI
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