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Após se livrar de um relacionamento abusivo, cuiabana abre brechó-manifesto feminista em SP

Da Redação - Isabela Mercuri

25 Fev 2019 - 14:07

Foto: Camila Cecílio

Camila Cecílio vestindo Gaveta Efêmera

Camila Cecílio vestindo Gaveta Efêmera

Libertação, empoderamento, autoconhecimento. Palavras muito em voga nos dias de hoje e que podem parecer simplesmente jargão pra vender mais, mas que na vida da cuiabana Camila Cecílio, 29, fazem todo o sentido e são reais. A garota, que deixou ‘tudo’ pra trás, vendeu as próprias coisas para viajar por três meses na Europa depois de se livrar de um relacionamento abusivo, tentar – frustradamente – encontrar o pai e decidir ‘fazer tudo o que queria fazer’, inaugurou no último mês de dezembro, em São Paulo, um ‘brechó-manifesto’ que aglutina todos os seus sentimentos. ‘Gaveta Efêmera’ une moda, sustentabilidade, fotografia, experimentação, criação e ativismo – além de enviar as peças para todo o Brasil.

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Camila nasceu em Cuiabá, já morou em Goiânia – depois de se formar em jornalismo com apoio de bolsa do ProUni – e trabalhou em diversos lugares da capital mato-grossense, até 2017. Em janeiro de 2016, foi morar junto com um ex-namorado com quem, segundo suas próprias palavras, sofria um relacionamento abusivo. Na mesma época, decidiu procurar pelo pai, que nunca conheceu. Chegou a fazer dois exames de DNA (além dos dois outros que tinha feito anos antes) mas os resultados foram negativos.

“Juntei todas as decepções daquele ano e decidi, com muito apoio das minhas amigas, me libertar. Eu já estudava sobre o movimento feminista e, a cada dia, ia me desconstruindo um pouco mais. Em agosto eu decidi me separar. Saí da casa do meu ex com uma geladeira, uma mesa, umas plantas e um filhote de cachorro. Ali, naquele momento da vida, eu me quebrei em tantas partes que nunca vou saber contar. Mas também foi ali que eu decidi mudar, exatamente como diz a música "Agora só falta você", da Rita Lee”, contou ao Olhar Conceito. Camila também contou com o apoio de familiares, principalmente os avós (o avô é o senhor da foto que aparece nessa matéria).

Em 2017, ela decidiu que faria uma grande viagem e, para isso, vendeu tudo o que tinha, como móveis, eletrodomésticos, objetos decorativos, panelas e roupas. “Eu ia embora de Cuiabá e decidi que não precisava daquele tanto de coisa. Tinha roupas e sapatos parados há muito tempo no meu armário, então comecei a me questionar: pra quê isso se nem uso e sei que nunca vou usar? Resultado: coloquei metade do meu guarda-roupa à venda e fiz uma grana bacana, fechei as malas e fui fazer um mochilão pela Europa sozinha. Passei quase três meses refletindo sobre a minha vida e descartando lixos emocionais e já me preparando pra viver bem com menos”, lembra.

De volta ao Brasil, em janeiro de 2018, ela estava decidida a morar em São Paulo, mas não foi fácil. Desempregada, teve que voltar para Cuiabá, onde ficou por dois meses e meio e foi embora novamente. Foi aí que a ideia do brechó online, que já estava em sua cabeça desde que começou a vender as próprias roupas, veio à tona. Com mil reais, pesquisas de mercado e leituras sobre empreendedorismo, ela arriscou. “Assim nasceu o Gaveta Efêmera: resultado de decepções, frustrações, desilusões, rupturas, mas, acima de tudo, resultado da potência que é esse negócio de se reinventar a cada dia nessa sociedade machista e patriarcal e, também, da certeza de que sempre podemos começar, a qualquer hora e em qualquer lugar”.

Além do dinheiro investido por ela, Camila conseguiu muita doação das amigas, que também lhe ajudam modelando para as fotos, já que a ‘Gaveta Efêmera’ também usa muito a fotografia para se comunicar. Hoje, são cerca de 200 peças no acervo, mas nem todas já estão fotografadas. “Outra linha de atuação é o consignado, em que a pessoa disponibiliza as peças para o brechó, eu faço toda a divulgação, e dividimos o valor da venda. Os preços são bastante justos e acessíveis, como acredito que deva ser nesse mundo brechonístico”, afirma.

As peças são compradas online e, se o cliente for de São Paulo, Camila entrega – geralmente em estações de metrô. Se o cliente for de outro estado, ela envia, cobrando o valor do frete. “Adoro a ideia de vender roupas para pessoas reais: gente de todos os tamanhos, cores, estilos. Fotografar essas pessoas também é uma forma que encontrei de manifestar contra os padrões estabelecidos no mundo da moda, sabe? Não tem padrão mais, todo mundo pode ser top model, todo mundo pode ser capa de revista, toda pessoa tem a sua beleza, seu encanto e tenho mostrar isso diariamente nas fotos que faço”, afirma.

Hoje, Camila ainda não consegue se manter somente com a renda do brechó. Ela também escreve sobre educação para o site da revista Nova Escola, administra as redes sociais de um projeto da área ambiental e faz bicos. “Já fui babá, já lavei muita louça, também cuido de animais quando seus donos viajaram. Enfim, vou me virando. O brechó é uma paixão, é um filho que trouxe ao mundo e espero vê-lo crescer muito ainda. Por enquanto tem sido mais uma realização pessoal, uma paixão, mas ainda não é minha fonte principal de renda”.

Sobre o nome, ela explica: “Gaveta Efêmera vem da ideia de que estamos em permanente mudança e isso, muitas vezes, é refletido no nosso modo de se vestir. Roupas vêm, roupas vão. Precisamos deixar ir aquilo que já não cabe mais no nosso contexto atual de vida e dar espaço ao novo que sempre vem, como diria Belchior. E é muito legal pensar que não vestimos apenas panos, mas ideias, ideais, pensamentos e, sobretudo, histórias - as nossas e as dos outros”, finaliza.

Foto: Camila Cecílio

Serviço

Gaveta Efêmera
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