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Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

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Coletivo negro audiovisual critica carta da MT Cine e defende R$600 mil para formação de profissionais

Da Redação - Isabela Mercuri

26 Jun 2019 - 10:59

Foto: Reprodução/Facebook

Coletivo negro audiovisual critica carta da MT Cine e defende R$600 mil para formação de profissionais
O Coletivo Audiovisual Negro Quariterê publicou, no último domingo (23), uma nota de consideração sobre a carta aberta da MT Cine – que foi divulgada pelo Olhar Conceito na última terça-feira (25). Na carta, alguns profissionais da área pediam que R$600 mil devidos pelo Estado para formação fossem usados para produção de dois longas-metragens. Segundo o coletivo, esta ideia prejudica “negros, mulheres, periféricos, indígenas e LGBTs, [que] são os mais afetados pela falta de oportunidades de formação”.

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A nota afirma que optar pela produção dos filmes é trocar “mais de meio milhão de reais em formação, de centenas de profissionais por todo o estado de Mato Grosso, pela a realização de dois (02) telefilmes que não terão o mesmo impacto e abrangência que o edital de formação”. Além disso, denuncia que a petição foi feita de forma exclusória e ‘vertical’, já que não são todos os profissionais da área que concordam com o pedido.

O edital de seleção de projetos audiovisuais foi publicado em 2017, em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e o Fundo Setorial Audiovisual (FSA), por meio dos ‘Arranjos Regionais’, em que para cada R$1 investido pelo Estado, R$2 seriam investidos pelos órgãos nacionais como contrapartida.

No total, o valor do edital era de R$6 milhões. Ou seja, R$2 milhões pagos pela Secretaria de Cultura de Mato Grosso, e R$4 milhões pela Ancine. Como o Estado ainda não pagou R$600 mil, a ideia da MT Cine é que este valor – que seria destinado à formação profissional – passasse para a produção dos documentários “Meninas em conflitos com a lei” da empresa produtora Infinity Produtora e “Questão de Fronteira” da empresa produtora Latitude Filmes, “permitindo assim o desbloqueio e impedimento de contratação dos recursos da ANCINE/FSA por parte das produtoras proponentes”. Desta forma, a agência nacional pagaria os R$4 milhões para a produção de “Cinco tipos de medo” da empresa produtora Plano B Filmes e “Memória de Elefante” da empresa produtora Molêra Filmes.

Enquanto a MT Cine afirma que “O não acontecimento dos longas-metragens ainda no ano de 2019 paralisa o setor que deixará de injetar na economia local o valor de 4 milhões de reais e a geração de no mínimo 250 empregos diretos pelo período de 90 dias em Cuiabá e nas regiões previstas para a produção”, o coletivo negro Quariterê acredita que isso é “não perceber que 600 mil reais de investimento em formação irão trazer muito mais do que os momentâneos 90 dias de produção, faz parte dessa perspectiva distorcida do papel da educação. Na prática, a troca da formação pela realização é a simples manutenção do status quo, ou seja, quem produziu continuará a produzir e quem sonha em produzir, e se profissionalizar para tanto, continuará à deriva, à mercê de políticas de inclusão que não são priorizadas e não acontecem”.

Olhar Conceito entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secel, mas até o fechamento desta reportagem, não obteve retorno.

Leia a íntegra da nota do coletivo:

NOTA DE CONSIDERAÇÕES SOBRE A CARTA ABERTA DA MT CINE E ENTIDADES DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PROFISSIONAL

O Coletivo Audiovisual Negro Quariterê considera importante a discussão ampla e transparente de qualquer decisão tomada por uma entidade representativa de classe e, neste sentido, acredita que é importante o debate sobre a Carta intitulada “Carta Aberta dos profissionais de audiovisual e cinema de MT e das entidades de formação acadêmica e profissional, à Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso”, assinada pela MTCine.

Em que pesem as considerações feitas no documento, em especial as concernentes a prazos e morosidades burocráticas, é vital termos em mente que estamos trocando mais de meio milhão de reais em formação, de centenas de profissionais por todo o estado de Mato Grosso, pela a realização de dois (02) telefilmes que não terão o mesmo impacto e abrangência que o edital de formação.

Preliminarmente, é necessário rememorar que no dia 1o de abril de 2019, em reunião ordinária, convocada pela MTCine, realizada no Cineclube Coxiponés (UFMT), foi deliberada uma comissão responsável por apresentar propostas para a Secretaria Estadual de Cultura de Mato Grosso, para contribuir na formatação do edital de formação. Foi formada a comissão e as propostas foram apresentadas. Houve então, um hiato na resposta sobre as definições e andamento do lançamento do respectivo edital. A princípio, era assegurado e definido que o edital SEC/MT/001/2017 de formação seria lançado no prazo estabelecido - considerando que ele ainda está em tempo de ser executado. A MTCine é uma organização que vem representando os interesses do audiovisual mato-grossense e, como tal, tem o dever de ouvir as demandas dos profissionais. Entendemos que o processo de confecção dessa petição foi exclusório. Se a decisão de elaborar a carta não tivesse sido tomada de maneira vertical certamente teríamos sido contrários à sugestão de re-designar esse valor de 600 mil reais, já que os profissionais negros, mulheres, periféricos, indígenas e LGBTs, são os mais afetados pela falta de oportunidades de formação.

A carta salienta que ‘na prática’ estamos inviabilizando, no mínimo atrasando, a injeção de 4 milhões de reais no mercado audiovisual. Aqui está um grande problema de como pensamos a educação e a formação no Brasil: o imediatismo. Não perceber que 600 mil reais de investimento em formação irão trazer muito mais do que os momentâneos 90 dias de produção, faz parte dessa perspectiva distorcida do papel da educação. Na prática, a troca da formação pela realização é a simples manutenção do status quo, ou seja, quem produziu continuará a produzir e quem sonha em produzir, e se profissionalizar para tanto, continuará à deriva, à mercê de políticas de inclusão que não são priorizadas e não acontecem.

Argumentar que “o aumento no investimento de produções locais, de certa forma trabalha o eixo de formação”, pois “essa já é uma prática do mercado local, de audiovisual” é subestimar o entendimento e dimensão de muitos que acompanham o manejo dos recursos destinados ao audiovisual, do real contexto em que este se apresenta. Sabemos que aqueles que já compõem seletivamente o tecido profissional, serão retroalimentados pelas oportunidades adjacentes às produções previstas e nada garante que as produções a serem beneficiadas com os recursos a serem disponibilizados levarão em consideração, na formação de suas equipes, a necessidade de diversidade e inclusão.

O propósito desta nota é trazer à tona um debate inclusivo sobre a aplicação de recursos sobre o referido edital, bem como salientar a urgência da aprovação de um estatuto da MTCine que formalize os procedimentos de convocação de reuniões deliberativas e apresentação de propostas para órgãos como a SECEL-MT (antiga SEC). Não podemos reproduzir dentro de uma entidade representativa os mesmos moldes de gestão sem diálogo que vêm minando os investimentos em cultura do nosso país. Esperamos que, independentemente da posição da MTCine sobre este caso, se priorize os interesses coletivos, e não demandas individuais, por meio de diálogos democráticos para que ela tenha condições de, de fato, refletir as demandas da classe.

Coletivo Audiovisual Negro Quariterê - MT 23 de junho de 2019

1 comentário

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  • Lugger
    26 Jun 2019 às 11:44

    Por que qualquer decisão na área cultural precisa ter o selo de Lacre? Deve ser por isso que o audiovisual brasileiro anda às minguas e na irrelevância.

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