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Quarta-feira, 21 de outubro de 2020

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Da roça aos palcos, Elza D’Brasil diz que nada a faz perder o rebolado: “Com meu salto 15 e meus cílios postiços encaro qualquer situação”

da Redação - Isabela Mercuri

18 Set 2020 - 14:45

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Da roça aos palcos, Elza D’Brasil diz que nada a faz perder o rebolado: “Com meu salto 15 e meus cílios postiços encaro qualquer situação”
Foi aos quinze anos, quando ainda vivia no Maranhão, que Elza D’Brasil descobriu que queria ganhar a vida nos palcos, como drag queen. Com esta idade, foi ao cinema assistir ‘Priscila, rainha do deserto’:  “Quando eu vi aquelas três bichas, dentro de um ônibus, fazendo shows... e aquela cena clássica da outra em cima de um salto alto num ônibus, de paetê... aquilo me fascinou. Eu pensei, taí: eu quero ser ‘viado que se monta de mulher’”. Na época, ela já tinha trabalhado na roça e em uma lanchonete, mas queria mudar totalmente de vida.

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Desta primeira impressão para o nascimento de Elza, no entanto, passou-se muito tempo. Antes disso, ela saiu do Maranhão e veio para Cuiabá para fazer um tratamento de saúde. Por aqui, conheceu pessoas que se ‘montavam’ na noite, e participou da ‘Escola de Drags’, na hoje extinta boate ZumZum.

Na escola era ensinado de tudo sobre o mundo drag: maquiar-se, andar de salto alto, como montar uma peruca na cabeça e até como fazer dublagem. Depois das aulas, ela fez sua primeira apresentação na boate, onde interpretou o show ‘Lisbela e o Prisioneiro’, e logo tornou-se parte do elenco fixo e ‘hostess’ do local.

Foram sete anos na Zumzum, onde Elza pode mostrar seu principal ‘fator drag’: a comédia. Com o microfone na mão, ela fazia todo mundo rir nas apresentações de stand up. O nome veio depois, a partir de uma brincadeira que veio para ficar.



“Uma vez a gente estava em uma praça no CPA II, em um barzinho, fumando um cigarro e eu peguei um isqueiro emprestado e coloquei o isqueiro no bolso, automaticamente”, lembra. A dona do isqueiro sentiu falta dele, e Elza percebeu que o tinha guardado. “No nosso linguajar, “Elza” é roubo. Quando fala “a bicha deu a Elza”, é porque roubou”, explica. O apelido ‘Elza’ veio, e inicialmente ela não gostou, mas quando juntaram o ‘D’Brasil’, em alusão a seu gosto por MPB, ela aceitou.

A ZumZum fechou as portas em 2014, e pegou Elza e outras drags de surpresa. “Depois que a ZumZum fechou a gente ficou um tempão sem boate pra mostrar nosso trabalho, e foi bem difícil, porque a minha vida inteira, desde que eu cheguei em Cuiabá, foi pra noite, eu me tornei uma pessoa da noite. E foi bem difícil... depois que a Zumzum fechou vieram outras boates, veio o Furrundu, a HotSpot, e agora por último a Queen, que fechou por conta da pandemia. Mas nenhuma dessas era igual à ZumZum. Porque a ZumZum era uma boate pra drag mesmo, pra drag mostrar o show dela. Essas outras que abriram eram boates GLS, tinha palco, mas não era uma boate programada para drag”, explicou.

Desde então, Elza tem se sustentado em apresentações esporádicas na capital, no interior de Mato Grosso e com animação de festas, como despedidas de solteiro, aulas da saudade, chás de panela e aniversários. Com a pandemia, precisou se reinventar novamente, e passou a trabalhar no salão de beleza Seletto, no Jardim Cuiabá, como hostess e chefe de limpeza. Nas redes sociais, realiza lives para manter o nome e a imagem de Elza D’Brasil em alta.

Homofobia

Elza relata que já passou por diversas situações de homofobia, seja durante o trabalho ou mesmo quando não está montada. Uma das mais graves aconteceu quando ela e uma colega foram contratadas para um aniversário de um rapaz. “Fomos de dançarina do ventre. Os amigos queriam fazer uma sacanagem com o colega. O menino estava vendado, e quando tiraram a venda dele, ele saiu da festa. Saiu nervoso quebrando cadeira, jogando garrafa... e a gente ficou até com medo de ele agredir a gente. Mas aí o rapaz pagou nosso cachê e a gente saiu. Ele não gostou, mas a gente pegou nosso cachê e foi embora”, lembra.

Outra situação, mais recente, foi quando um motorista de uber não queria levá-la. Depois de muita conversa, ele acabou aceitando. Mesmo assim Elza preferiu não denunciá-lo ao aplicativo. “Eu falei, não... esse cara merece ganhar o pão de cada dia. É só no decorrer da corrida mostrar pra ele que nós somos seres humanos, e que a partir do momento em que ele decidiu ser uber, ele tem que respeitar qualquer passageiro que entre no carro dele. E eu tenho certeza que hoje em dia ele jamais vai mais deixar de levar um negro, ou uma drag, ou uma travesti, ou uma garota de programa. Eu acho que ficou bem claro pra ele que ele estava ali pra ganhar o pão de cada dia, e que o dinheiro da drag é o mesmo dinheiro de um empresário, o dinheiro de uma travesti é o mesmo dinheiro de uma dona de casa. Dinheiro é dinheiro. Pra pagar as contas dele e dar comida para os filhos dele”.

Dentro de casa, mesmo sendo de família evangélica, a relação é outra. “Existem evangélicos e evangélicos. As pessoas que agridem o homossexual não são evangélicos. Vou deixar bem claro aqui, pra todo mundo que puder ouvir essa fala minha: uma pessoa que diz que é crente, evangélica, e ataca um ser humano, ele não é evangélico, ele é louco. A minha mãe é evangélica, as minhas irmãs são pastoras, e eles nunca me agrediram, pelo contrário. Eles sempre me respeitaram. Então essas pessoas que agridem não são crentes, são loucos, fanáticos”.

Mesmo diante de todo o preconceito, ela garante que não se abala. “Uma coisa eu falo: eu sou uma drag Queen, eu sou um homossexual, e eu tenho certeza que sempre vai ter preconceito, sempre vai ter homofobia, e eu já estou preparada pra isso. Eu estando com meu salto 15, com meus cílios postiços, eu encaro qualquer coisa, qualquer situação. Cara feia, conversa, olhares, isso vai existir... mas isso não tira meu rebolado”, finaliza.

Serviço

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Contato para shows: (65) 99338-4855

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