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Terça-feira, 01 de dezembro de 2020

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Apoiadores de Adir e Dias-Pino planejam manifestação para que mural e monumento voltem à Praça Oito de Abril

da Redação - Isabela Mercuri

06 Out 2020 - 15:34

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Mural de Sodré em 2017

Mural de Sodré em 2017

Depois que o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) afirmou, em entrevista ao Olhar Direto, que a Prefeitura perdeu o monumento ‘Árvore de Todos os Povos’, que a recolocaria em “algum lugar” da praça Oito de Abril, e que fará uma homenagem a Adir Sodré, com outros artistas plásticos, o meio cultural, insatisfeito, passou a discutir uma forma de mostrar sua insatisfação à administração municipal. Na próxima sexta-feira, 9 de outubro, amigos e apoiadores de Sodré devem fazer uma manifestação na própria praça, enquanto a Casa de Cultura Silva Freire deve lançar um abaixo-assinado pelo retorno da escultura de Dias-Pino.

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O advogado Murilo Spinolla, um dos organizadores da manifestação, afirmou ao Olhar Direto que a data foi escolhida porque nesta sexta-feira (9) seria aniversário de Adir. “Com a passagem do Adir, criou-se um grupo de amigos. Nós nos reunimos em um grupo de WhatsApp intitulado ‘Amigos do Adir’, e com isso várias conversas foram feitas sobre a relação de cada um com ele. Dia 9 de outubro é aniversário dele, então ficamos discutindo o que poderia ser feito, e aí surgiu a ideia, no grupo, de fazer o aniversário dele na Praça Oito de Abril, porque o poder público se comprometeu a devolver uma réplica da escultura do Dias-Pino lá. E surgiu essa ideia de discutir sobre o painel do Adir”, afirmou, após ser procurado pelo Olhar Direto.

Em janeiro de 2020, após a entrega da Praça e muitas reclamações acerca da retirada do mural de Adir – onde ele estava foi pintada uma parede verde – a secretaria municipal de Cultura chegou a se comprometer a convidar o artista plástico para fazer uma nova pintura. No entanto, Adir faleceu em agosto após um infarto.  “Isso era uma briga do Adir, antiga. Tanto em relação ao painel dele quanto em relação àquela outra obra que foi retirada sem nenhuma justificativa. Simplesmente tiraram e colocaram outra lá. E isso era uma briga dele, uma revolta, ele ficou indignado com isso, e a gente também”, contou outra amiga de Adir e membro do grupo, Alba Medeiros.

“Surgiu a ideia de fazer alguma coisa. Era algo só escrito, impresso, mas surgiu no grupo alguém falando sobre o painel, e eu falei, bom, já que vamos lembrar de cobrar o painel, e levo o bolo para cantar parabéns lá na praça, em frente ao painel, e a gente faz uma faixa pedindo que volte o painel. Porque a parede que está lá é uma parede verde, não tem nada”, lamentou.

Segundo Spinolla, os artistas, amigos e apoiadores de Adir não querem uma homenagem a ele, e sim a reconstrução do mural antigo. “Se tivéssemos autorização da filha dele, a Nina, que já deu essa autorização, e tivéssemos uma boa fotografia e imagem do painel, eu me encarregaria de fazer a reprodução, refazer esse painel através de uma artista plástica, a Jaqueline Barroso, que faria o desenho e disponibilizaria para o grupo para aprovação. Não é restaurar, porque não está mais lá. Teria que refazer”, explicou. “É claro que não será igual. Quando você reproduz, você vai pegar, com base nas imagens, traz as características da obra para fazer uma coisa muito parecida, com base em técnicas de cópias, mas não é, lógico, a mesma coisa que a obra do artista”. Segundo Alba, outra alternativa seria que o funcionário que trabalhava com o Adir fizesse essa reconstrução.

Árvore de todos os Povos

Foto: Reprodução

A situação do monumento ‘Árvore de todos os Povos’, de Wlademir Dias-Pino, também é complicada. A declaração dada ao Olhar Direto foi a primeira em que a Prefeitura admitiu que perdeu a escultura. No entanto, essa já era a desconfiança de Larissa Spinelli, diretora geral da Casa de Cultura Silva Freire, que em janeiro publicou, inclusive, uma nota técnica sobre a importância da obra.

Outra questão, no entanto, preocupa Larissa: o fato de o prefeito dizer que a réplica pode ser colocada em outro local. “A questão é mais ampla. Aquela localização, na esquina do Choppão, bem na quina da Praça Oito de Abril, tem um sentido maior porque ela está relacionada ao movimento literário do intensivismo, que a gente divulgou e tudo. Eles tinham um projeto praquela praça, a praça na época tinha sido tombada para que fosse patrimônio da cidade, já que ela é a data da fundação da cidade. Depois que aconteceu a reforma, tem um grupo, do entorno da praça, dos comerciantes, não sei bem como aconteceu isso... mas que não estão muito a favor da retirada do chafariz de lá. Então eu acho que nessa matéria o prefeito fala isso, me chamou atenção... ele fala: nem que a gente coloque em outro lugar. Para a gente não faz sentido esse outro lugar. Tem que ser ali, até porque em breve vai inaugurar o outro monumento dos boêmios, que o Silva Freire inclusive faz parte, e a movimentação da boemia na década de 70 também gerou o intensivismo. E essa escultura vem do movimento do intensivismo, ela tem os princípios da linguagem de vanguarda do intensivismo”, afirmou ao Olhar Conceito.

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

A obra foi colocada na praça em 2008, após uma reforma realizada pelo então prefeito e atual deputado estadual Wilson Santos (PSDB). “Ela [a obra] é tridimensional. Aquela esquina é porque você vê de vários ângulos, que faz aquela curva, quem vira a Getúlio, do outro lado da praça... e também pelo significado do projeto que eles tinham pra Cuiabá. Essa praça, na época, na década de 70 pra 80, Célio da Cunha, Wlademir Dias Pino e Silva Freire fizeram um projeto que se chama ‘Praça-Monumento’, pra ser lida, ouvida e pensada. Ou seja, ela é um bico de uma flecha apontando pra Amazônia. Então tinha toda uma fundamentação teórica dessa praça... tudo bem, beleza, passou-se o tempo, não foi possível, mas daí para retirar uma escultura de lá... na gestão do Wilson em 2008 essa escultura foi colocada lá, e na época a Adriana Santos, que era esposa do Wilson e estava na presidência do IPDU, me solicitou o projeto da praça. Então eles fizeram tudo com o maior cuidado e respeito na primeira reforma, em 2008, com o projeto antigo da praça, desse movimento. Mas agora parece que não existe nada, patrolaram inclusive a reforma anterior, como se nunca tivesse tido uma reforma na praça”, lamentou.

Segundo Larissa, o secretário municipal de cultura Francisco Vuolo chegou a garantir, ainda em janeiro, que a empresa Penalux – que foi quem confeccionou o projeto de Dias-Pino em 2008 – ainda tinha esse projeto, e por este motivo é possível, sim, fazer uma réplica. “[Disseram que] iam fazer uma manutenção. Eles não falaram que tinham perdido, não tinha essa informação oficial. E aí realmente virou sucata na certa, na reforma”, afirmou. “Na época o secretário Vuolo falou que [a Penalux ainda] tinha [o projeto]. Eles já tinham entrado em contato com a Penalux, e que eles tinham o projeto. Então assim, na época a gente até ficou mais aliviado em saber disso, porque se tivesse virado sucata e não tivesse a possibilidade de fazer novamente, aí ia ser mais grave ainda”.

Agora, a Casa de Cultura Silva Freire quer lançar um abaixo assinado pedindo a recolocação desta réplica no mesmo local onde estava antes. “Eu acho que a gente consegue assinatura até fora do país, porque tem muita gente que não quer que saia o chafariz de lá. Eu acho que quem não conhece a história, acha que está bonito, não repararam ainda do que era, não tem conhecimento do que era antes. Então também tem que ter um processo de educar a população, de informar a população, enfim”, finaliza.

Acesse a nota técnica AQUI.

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