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Sábado, 13 de agosto de 2022

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MÊS DO ORGULHO LGBTQIA+

Travesti negra, Lupita Amorim é atriz, dançarina, modelo, poetisa, comunicadora, líder militante e tecelã do próprio destino

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Travesti negra, Lupita Amorim é atriz, dançarina, modelo, poetisa, comunicadora, líder militante e tecelã do próprio destino
“Eu sou tecelã do meu destino”. É assim que Lupita Amorim, se descreve. Travesti negra de 23 anos, nascida em Várzea Grande, ela está há cinco anos na batalha para ter um currículo artístico ainda mais forte que lhe renda mais espaços a nível nacional e internacional. Atriz, dançarina, poetisa, modelo, comunicadora e líder Lgbtqia+ do movimento negro MT, hoje está prestes se formar em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso e enxerga que seu “futuro artístico está sendo brilhantemente construído”. Sobre o mês do Orgulho LGBTQia+, ela trava luta para que as vozes da sigla sejam ouvidas o resto do ano.

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“As vezes eu pesquiso no Youtube meu nome e vejo um vídeo que sou dançarina, um vídeo que sou atriz, um vídeo que sou palestrante, ou sei lá coloquei também vídeos de poesias que gravei. Então assim, minha maior realização tem sido visualizar isso na internet. Pesquisar meu nome no google e ver diversos trabalhos meus. E antes de ser para os outros, é para mim. Eu me sentir realizada com o que vejo”.

Multiartista, ela conseguiu se visualizar no mercado da arte em 2017 e, de lá pra cá, tem somado premiações, publicações, recebeu moções de aplausos e emplacou um poema pela editora, Ases da Literatura, de Portugal.

Multiartista

Dentre editais, publicações, poemas e ações sociais, Lupita intensificou sua escrita poética de forma mais enfática durante a pandemia. Com apoio de seu primo, Mauricio dos Santos, que também é escritor e lhe iniciou no meio artístico poético, ela começou a escrever seus primeiros poemas em novembro de 2019.




Em 2020, “com essa coisa de ficar em casa e tentar ser mais produtiva para não deixar os problemas tomarem conta”, acentuou sua produção literal e percebeu que isso foi uma das melhores decisões que teve. Pois conseguiu, com seus trabalhos poéticos, alavancar suas realizações pessoais e artísticas, conquistando reconhecimento regional, nacional e internacional.

“Então isso me deixa extremamente realizada e eu olho para mim de 2020 e falo ‘caramba, se voltar atras eu diria para mim continuar nisso (poesia e escrita). Porque eu consegui fazer uma base muito sólida em ter diversos trabalhos, tanto em livros impressos, e-books, coletâneas, antologias”.

Nesta toada, Lupita emplacou seu conto “A Caminho” no livro Geração 90, coletânea da Editora Persona que reuniu contos e poesias da língua portuguesa com autores entre a 22 e 31 anos em todo país.

Em 2021 ela escreveu “Mulheres, nossos códigos”, que foi publicada na coletânea “Quarentena Poética”, da editora Ases da Literatura, de Portugal, aberta para escritores da américa latina, Europa, América do Norte e da África,

“E eu fiquei muito feliz em ter meu trabalho selecionado lá. O livro está na Amazon para as pessoas comprarem. Eu também comprei minha versão, tenho lá impresso. Na página 81 está lá, a minha poesia “Mulheres, nossos códigos”.

Além disso, recebeu o prêmio Rodivaldo Ribeiro de literatura, conquistando o primeiro lugar em MT. Publicou relatos de experiência nos anais da jornada em 2018 e 2019, publicou em Controls Profícuos, e conquistou espaço no Prêmio off Flip, do Rio de Janeiro, com a publicação de um conto.

Hoje, tem seu próprio e-book de poesias chamado “Anseios”, com obras suas e de Wanderir Maurício.

Dentre suas várias facetas artísticas, Lupita também conquistou seu lugar como modelo em diversos trabalhos, inclusive tendo seu rosto e corpo estampados na revista Eu Garimpo e compondo trabalho para marca de maquiagem internacional, MaybeLine, em 2018.

Sua vida como manequim começou cedo. “Sempre me destaquei”. Na escola que estudou, ela desfilava pelos sarais, desfiles de consciência negra e de primavera. Mais velha, já desfilou para amigos que estudavam noda na Unic. Para ela, ser modelo soma com outros trabalhos visuais na dança e nas artes cênicas.

“Mas por exemplo, se querem uma atriz e uma dançarina, ter conhecimento de ângulos e poses é fundamental porque isso deixa o trabalho mais rico”.

Na dança desde cedo, por volta de 2016 ela conseguiu bolsa na escola Ama Corpo & Dança e hoje é dançarina de stiletto e jazz funk. Junto com seu grupo, The Chanel’s, formado por Dan Close, Lupita e Pedro Scarlett, conseguiram emplacar o vídeo Transmutáveis, pelo edital MT Nascentes. O trio de dançarinas fez diversos trabalhos e pensarem em se profissionalizar para agarrar as oportunidades.



“E ai a gente pensou, caramba estão nos contratando e pensamos em nos profissionalizar e agarrar as oportunidades. Tanto juntas quanto separadas né. Dan Close faz DragQueen, Pedro é design de Moda e eu estava ali fazendo tudo. Acho que o insight foi esse”.

O insight em questão fez com que Lupita se agarrasse na arte e, a partir dali se organizou dentre os editais lançados pelo governo para expor suas características de multiartista.

Destaque nos movimentos sociais

“Travesti, negra e pobre”, Lupita recebeu em 2021 quatro monções de aplausos pela sua atuação frente ao movimento social negro em Mato Grosso. Duas pela vereadora Edna Sampaio, uma pelo deputado estadual Allan Kardec e uma pelo deputado Lúdio Cabral.

Além disso, foi congratulada com o prêmio “Agitando a Resistência Negra”, do Instituto Mulheres Negras de MT, em 2020, por seus trabalhos com o coletivo negro da UFMT. Recebeu o 1º prêmio Tereza de Benguela, do Coletivo Herdeiras de Benguela, na categoria liderança LGBTQIA+ negra. “Travesti preta é sobre excelência. Mato Grosso está muito bem representado”.

A sensação de ver seu trampo na arte e nos movimentos sociais sendo reconhecido pelos poderes públicos do estado e por diversas esferas da sociedade lhe garantiu felicidade, sobretudo porque foi uma conquista dela, de sua família e de todas as pessoas que fazem parte da comunidade que representa.

“Então me senti extremamente feliz [...] E mais do que minha e da minha comunidade, da minha família, que pôde me ver nesse lugar de representação da esfera pública. Eles (minha família), minha vó, minha mãe, meu pai minha madrasta ficaram muito surpresos. Porque eu aparecendo na televisão, no jornal, ganhando prêmio na tv”, disse.

Mês do Orgulho LGBTQIA+

Lupita enxerga a visibilidade despejada à comunidade durante o mês do orgulho como mais uma das vitrines de possibilidades “dentro dos meios que temos aqui no nosso estado, que é um estado tão conservador ainda”.

Para ela, visualizar esses espaços conquistados na mídia como vitrine tem importância no que diz respeito às histórias como a dela sendo contadas com protagonismo. Ainda assim, pondera que é fundamental que os olhares se lancem para essas questões para além das datas comemorativas.

“A gente tem ali o mês de junho para as pautas lgbts, novembro da consciência negra. A nossa grande luta agora é também para que as nossas vozes sejam ouvidas o resto do ano, que a gente não existe só em junho, muito menos só em novembro”.
 
“Mas também faço a crítica de que precisamos das discussões para além dos meses de celebração. Só acrescentaria que cada vez mais é necessário a gente ter a pluralidade de nossas vozes, no sentido de que muitas vezes ficam os rostinhos marcados ali. Então é interessante olhar para as pessoas lá de VG, por exemplo”, finalizou.
 
Nem tudo são flores

Contando sua história como protagonista, hoje Lupita pretende mudar a narrativa comum e violenta que envolve pessoas trans para exaltar suas próprias conquistas.

Apesar de suas realizações pessoais enquanto multiartista, a exposição causada por ter seus trabalhos divulgados nos espaços de destaque da sociedade tem lhe rendido olhares indesejados. Hoje, ela é aluna de Krav Maga e trabalha defesa pessoal, coragem e autoestima.

“Não sofri, espero não sofrer um ataque violento no sentido de vir alguém diretamente contra mim’. Mas, tenho notado alguns olhares, algumas pessoas mais observando. Então é o fruto dessa exposição”.

Quando na época da organização do primeiro mutirão de retificação de nome e gênero para pessoas trans em MT, Lupita sofreu diversos ataques e ameaças após publicação de vídeo para divulgação da iniciativa.

“A gente sofreu muito ataque nas mídias pessoais e nas mídias dos movimentos que a gente faz parte. De pessoas aleatórias falando que nós não éramos mulheres, que estávamos usando dinheiro público, que eles iam lá no dia – ameaças”.

“Não consigo esquecer do racismo e da lgbtfobia que me persegue por estar acessando esses espaços de destaque, onde minha história está sendo contada da minha versão e do lugar positivo, mudando a narrativa, sendo protagonista da minha história”.
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