Olhar Conceito

Domingo, 19 de maio de 2024

Notícias | Perfil

prêmio Jejé de Oya

Com vida dedicada a corais de MT, filha de pediatra negro querido pela cuiabania é homenageada

Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Naíse é uma das homenageadas do prêmio Jejé de Oyá, que acontece em 29 de abril

Naíse é uma das homenageadas do prêmio Jejé de Oyá, que acontece em 29 de abril

Filha do pediatra Alcides Joaquim de Santana, que cuidou de até quatro gerações de famílias cuiabanas, Naíse do Vale Santana, de 60 anos, sonhava em cursar Medicina para “ser como o pai”. No entanto, a vida da cuiabana foi atravessada pelo amor que sentia pela música e, com 17, começou a trabalhar no Coral da UFMT, onde permaneceu até se aposentar em 2021.


Leia também 
No Instagram, irmão de Gustavo acusa Nicácio de racismo reverso: 'pode cometer racismo contra branco'

Naíse também foi responsável por reger corais corporativos, que focam na qualidade de vida dos trabalhadores, como o da antiga Telemat, onde ganhou prêmio e trabalhou por cinco anos. Por três vezes ela tentou o vestibular para Medicina na UFMT, mas cursou Nutrição, enquanto dividia o tempo entre os estágios na área com o coral da instituição, onde ajudava na regência.

O prêmio Jejé de Oyá acontece em 29 de abril, no Teatro Zulmira Canavarros. Ao Olhar Conceito, Naíse conta que demorou para entender que o trabalho nos corais era, de fato, a sua profissão. 

“A minha vida foi voltada para essa área da música, que acabou sufocando a nutricionista Naíse. Teve uma época que me questionei do motivo de ter feito Nutrição, mas é que não via a Música como algo profissional, por mais que trabalhasse nisso. Sempre pensava que a pessoa nascia para uma coisa só e pronto”. 

Antes do convite para fazer do Coral da UFMT, Naíse já fazia parte do coral da Primeira Igreja Batista. Como ela e a família sempre foram evangélicos, Naíse foi praticamente criada no ambiente religioso, onde começou a se dedicar às atividades musicais. Não demorou para que ela ficasse responsável por ajudar os iniciantes no coral. 

Naíse e os quatro irmãos sempre foram encorajados pela mãe a aprenderem a tocar instrumentos musicais. No caso dela, o escolhido foi um acordeão, que não foi o preferido de uma das irmãs. A experiência das aulas de acordeão também ajudaram Naíse a ter as habilidades necessárias para o primeiro emprego no Coral da UFMT. 

“Acho que minha professora era umas únicas de Cuiabá na época, mas ela foi embora e eu tive que parar as aulas. Só que isso me ajudou a trabalhar com partituras. Quando cheguei no Coral da UFMT, o maestro Peter Enz pedia para pegarmos as partituras e ajudar a ensinar os outros. Como já fazia isso na igreja, para mim foi mais fácil”. 

Naíse continua fazendo parte do Coral da UFMT como uma das vozes. (Foto: Arquivo pessoal)

Naíse viu Coral da UFMT "nascer"

Quando chegou em Cuiabá, o maestro Peter Enz, ainda não conhecia os cantores de coral e precisava de ajudantes para desenvolver o projeto. Foi nas igrejas da cidade que Peter descobriu novos talentos, como Naíse. O ano era 1980 e, na época, ela já regia o coral da Primeira Igreja Batista desde que a regente precisou viajar para os Estados Unidos. 

“Eu era a mais nova do grupo. Tinham dois senhores que cantavam na Catedral, tinha também duas senhoras da Presbiteriana, tinha a Ana França da Adventista... Ele foi às igrejas porque sabia que quem mexia com coral normalmente eram as igrejas. Muitos cantores começam nesses corais”. 

Enquanto estava trabalhando no Coral da UFMT, Naíse continuou alimentando o sonho de se formar médica como o pai. Mesmo depois de desistir da Medicina e começar a cursar Nutrição, Naíse continuou trabalhando no coral até se tornar servidora concursada da universidade. 

“Fiquei como nutricionista trabalhando no Coral da UFMT, onde fiquei até me aposentar. Teve uma época que o pessoal da Nutrição vivia me chamando, porque na época do Fernando Henrique acabaram os concursos e eles precisavam de pessoas da área para trabalhar”. 

Com a chegada do maestro Vilson Gavaldão de Oliveira, que passou a comandar o Coral da UFMT depois de Peter, Naíse começou a entrar no mundo do coral corporativo, área que já era muito conhecida pelo novo maestro. Na época, algumas empresas usavam os corais em programas de qualidade de vida para os funcionários. 

“Ele viu que eu tinha capacidade para reger corais de fora. Algumas empresas chamam ele para reger, mas ele não tinha tempo e me chamou, perguntou se eu tinha interesse, mas eu não tinha experiência. Fui fazer um curso no Projeto Villa Lobos no Rio de Janeiro, trazia professores de fora e dava cursos de regência também. Ele foi me ajudando”. 

Assim que entrou no mundo dos corais corporativos, Naíse entendeu que precisaria escolher um caminho para seguir profissionalmente e não teve dúvida do amor que sentia pela música. Depois da breve passagem que teve pelo mundo da nutrição, Naíse não exerceu mais a profissão de formação. 

“Minha mãe sempre falava para eu me dedicar mais à música, mas no começo estava focada em tentar fazer medicina. Minha mãe sempre disse que eu era a artista da família, que eu tinha facilidade e para eu trabalhar com isso, mas não queria. Tinha colocado Medicina na cabeça”. 

Ela se formou em Nutrição na UFMT, na época em já que trabalhava no coral da faculdade. (Foto: Arquivo pessoal)

Racismo durante a vida 

Naíse explica que o primeiro preconceito que a alcançou foi por conta do corpo através da gordofobia. Por ser uma mulher gorda, era chamada de apelidos pejorativos. Ela conta que, por ter crescido em um lar com privilégios, já que o pai era médico, o racismo chegou algum tempo depois. 

“Foi mais isso que me atingiu do que a própria cor da minha pele. Minhas irmãs tinham o corpo mais próximo do padrão, então ficava naquela comparação. Era chamada de botijão de gás… Então, o preconceito chegou em mim dessa forma e foi o que mais me abateu. Depois que fui entender que meu corpo era esse e eu comecei a gostar dele”.

Mesmo que saiba que, provavelmente, o pai tenha passado por episódios de racismo durante a trajetória para se tornar médico, o assunto não era abordado na casa da família. Naíse explica que o pai focava em passar para os filhos a importância dos estudos e facilitava o acesso à Educação. 

“Como ele foi um dos primeiros pediatras de Cuiabá, tinha uma carreira de renome. Tenho em casa várias placas de homenagens que fizeram para ele. E era um negro que se destacava na cidade naquela época. Agradeço muito pela ‘ousadia’ do meu pai, porque ele mostrou que eu e meus irmãos poderíamos ser o que a gente quisesse”

Apesar disso, Naíse se lembra de uma vez em que namorava um homem branco, loiro e de olhos claros, que terminou o relacionamento sem explicar o motivo do fim para ela. Através de uma amiga, ficou sabendo que ele havia confidenciado ser racista e, por isso, decidiu terminar o namoro. 

"Uma amiga minha falou que ele tinha contado para ela que ele era racista, que ele não quis ficar comigo por causa disso. Na época ainda pensei que se ele fosse racista nem teria chegado perto de mim, mas foi a primeira vez que o racismo me chamou atenção. Dentro da UFMT, minha cabeça abriu muito”. 

Importância de ser homenageada em viva 

Já aposentada, Naíse decidiu que queria continuar trabalhando para “ocupar a mente”. Foi assim que se tornou secretária da Primeira Igreja Batista, lugar que frequentou durante toda a vida. Ela confessa que quando recebeu o convite da homenagem, achou que sua trajetória não era importante por pensar que algo havia “acabado” junto com a aposentadoria. 

“A gente não imagina que nossa história tem importância. Fiquei pensando: será que mereço? Ao mesmo tempo que achei tão carinhoso da parte dele. Até então eu não sabia que meu trabalho tinha chegado até ele dessa forma. Quando falou isso que chamou atenção dele, eu aceitei, porque acho que essa é a intenção, influenciar pessoas da melhor forma. Fiquei emocionada e muito orgulhosa”. 

Ela conta que também pôde ver o pai sendo homenageado enquanto ainda estava vivo e fazendo o tratamento de câncer, quando uma médica propôs que a sala de Pediatria da Unimed levasse o nome de Alcides, já que havia escolhido a profissão por causa dele. 

“Fomos acompanhar a homenagem. Depois também foi homenageado na Santa Casa. Foi legal porque ele pôde perceber que a história dele foi muito importante. Foi gratificante para mim, é como se fechasse um ciclo”. 
Entre em nossa comunidade do WhatsApp e receba notícias em tempo real, clique aqui

Assine nossa conta no YouTube, clique aqui

Comentários no Facebook

Sitevip Internet