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Sábado, 25 de maio de 2024

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Infância embalada por musicais que via com mãe e sapateado: conheça Rafael Cerigato

Foto: Arquivo pessoal

Infância embalada por musicais que via com mãe e sapateado: conheça Rafael Cerigato
Os momentos em que a mãe se preparava para curtir a experiência de assistir musicais clássicos na televisão como Noviça Rebelde e Mágico de Oz, tiveram papel determinante para que o diretor artístico do Espaço Roda e ator, Rafael Cerigato, de 41 anos, crescesse apaixonado pelo gênero. Foi com a mãe que ele aprendeu a curtir cada momento das cenas em que os atores se desdobram para atuar, dançar e cantar ao mesmo tempo. “É culpa da mamãe”, brinca. 


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Natural de São Bernardo do Campo (SP), onde teve os primeiros contatos com o mundo da arte através da família, já que a mãe dançava jazz e o pai, com ajuda dos tios, onde montavam cenários que seriam usados na escola de ballet da prima. Atualmente, ele é diretor geral do Espaço Roda, no bairro Popular, em Cuiabá. 

“A escola existe até hoje Ballet Marcia Helena, está com 41 anos e faz aniversário quase junto comigo. Era uma família que todo mundo tocava alguma coisa, todo mundo cantava… Também tinham um bloco de carnaval que desfilava no interior de São Paulo. Mamãe, que era muito louca por filmes de musical, tornava tudo um grande evento, fazia pipoca”, lembra. 

Rafael conta que ouviu da mãe sobre uma das lembranças de quando ele desfilou em um caminhão usado como “trio elétrico” no bloco da família, no interior de São Paulo. Mesmo sem saber andar ou sapatear, modalidade de dança que se apaixonaria com 15 anos ao ver uma apresentação do grupo da bailarina e coreógrafa Elka Moura, quando decretou: “eu preciso fazer isso”. 

Naquela idade, Rafael já tinha se mudado com a família para Cuiabá há quase nove anos. No bairro Araés, onde moravam, o pai dele montou uma eletrônica. Em uma das regiões mais antigas da Capital, ele aprendeu a tocar teclado e fez parte do coral da Igreja Nossa Senhora de Fátima, onde era um dos integrantes mais jovens. 

A coincidência da filha de uma das vizinhas no bairro fazer aulas de dança na extinta Academia Art’Expressão, que era de Elka, foi o empurrão que Rafael precisava para começar as aulas de sapateado. De 1997 até 2011, ele dançou em palcos de Mato Grosso e considera um acerto a decisão de ter aprendido sobre a arte com Elka. 

“Dos trabalhos que tinham na cidade, o da Elka era o que mais se aproximava da forma que eu pensava, e penso, arte.  Ela era uma megalomaníaca da arte, ela queria fazer acontecer, se endividava, trazia artistas de fora… Era uma época que a dança tinha muito prestígio aqui em Mato Grosso. Era o lugar que precisava estar naquele momento”.

Além de diretor artístico do Espaço Roda, Rafael é ator e se apaixonou pelo sapateado ainda criança. (Foto: Arquivo pessoal)

Rafael e os musicais da Broadway 

Alguns anos depois da descoberta do amor pelo sapateado, Rafael confirmou que amava os musicais da Broadway ao participar do 1º Circuito Broadway, no Festival de Joinville (SC). O amor que começou ainda na infância através da vezes em que a mãe transformava o momento de assistir aos filmes de musicais na TV em um grande evento estava prestes a entrar na vida de Cerigato de forma definitiva. 

“É o maior festival de dança do Brasil e eles lançaram esse curso de dez dias por R$ 390, era muito barato na época para a experiência. Ele tinha uma carga horária que não era normal em comparação aos outros cursos, eram quatro horas de manhã e quatro à tarde. A Kátia Barros, que hoje não faz mais festival mas é diretora de movimento dos principais, além de fazer a parte da dança do The Masked Singer era uma das professoras. Além de Jarbas Homem de Melo e o preparador vocal Ronnie Kneblewski, que trabalhou com a Disney”. 

A proposta soava como algo imperdível para o diretor que, mais uma vez movido pelas decisões que decretou ao longo da carreira na arte, afirmou a si mesmo que iria ao evento. Ele lembra que 40 pessoas estavam fazendo o curso com ele e na primeira vez que cantaram juntos, a emoção quase impediu Cerigato de cantar. 
“Parecia que eu tinha passado na audição de um musical blockbuster [como são chamadas as super produções que funcionam como ‘franquias’]. No final do curso, teríamos uma apresentação na Feira da Sapatilha, que era o segundo maior palco do festival”. 

Já no ano seguinte, o crescimento da escola de dança de Cerigato que funcionava na escola Peninha Verde, no bairro Jardim Cuiabá, fez com que ele buscasse formas de desenvolver o próprio espetáculo, já que até o momento as alunas dele participavam em outras escolas. 

“Eu já tinha 60 alunos e precisava fazer um espetáculo sozinho. Só que tinha um medo de outro mundo e graças a Deus tem o Robson [Robson Oliveira, diretor-administrativo do Espaço Roda e marido de Rafael], que além de meu parceiro, é um ótimo administrador. Na época era o Instituto Mato-grossense de Desenvolvimento Humano que gerenciava o Cine Teatro. Expliquei que precisava de dois dias, um para ensaiar e outro para fazer o espetáculo. Mas não tinha dinheiro para pagar”. 


Aulas acontecem no Espaço Ronda, onde funciona o grupo On Broadway, que tem revolucionado a cena em Cuiabá. (Foto: Arquivo pessoal)

No relacionamento com Robson, Rafael encontrou parceria para desenvolver as peças musicais em Cuiabá. Juntos, os dois costumam viajar para assistir musicais e trocar experiências que são aplicadas no Espaço Roda, onde funciona o On Broadway, grupo de teatro musical de Cerigato.

Em contrapartida de usar o Cine Teatro para os ensaios da sua escola de dança, ele se propôs a desenvolver um curso de uma semana, que culminaria em mais um espetáculo, que foi apresentado no final das aulas que tinham como base o que aprendeu no Circuito Broadway um ano antes. 

“Foi quando saiu o primeiro espetáculo que chamava On Broadway, que tinha 1h10. Já tinha material para trabalhar com o Cine Teatro e em janeiro de 2011 recorri novamente a eles para fazermos algo maior. Fizemos um curso de quatro meses, com edital e programa de bolsas, que era um pedido do Instituto Mato-grossense de Desenvolvimento Humano. Nessa experiência foi quando confirmei que a cidade precisava disso”. 

Assim como a primeira vez que lecionou no Cine Teatro, a segunda turma, de 20 alunos, também apresentou um espetáculo no final das aulas. Dessa vez, Rei Leão foi a história escolhida e Rafael contou com ajuda de um amigo dos Estados Unidos, que enviou um CD com as músicas instrumentais do filme. Cerigato conta que sua maior dificuldade esbarra nos equipamentos técnicos, como microfones de qualidade. 

“Na época, o problema era que não tinha grana, microfone, que até hoje é um problema para gente, e não tinha orquestra. Então, por muito tempo fiquei refém das coisas que conseguimos encontrar pela internet, dos karaokês que eram tocados por orquestra, sem a voz, para que não ficasse a base de karaokê, que dava para perceber que não era uma orquestra”.

Valorização da arte cuiabana 

Com ajuda de Robson, Cerigato improvisou cenário e figurino para os integrantes do grupo. A produção subiu no palco do Cine Teatro entregando detalhes profissionais. Da plateia, quem assistia não às cenas embaladas pela cantoria dos atores não imaginava que o Sol posicionado no fundo do palco foi feito por Rafael e pelo marido com papel crepom. 

Cerigato mostra, orgulhoso, as fotos do espetáculo e sorri ao admirar cada uma das particularidades da peça, que esgotou ingressos de quatro sessões. O acordo que propos ao Cine Teatro o ajudou a fundar a própria escola de arte, o Espaço Roda, em 2015, onde oferece aulas de ballet, jazz, sapateado, k-pop e dança contemporânea, além do teatro musical. 

“Foi um estrondo na cidade, os ingressos eram baratíssimos, R$ 20 e R$ 10, eram para ser três sessões e viraram cinco. Era sexta, sábado e domingo. Fizemos sexta à noite e no sábado a tarde esgotou tudo. Abrimos domingo à tarde. No sábado à tarde esgotou a sessão de domingo à tarde. O Cine Teatro avisou que a agenda de quarta estava livre, abrimos outra sessão e quase esgotou. Foi como ser uma pessoa desconhecida, entrar no Big Brother, ganhar uma prova e passar pelo Carnaval da Sapucaí. Foi surreal”. 

Grupo apresentou Mamma Mia! em dois dias de espetáculo no Cine Teatro em março deste ano. (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos retornos do público incomodou Cerigato: “Todo mundo perguntando de onde éramos”, lembra. Quando o diretor respondia que o grupo On Broadway é cuiabano e formado por atores que moram em Cuiabá, a resposta também gerou desconforto: “Nossa, achei que vocês eram de São Paulo”, conta Rafael. 

Em 2014, o grupo On Broadway se firmou na cena artística cuiabana com a estreia de “Godspell - Sinta o Amor”. Cinco anos depois, foi a vez de “Saltimbancos” (2019), seguida de “Um Conto de Natal” (2019), “Meu Caro Evan” (2021) e “Aladdin” (2022). O espetáculo mais recente dirigido por Cerigato também lotou o Cine Teatro em 11 e 12 de março deste ano. 

Cantando os clássicos de Abba, 15 atores interpretaram as cenas do musical “Mamma Mia!”, que conta a história de Sophie Sheridan, que tenta descobrir quem é seu pai, e das Dynamos. Mais uma vez o On Broadway emocionou a plateia, que se amontoou na saída do Cine Teatro para tirar fotos de recordação com as Dynamos cuiabanas. 

Show das "Dynamos" de Mamma Mia! no final do espetáculo animou a plateia lotada do Cine Teatro. (Foto: Arquivo pessoal)

“E se eu te falar que Mamma Mia foi construído às quintas e sextas? Tivemos ensaios aos sábados só na reta final, que é quando eles me encontram, mas ainda assim, foram alternados. Temos um elenco que é completamente heterogêneo e a grande maioria não vive de arte, eles têm seus empregos… As vezes chegam aqui com a roupa do trabalho, porque não deu nem para trocar de roupa. Então, o tempo de produção é muito maior”. 

Ainda neste ano, o On Broadway começa a ensaiar o novo espetáculo, que Cerigato lamenta ainda não poder revelar. Por conta das peças musicais apresentadas pelo grupo, a procura de novos alunos interessados em fazer parte dos ensaios tem aumentado. 

“O On Broadway Experience, que acontece aqui no Espaço Roda para público reduzido, geralmente tem dois a três meses de produção e o On Broadway Show são até oito meses. Não é só texto, é ensaio, partitura, figurino... Agora, com as produções uma atrás da outra, temos uma procura maior. A Mariel Mattos que fez a Tanya em Mamma Mia, por exemplo, veio pelo Aladdin, ela assistiu a peça e depois começou as aulas”. 

 
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