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Sábado, 25 de maio de 2024

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CUIABÁ 304 ANOS

Com rasqueado sobre tradição cuiabana e Pantanal, Vera e Zuleika imortalizam cotidiano em músicas autorais

Foto: Bruna Barbosa/OD

Com rasqueado sobre tradição cuiabana e Pantanal, Vera e Zuleika imortalizam cotidiano em músicas autorais
Em 1980, a carioca Vera Baggetti desembarcou em Cuiabá através do projeto Pixinguinha, que tinha como objetivo difundir a MPB. No final de um evento, foi convidada para estender a noite na casa da cuiabana Zuleika Arruda, onde os artistas da cuiabania costumavam se reunir. Foi assim que nasceu a parceria entre Vera e Zuleika, que se estende por quase cinco décadas. Através do rasqueado, elas cantam sobre os costumes cuiabanos, como na canção “A La Cuiabana”. 


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Desde então, Vera, que é arquiteta e mestre em Educação Patrimonial, não voltou a morar no Rio de Janeiro (RJ). Ao lado de Zuleika, que é arte-educadora e bacharel em Direito, começou a construir a carreira em Cuiabá. Aos risos, a parceira brinca que, apesar de ela ser a cuiabana da dupla, arrisca dizer que Vera ama a capital mais que ela. 

“A família dela briga por ela, ficam tudo com ciúmes. A irmã dela morava aqui, ela que trouxe a Vera, meu cunhado era diretor do Parque Nacional do Pantanal, minha irmã era professora na UFMT. Ela veio para passear e nunca mais voltou”, conta Zuleika. 

“Só fui ligando [para os familiares cariocas]: ‘manda minha prancheta’. Agora tenho título de cidadã cuiabana e mato-grossense, mas digo que ainda assim não posso falar mal de Cuiabá”, brinca Vera. 

Não é difícil de constatar a cumplicidade da dupla através dos causos que contam, quando uma completa a frase da outra, ou quando uma delas puxa a letra de uma das músicas e a outra acompanha prontamente. Além de cantarem juntas, elas lutaram ativamente em movimentos sociais para sensibilizar sobre questões ecológicas e culturais através da arte. 

Zuleika conta que decidiu convidar Vera para fazer arte do Grupo Sarã após vê-la cantar. “Ela tem uma voz muito bonita”, elogia a parceira. A cuiabana conta que o grupo musical nasceu em 1971 com objetivo de cantar sobre os três ecossistemas de Mato Grosso: Pantanal, Cerrado e Amazônia. 

“Em 1971 eu já tinha criado o Grupo Musical Sarã para cantar e falar sobre a preservação dos três ecossistemas que temos aqui. Um ano depois, em Estocolmo, aconteceu o primeiro encontro que gerou vários movimentos no mundo sobre a questão do ambiente”. 



Vera prontamente interrompe a fala para elogiar a postura visionária de Zuleika, que já havia identificado a necessidade de falar sobre a questão ambiental em Mato Grosso naquela época. 

“Eu acho isso super importante, porque antes desse encontro ela já estava pensando sobre isso. Criamos várias ONGs ambientalistas e culturais. Ela estava no meio desses três biomas e já lança esse movimento através da música… Pois um ano depois não lançam esse movimento mundial?! Ela já estava antenada”. 

O nome Sarã foi inspirado em uma árvore ribeirinha que leva o mesmo nome. Vera explica que a madeira era usada para fazer a viola de cocho. Ela conta que enquanto moravam na Áustria, tiveram a surpresa de encontrar o instrumento cuiabano em uma museu do país. Depois, descobriram que a viola de cocho é um “alaúde de braço curto”, que veio do Oriente Médio. 

“Era um museu de instrumentos antigos e na, sessão de alaúdes, lá no final estava a viola de cocho. Imagina a nossa alegria? É um instrumento importantíssimo brasileiro. Julieta de Andrade, que é uma pesquisadora de São Paulo, veio para cá e ficou encantada com a sonoridade. O Vaticano pagou para ela fazer uma pesquisa sobre a viola de cocho e ela identificou que é um alaúde de braço curto, que vem desde os árabes”, conta Vera. 

Depois da reunião que aconteceu em Estocolmo em 1972, Vera e Zuleika participaram da Eco92, no Rio de Janeiro (RJ), onde tiveram a oportunidade de cantar as letras sobre os ecossistemas cuiabano, Pantanal e outras tradições culturais de Cuiabá. 

“Entramos nesse movimento histórico mundial. Em 2002, já houve uma outra conferência no RJ falando sobre sustentabilidade, todos os encontros internacionais que aconteceram no Rio de Janeiro. Agora, em 2022, completou 50 anos do encontro de Estocolmo. Fizemos parte de vários movimentos, como a Carta da Terra”, lembra Zuleika. 


Vera e Zuleika durante visita de inspeção no sítio arqueológico João Basso, em Rondonópolis, com a professora e pesquisadora do Muséum National d'Histórie Naturelle de Paris. (Foto: Arquivo pessoal)

O falar cuiabano 

Para explicarem a história da música “A La Cuiabana”, Vera e Zuleika trocam olhares e começam a cantar. Zuleika começa e Vera acompanha: “Nhacá! Tá djira? Txá marica djá vai cotchichá?”. A letra sobre o falar cuiabano que se mistura com um canto indígena Nambikwara, nasceu quando as duas almoçaram em um restaurante flutuante na beira do rio Cuiabá. 

Foi Vera que chamou a atenção da parceria para reparar na conversa de duas lavadeiras que estavam lavando roupa no rio. Vez ou outra, a carioca fala alguma palavra com sotaque cuiabano por conta dos anos vividos na Capital. 

“Nós estávamos em um restaurante na beira do rio flutuante e vimos umas lavadeiras cochichando. Chamei a Zuleica e falei que aquilo era uma música. O que já cantaram essa música no coral. A Estela Ceregatti canta muito também”, conta Vera. 

Além de cantar, as duas são artistas plásticas. A parceria de vida e de música se repete nas telas pintadas em dupla. Com tintas coloridas, Vera e Zuleica também retratam a questão ambiental e o folclore cuiabano. 

As telas decoram o apartamento das duas, ao lado de outras feitas por grandes nomes da cultura mato-grossense. A sabedoria extensa sobre a cultura cuiabana ainda rendeu a parceria de mais de 20 anos com o carnavalesco Joãozinho 30. 

“Contamos para ele sobre a história da Tereza de Benguela e ele usou em um dos enredos que escreveu. Depois disso ficamos trabalhando com ele até ele morrer”, conta Zuleika. 

Como arquiteta em Cuiabá, Vera também trabalhou no restauro de igrejas tradicionais como a de São Benedito, Rosário e Conceição, além da igreja de Chapada dos Guimarães. 

Machismo no rasqueado 

Vera e Zuleika são as únicas mulheres que aparecem listadas em pesquisas rápidas sobre o rasqueado cuiabano na internet, por exemplo. As duas tem noção de que trilharam um caminho tortuoso para construírem as próprias carreiras na música em Cuiabá. Sobre o machismo no rasqueado, Zuleika resume: “não posso dizer que foi tudo flores”. 

“O machismo é no futebol, no samba, que só agora que tem movimentos de samba das mulheres, porque os homens não aceitavam. Na área de rasqueado não posso dizer que foi tudo flores, porque tinha todo um machismo envolvido”. 

Apesar de estarem abertas às mudanças do mundo, as duas encararam com surpresa o aumento de movimentos fascistas e repressores. Para Vera e Zuleika, um dos momentos mais chocantes foi o desmonte do Ministério da Cultura durante o governo do ex-presidente Bolsonaro. 


Vera e Zuleika trabalharam mais de 20 anos como consultoras do carnavalesco Joãozinho 30. (Foto: Arquivo pessoal)

“Suamos para ser criado. Quantas vezes fomos a Brasília. Aí vem ‘um cara louco de tacar pedra’ e a primeira coisa que faz é fechar, porque é na cultura que mora a elevação da estima do povo. Tem que acabar com o senso crítico”, comenta Vera. 

“Mas temos que fazer os trabalhos, voltamos para uma cultura pacífica, né? Nossa área é essa. Agora não vamos também dizer que todos estão nesse movimento, a violência está muito grande em todos os sentidos. É um egoísmo muito grande que estamos vivendo, mas acredito na condição humana. Se nós formos partir para a violência… É feia a situação”, completa Zuleika. 

As duas brincam com o fato de não revelarem as idades exatas e Vera se recusa a falar que faz parte da terceira idade, já que mantém “uma cabeça jovem”. A dupla ressalta que sempre busca por conhecimento para entender as mudanças do mundo, inclusive com o contato de pessoas mais novas com as músicas de rasqueados delas. 

“Tem um do pessoal do Sardinha, são roqueiros e gravaram uma música nossa. Falamos que não sabíamos cantar rock, mas fomos, cheguei lá estava cheio de alunos. Estamos abertas às mudanças do mundo, vivemos fazendo cursos, no YouTube fazemos direto”, conta Vera. 

“Estamos terminando um livro e agora não tem mais CD, então vai sair com QR Code das músicas. O mundo vai mudando e nós também”, completa Zuleika.
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