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Sexta-feira, 14 de junho de 2024

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irmandade nos palcos

'Lambatrans' e reverência aos mestres regionais: conheça Luisa Lamar e Paulo Monarco

Foto: Reprodução

'Lambatrans' e reverência aos mestres regionais: conheça Luisa Lamar e Paulo Monarco
Quando ainda era criança, a cantora Luisa Lamar, de 25 anos, se lembra de ter desejado estar no palco pela primeira vez ao ver as performances do irmão, Paulo Monarco, de 35, que cedo já se apresentava nos bares de Cuiabá. A casa em que eles cresceram sempre foi “musical”, seja pela coleção de discos do pai ou por terem crescido nos ambientes do bar Cantoria, no bairro Boa Esperança, que ficou famoso entre os cuiabanos nos anos 90 por conta dos shows de MPB e virou cenário de movimentos artísticos. 


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Foi no Cantoria e no Niño, bar que era do irmão do pai de Monarco e também foi sucesso nos anos 80, que o cantor teve os primeiros contatos com personagens que tiveram destaque na música regional, como Calixto Marangoni. O músico araçatubense se mudou para Cuiabá em 1981 e ficou conhecido entre os frequentadores da noite cuiabana com o álbum “As populares desconhecidas”. 

Nas letras de Calixto, o amor pela cultura regional, a preservação dos rios e o cotidiano do povo mato-grossense sempre esteve em evidência. Ele também misturava MPB com as batidas do siriri e cururu. Calixto faleceu em 2005, mas em vida foi o responsável por dar as primeiras aulas de violão para Monarco. 

“Me lembro de ter tido show do Belchior no Niño e o camarim dele, do Geraldo Azevedo, do Chico César… Era a casa do meu tio. Depois veio o Cantoria, foi ali, que depois de ter iniciado as aulas de violão com o Calixto, comecei a tocar com 14 anos. Então, foi uma coisa que foi acontecendo, quando me dei conta já estava tocando na noite, nos bares e vivendo da música. Passei por vários lugares: Cantoria, Chorinho e toquei muito tempo na Chapada”. 

Os primeiros passos do irmão na música encheram os olhos de Luisa, que logo começou a ser tomada pelo desejo de estar nos palcos também, como conta. No entanto, foi um ano depois da mãe falecer e da mudança da família para Chapada dos Guimarães, que ela começou a frequentar o coral “Pra-Ti-Cu-Tu-Cá” do Sesc Arsenal, iniciando a trajetória na música independente. 

“É o mesmo coral de onde saíram artistas como a Hend Santana, minha amiga já falecida, a Maria Clara Bertúlio, que é do teatro e poeta, a Ana Rafaela… Estudei por um ano, mas foi muito importante para mim, porque é algo que sempre amei e sempre sonhei fazer, então aquilo me marcou muito. [O Cantoria] Era onde eu via meu irmão e outros artistas performando no palco. Sentia inveja, queria estar no palco, sempre falo que é inveja, porque é, sabe? Eu queria estar ali mesmo também, mas não sabia como, ainda estava descobrindo”. 

Um lambadão “bem travesti”

Alguns anos depois, quando já estava compondo as próprias músicas, Luisa escreveu “Lambatrans”, que começou como um embrião do projeto em que ela une música pop, lambadão e outros elementos regionais, na busca por um “lambadão bem travesti”. Apesar de ter sido criado em 2016, a partir de uma ideia do irmão, Luisa ainda luta por patrocínio para desenvolvê-lo. 

“O Lambatrans tem sete anos desde a composição da música. Para quem é da magia esse número diz muita coisa e espero que seja o ano que vamos conseguir tirar ele do papel. Ele surgiu como uma provocação do meu irmão, que estava começando a produzir umas coisas mais lambadão, rasqueado e mato-grossenses. Ele quem falou o nome Lambatrans, falou que eu deveria fazer e eu escrevi a partir dessa brincadeira”. 

Mesclando as batidas do pop e as referências de hip hop que também carrega em sua identidade, Luisa explica que Lambatrans nasceu para falar sobre o universo que foge da cisheteronormatividade e do machismo. Há alguns anos, a cantora tatuou “lambadão” na testa como forma de carregar a cultura cuiabana. 

“Minha família é toda mineira e veio para cá para tentar a vida, fui a segunda pessoa da família a nascer aqui, mas me sinto completamente mato-grossense, foi onde cresci. Vivi a noite do lambadão na minha adolescência em Chapada, à minha maneira, sendo uma travesti, com as limitações de ser uma travesti em Mato Grosso. É a partir daí que venho buscando trazer o meu lado do lambadão, a ideia é fazer um brega bem enviadecido, bem feminino e bem travesti”. 

Com o ritmo que mistura estilos musicais, Luisa tenta abordar questões sociais como assédio sexual, machismo, transfobia e violência contra a mulher. A internet possibilitou que a cantora cuiabana tivesse contato com a arte de artistas trans de outros estados brasileiros. A conexão motivou Luisa a querer construir de forma coletiva com outras mulheres trans e travestis. 

“Muitas artistas que foram me levando a querer contribuir com esse grupo de pessoas que estão tentando ajudar a construir essa escada, tijolinho por tijolinho, para que a gente deixe, quem sabe no futuro, alguns problemas sociais e questões de lado, para que consigamos superá-los. A primeira música que escrevo fala sobre assédio em ônibus, machismo e transfobia. O Lambatrans também vai falar sobre isso, só que de uma forma mais alegre. Então é algo que venho buscando desde sempre”. 

Em sua trajetória, Luisa carrega o peso de ter sido a primeira artista assumidamente travesti a lançar um EP em Mato Grosso, o “iWiisu”. No entanto, a cuiabana avalia que não há motivos para encarar o feito como uma vitória, já que ele é um reflexo da falta de acesso que mulheres e homens trans sofrem na sociedade. 

“É triste pensar que isso ainda esteja acontecendo agora, em 2023. Não é bom e nem legal ser a primeira, muito pelo contrário. Inclusive, com mais e mais sendo produzido e acontecendo que as coisas vão ficar melhores, com mais alcance, dinheiro, verdade e saúde. São muitas coisas que não tenho e que talvez não vou conseguir alcançar em vida”. 

Luisa afirma não acreditar que falte espaço para pessoas trans na arte mato-grossense. “Não acho que falte na arte, em geral. Mato Grosso só vem com tantos séculos de existência não alimentando essas potências que existem aqui, como eu, como foi a Hendy, a Seven Mônica, como o Nicolau, como o Caju, Christopher Chaves... Muitos artistas trans no estado não têm esse retorno que deveriam ter”. 

A busca por pertencimento de Monarco 

Diferente da irmã, Monarco nasceu em Belo Horizonte (MG), onde os pais se conheceram. A mudança para Cuiabá aconteceu quando ele tinha três anos, por isso a cuiabania tem presença tão forte na vida do cantor que afirma ter sido “fisgado pela música” na capital de Mato Grosso. Monarco ainda se lembra de quando era criança e assistiu artistas como Liu Arruda performando no palco. 

“Com 11 para 12 anos fiz a primeira aula de violão com o Calixto Marangoni, grande mestre e grande compositor. Inclusive, tem uma música dele que regravei, que é ‘Folia Pantaneira’. Esse cara me abriu muitos caminhos depois que eu já estava tocando, que comecei a compor. Ele que me despertou para muito disso que estou fazendo agora, que se pode chamar de música regional cuiabana, música da Baixada”. 

Depois de rodar o interior de Mato Grosso se apresentando em festivais e ganhar um prêmio, Monarco explica que entendeu que era capaz de viver da música que fazia. Em 2007, ele fez o primeiro show autoral do Teatro do Sesc, em Cuiabá. As canções de “Malabares com Farinha”, primeiro álbum da carreira dele, foram apresentadas em shows realizados em vários estados brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo e Pará. 

Ele conta que, ao mesmo tempo, desenvolveu o primeiro projeto em que tentava misturar universos musicais diferentes. “Cotchano o Choro” tinha viola de cocho, mocho e ganzá ao repertório do choro. As “caminhadas”, como define Monarco, o levaram para São Paulo, onde ele morou até meados de 2017, somando sete anos na “terra da garoa”. 

“Fiz trilha para dança, fui fazer turnê na Europa, também com o álbum ‘Dois Tempos’, mas viajando com Mário Lopes, que é um coreógrafo de São Paulo. Apresentei alguns espetáculos com ele, chegamos a apresentar na Bienal de Berlim, foi muito especial esse trânsito entre São Paulo, Europa e tudo que aconteceu nesses caminhos, até para eu me entender também como produção musical. Não era um plano e tal, mas nesses processos de criar trilha ou fazer uma pré-produção para um colega, foi se mostrando como um caminho possível”. 

Entre 2017 e 2018, Monarco começou a entender que era hora de voltar para casa. Em parte pela saudade que sentia da família, mas também por entender que precisava se dedicar a um projeto musical que tivesse haver com a herança mato-grossense que ele carrega no sangue. Algo que ainda não tinha conseguido desenvolver da maneira que idealizava. 

Monarco nasceu em Minas Gerais, mas não cresceu em terras mineiras. Na época, estava vivendo em São Paulo, mas se questionava sobre um lugar de pertencimento. “Quando a gente vive fora do lugar onde crescemos, essa coisa de ser um corpo estranho, um estrangeiro… Por mais que a gente encontre lugares de conexão, onde a gente se reconheça, em amizades e tudo mais, existe uma solidão nisso tudo”. 

Foi quando o cantor se debruçou sobre a cultura regional, que sempre esteve presente nas suas vivências em Mato Grosso, seja pelo bar da família ou pelas conexões que fazia com nomes importantes da cuiabania. Monarco define que precisava despertar para a produção regional “com mais consciência”. 

“No meu primeiro show, em 2007, já estavam o Bolinha que é um grande nome da música regional, o Spinha também… Então, naquele show, já tinha tão inconsciente o desejo de aglutinar pessoas de diferentes ambientes, isso sempre foi muito natural para mim, porque apesar de em casa a música regional mato-grossense não tocar, a playlist de casa era muito diversa”. 

Enquanto se sentia como “um forasteiro” em São Paulo, o lambadão, o rasqueado, o cururu e o siriri o ajudaram a retornar para um lugar de identidade que ele tanto buscava. O processo de busca por identidade e pertencimento de Monarco gerou o EP, “Abriram-se as Veias”, lançado recentemente. 

Para ele, o álbum também é um reflexo do movimento que levou dezenas de brasileiros às ruas, desembocando no impeachment de Dilma e da direita ultra conservadora e fascista. Ele explica que Abriram-se as Veias é uma “fotografia” daquele momento. O álbum também carrega referências fortes à cultura de Cuiabá, como a lenda do Minhocão do Pari. 

“Continuei desenvolvendo vários projetos paralelos, mas o Abriram-se foi tomando conta, fui experimentando, tentando trazer para o meu violão, tentando traduzir as claves do rasqueado, do cururu, do siriri e do lambadão para o meu jeito de fazer. O que me moveu a contar essa história é essa vontade de me reconectar com o lugar que sempre vivi, que me formou”. 

“Treme” e “O Clarim” 

“Treme” foi lançado por Luisa em parceria com Sharamandaya, em agosto. A música é um reggaeton que rompe o silêncio de uma relação tóxica e abraça um novo começo, fazendo os algozes tremer. Forma que a cantora encontrou de abordar a violência doméstica no clipe, que foi dirigido pelo produtor audiovisual Pedro Brites e roteirizado pela própria Luísa.

A dinâmica do clipe varia entre cenas tensas e regozijo. O trabalho de cores contribui para as performances arrebatadoras das participações especiais, como o trio “The Chanel’s” e integrantes das famílias House of Brown e House of Sagrada do Ballroom mato-grossense.

“Para me comunicar com o povo eu sabia que precisava tratar de algo que todos vivemos de alguma forma, e foi assim que o tema da violência contra a mulher veio à mim, para, através da imagem de uma mulher que se livra de uma relação tóxica e passa a curtir a vida com as amigas, reforçar a importância do autoamor, tema do EP que a canção faz parte, e, principalmente, tentar contribuir para a conscientização de tantas famílias que se encontram em situações similares à da nossa protagonista”. 

O clipe de “Clarim”, lançado há seis meses por Monarco, é um projeto antigo, que começou a ser rodado entre 2017 e 2018, quando ele voltou para Mato Grosso. Quando definiu o repertório do novo álbum, o cantor já sabia que Clarim abriria os trabalhos. O clipe aborda as problemáticas do avanço desenfreado do agronegócio.  

“Tinha o desejo, desde sempre, de trazer essa questão do agronegócio para a pauta, porque a música fala de guerra e paz. Achava que isso se conectava perfeitamente com esse lugar que eu queria tatear e provocar. Mato Grosso, ao mesmo tempo que é um dos PIBs mais elevados por conta do agronegócio, sabemos que esse agronegócio é muito problemático. Ele move muito a economia do nosso estado, mas esse dinheiro é para quem, vai para onde e todas as questões ambientais e de saúde pública que envolvem isso?”. 

Monarco conta que as cenas foram gravadas com ajuda de Henrique Santian, responsável por apresentar referências e possibilidades, como a participação do Spectrolab. Tudo foi gravado sem roteiro e teve montagem realizada por Pedro Brites. 

“Ele trouxe toda essa força. Fiquei muito tocado mesmo, ele reescreveu a história do clipe e chegamos em um resultado muito satisfatório e surpreendente. Quando entregamos o material até pensei em que história o clipe iria contar, porque estava tudo tão solto, mas o Pedro trouxe toda uma narrativa e ritmo, e o Pignati [Wanderlei Pignati] foi a cereja do bolo. O agro é pop, mas continua sendo tóxico”.
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