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Sábado, 20 de julho de 2024

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Garotos Apyãwa

No ritmo da pisadinha, indígenas de MT cantam na língua materna sobre luta, resistência e cultura

Foto: Reprodução

No ritmo da pisadinha, indígenas de MT cantam na língua materna sobre luta, resistência e cultura
As letras que falam sobre luta, resistência e cultura indígena são cantadas na língua materna dos Apyãwa, também conhecidos como Tapirapé, pelo grupo de forró e pisadinha Garotos Apyãwa. Em uma das músicas, o grupo mistura Shine Bright Like Diamonds, um dos hits da cantora Rihanna, ao idioma falado na aldeia Tapi’itãwa, na Terra Índigena Urubu Branco, em Confresa (a 1.050 km de Cuiabá). 


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No clipe gravado pelo grupo na aldeia Tapi’itãwa às margens do rio Tapirapé, o vocalista  Joílson Orokomy’i Tapirapé, canta sobre o “descobrimento do Brasil”. A letra da música que é uma das autorais do Garotos Apyãwa conta que os indígenas já estavam na terra quando os barcos à vela chegaram. 

Enquanto canta, a voz de Joílson é distorcida com tons robóticos e a batida convida para dançar enquanto o vídeo mostra imagens da cultura dos indígenas. Quando não está no palco, Joílson é professor. O tecladista, Adilson Xaopoko’i é técnico de enfermagem, se dividindo entre soltar a base da pisadinha no teclado e o trabalho na saúde. 

“Então é assim que eles vieram. Com a intenção de mentir, chegando com barco à vela, chegando aqui na nossa terra Brasil. Nós somos indígenas, nós somos Apyãwa Tapirapé e por isso nós sabemos da nossa cultura”, mostra a legenda do clipe, que traduz a letra para o português. 

Os Apyãwa, conhecidos como Tapirapé, são falantes da língua Tapirapé, pertencente à Família Tupi-Guarani do Tronco Tupi. Atualmente, possuem dois territórios regularizados, a Área indígena Tapirapé/Karajá e a Terra Indígena Urubu Branco. Ambas localizam-se no estado de Mato Grosso.

Produtor do grupo Garotos Apyãwa, Waraxowo’i Maurício Tapirapé, que também é professor, conta que conheceu  Joílson na faculdade, quando estudavam na Universidade Federal de Goiás  (UFG).  De longe, ele já observava o trabalho de Joílson na música enquanto ele se dedicava aos vocais da banda Garotos Baladan  que, apesar de não ser formada por indígenas, permitiu que o professor criasse as primeiras composições que reivindicam atenção para a cultura Apyãwa. 



"Ele já começou a cantar as músicas na língua materna, mesmo trabalhando com um grupo não indígena, tiveram uma parceria de mais ou menos um ano. Depois tivemos a iniciativa de criar o Garotos Apyãwa, pensando em divulgar o nome da comunidade, a língua materna, a identidade do povo. Pensamos nisso quando criamos o grupo em 2018”. 

Maurício explica que os integrantes do grupo sabiam que cantar na língua materna seria uma dificuldade para atraírem novos ouvintes, mas decidido a preservar e divulgar a própria cultura, eles resolveram se “autodesafiar”, como define o produtor. 

Além disso, o grupo também pensava em uma forma de poderem divulgar o trabalho musical nas redes sociais, algo que se torna mais difícil com músicas de outros artistas e fez com que eles começassem a compor as próprias letras. 

“Com as letras autorais a gente conta a história dos lugares sagrados, a história do povo, como viviam antes e como vivem hoje, quais são as lutas, quais são as nossas resistências, sobre como podemos viver nesse mundo. Digamos que estamos em dois mundos: o indígena e o não indígena. Então contamos um pouco da nossa resistência por meio da música”. 

Atualmente, Maurício está morando em Goiânia para cursar o doutorado, mas garante que o sonho da música faz com que o grupo esteja sempre em contato e pensando em formas de continuar espalhando a língua materna sobre os beats da pisadinha, já que os outros integrantes também precisam conciliar outras carreiras. 

“Sempre estamos conversando sobre como levar o trabalho mesmo distante um do outro, conversamos, fazemos troca de experiências. Não só criar o grupo, mas pensar que somos indígenas, somos resistência, mostrar a cultura”
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