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Terça-feira, 23 de julho de 2024

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Buchada de bode, comida caseira e 17 sabores de caldo: baiano virou figura tradicional no Porto

Foto: Olhar Conceito

Buchada de bode, comida caseira e 17 sabores de caldo: baiano virou figura tradicional no Porto
Enquanto crescia, o comerciante baiano, Edgar Ferreira do Nascimento, de 54 anos, assistia também a transformação do bairro Porto, endereço mais antigo de Cuiabá. Na adolescência, ele trabalhou vendendo frutas na Feira da Banana, que funcionava na praça em frente ao bar que leva seu nome, e ficou famoso pelas panelas de caldo que Edgar prepara em frente ao estabelecimento. 


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O Bar do Edgar abre de segunda a segunda, mas o movimento de clientes é maior durante a madrugada e, por isso, ele costuma ver o sol nascer diariamente. O caldo mais procurado nesse horário é a “panelada”, que leva mocotó e bucho bovino, mas no total são 17 sabores disponíveis. 

“Você quer ver eu ficar triste é quando falta. Mesmo no calor o pessoal vem tomar caldo, hoje vou até 5h30, encerro a cozinha e fico só com o mocotó ali na frente. Todo dia vejo o sol nascer, aqui a gente trabalha ‘no 12’, o movimento depois da pandemia caiu muito”. 

Edgar e o irmão, os mais velhos entre os 14 filhos, chegaram em Cuiabá com o pai em 1982. Dois anos antes, o nordestino já tinha se aventurado sozinho em terras cuiabanas e, depois de encontrar oportunidades de trabalho, se empenhou em juntar dinheiro para trazer a esposa e os filhos. 

Primeiro, ele trouxe dois dos 14 herdeiros. Edgar lembra que, quando chegaram, começaram a trabalhar nas praças do Centro de Cuiabá. O comerciante ressalta que foram dias de muito trabalho, mas ele, o pai e o irmão conseguiram o valor necessário para juntar a família de novo. 

Caldos são preparados e temperados pela esposa de Edgar, a maranhense Tatiana, e finalizados por ele na frente do bar. (Foto: Olhar Conceito)

Quando todos chegaram, a primeira mudança foi para uma casa no Porto, onde Edgar começou a trabalhar como feirante e criar conexões com os moradores do local. Hoje, ele é um dos nomes mais conhecidos da região. 

“Só na feira trabalhei uns 18 anos, fui feirante, era aqui nessa praça, a Feira da Banana, trabalhava ali perto daquele poste, mexia com banana. Daqui fui lá para baixo, comecei a mexer com verdura também. Depois mudamos para o Verdão, em frente ao Corpo de Bombeiros e continuamos trabalhando para lá”. 

Realidade complicada no Nordeste 

No interior da Bahia, Edgar já trabalhava “na roça” e lembra que cresceu acostumado a trabalhar desde muito novo. No Nordeste, a família vivia em uma realidade “complicada”, como define o baiano. Em Cuiabá, os pais conseguiram se estabelecer financeiramente. 

“Hoje está todo mundo bem, morava todo mundo aqui [no Porto], mas hoje tem um na Argentina, um no Rio de Janeiro e tem outra que mora em Portugal. Minha mãe morava perto da Casa da Mãe Joana, operou do olho na semana passada, eu que paguei a cirurgia dela”, conta Edgar, orgulhoso. 

Há cinco meses, o dono do bar de mais de duas décadas no Porto perdeu o pai, que foi diagnosticado com mal de Alzheimer. “Sofreu um bocado, aí Deus quis que ele fosse e ele foi. Meu pai foi um homem que criou todo mundo, 15 filhos [um dos irmão é falecido] não é brincadeira, não”. 

Bar foi construído por Edgar, que também construiu um mercadinho para uma das filhas ao lado do estabelecimento. (Foto: Olhar Conceito)

Mesmo com uma realidade mais confortável do que a vida que a família levava no interior da Bahia, Edgar ainda é o primeiro a chegar e o último a sair do bar. À medida em que vai envelhecendo, o baiano começou a fazer algumas concessões, como o cochilo antes de abrir o estabelecimento. 

Outro plano dele é reduzir o horário de funcionamento do Bar do Edgar. “Tenho mais três anos para trabalhar diretão, depois quero começar a trabalhar só de quarta a domingo. A idade vai chegando e a gente precisa ir diminuindo o serviço. Hoje, se eu não colocar a mão na massa, o negócio não anda, é muito difícil achar mão de obra”. 

Parte importante de sua história, o Porto continua sendo morada de Edgar e foi onde ele conheceu a esposa quando ainda era adolescente. Assim como o baiano, a maranhense Tatiana Pereira da Silva, de 54 anos, também se mudou para Cuiabá em busca de oportunidades melhores. Desde então, os dois são companheiros de vida e se dividem nas tarefas do bar. 

“Um cara feliz e realizado” 

Com o Bar do Edgar, o comerciante encontrou a realização profissional, além de receber o carinho da clientela, que se tornou parte do círculo de amigos do casal. Ele também se tornou uma espécie de “guardião” da praça em frente ao estabelecimento, já que costuma decorar o local e lutar por melhorias, como bancos ou equipamentos de exercício ao ar livre. 

É na praça que Edgar coloca as mesas do bar e posiciona um telão. Sobre a fama do Porto ser um “lugar perigoso”, o baiano diz que basta sentar uma vez para comer os pratos do estabelecimento e tomar uma cervejinha gelada, que os clientes vão conhecer uma nova imagem do local. 

“Tem gente que chega aqui desconfiado, achando que é perigoso, porque o Porto tem essa imagem, mas depois tenho até que falar: ‘vamos embora, quero fechar’. Tenho uma história com essa praça. A pessoa tem que vir e sentar aqui no meu comércio para ver como é, o Porto tem essa imagem, mas a cidade começou aqui, é o primeiro bairro dentro de Cuiabá”.
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