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Domingo, 15 de março de 2026

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filósofa analisa gordofobia

Na contramão do Mounjaro e Ozempic, influenciadora plus size de Cuiabá constrói comunidade de mulheres gordas

Na contramão do Mounjaro e Ozempic, influenciadora plus size de Cuiabá constrói comunidade de mulheres gordas
Desde o ano passado, no feed infinito das redes sociais, conteúdos que exaltam os resultados quase milagrosos das canetas emagrecedoras, como Monjauro, Wegovy e Ozempic, recebem cada vez mais a atenção dos algoritmos. Centenas de usuários são bombardeados todos os dias com fotos que comparam o antes e depois do uso dos medicamentos. Na mesma internet, a cuiabanas Julia de Souza Silva, de 22 anos, segue na contramão criando a própria comunidade de mulheres gordas. 


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No Instagram e no TikTok, ela produz conteúdo sobre rotina, vida saudável e alimentação, mas desloca o foco do emagrecimento como objetivo central, propondo outras formas de relação com o corpo que não estejam condicionadas à perda de peso como medida de sucesso, felicidade ou pertencimento social.

A pesquisadora e filósofa, Malu Jimenez, explica que a pressão e medicalização da magreza estão diretamente relacionadas à ascensão da extrema direita ao redor do mundo. Ela reforça que o contexto político é importante para entender o que está por trás da força que as canetas emagrecedoras e a magreza a qualquer custo ganharam na mídia e na saúde. 

“A maioria das mulheres não aguenta. A gordofobia é o tempo todo, na sua família, no seu trabalho… Vem justificada como saúde. Muitas mulheres gordas começaram a emagrecer nas redes sociais, pessoas que se colocavam como ativistas também, algumas, e são muito poucas, entenderam e estão resistindo a isso construindo comunidades nas redes. A grande maioria, infelizmente, se deixou abater por esse discurso falso de que emagrecimento é saúde”, explica Malu Jimenez. 

Julia é uma mulher gorda, negra e de cabelos crespos que se expressa através da moda. Autêntica e estilosa, a jovem que costuma aparecer nas publicações do Instagram com tranças e unhas compridas foi coroada como Miss Plus Size Cuiabá em 2023, coleciona exemplos de como foi alcançada pela gordofobia ainda que só estivesse “vivendo a vida normalmente”. 

“Teve uma vez que nunca esqueço, estava na Arena Pantanal andando de patins, nós duas [ela e uma prima] não sabíamos andar tão bem, ela sabia menos que eu. Eu estava tentando me manter em pé e segurando ela, uma mulher magra, porque eu sabia um pouco mais. Passou um idoso que estava caminhando, me olhou e disse: você não tem que estar andando de patins, tem que fazer dieta e correr, pelo menos caminhar, patins não vai te emagrecer”, lembra a influenciadora. 
 

Julia faz parte de uma geração que já nasceu conectada e, no auge do YouTube, consumia o conteúdo de influenciadoras de moda e beleza como Boca Rosa. Por conta disso, sempre gostou de tirar fotos e gravar vídeos, algo que ela costumava fazer apenas para os amigos mais próximos. 

No entanto, no final do ano passado, Julia decidiu encarar a vida digital com mais seriedade e postar com frequência. De 4 mil seguidores ela saltou para 12 mil em apenas alguns meses. O engajamento resultou em trabalhos fechados com marcas grandes como Loreal Paris e Lola Cosméticos. “Vejo que as pessoas gostam e pedem mais conteúdos. Chegam mensagens de carinho, de meninas e mulheres que se inspiram em mim. O que vejo ultimamente é que nós mulheres gordas estamos nos sentindo mais bonitas”. 

Enquanto recebe mensagens carinhosas de outras mulheres gordas no direct do Instagram, o cenário muda quando um vídeo de Julia viraliza e “fura a bolha”. “Já recebi muitos comentários terríveis: ‘prefiro morrer do que ficar com alguém assim’, ‘aproveitando os últimos 15 segundos de vida’. Eu nem vejo mais. Por exemplo, quando vejo que um vídeo viralizou, se eu vejo um comentário ruim, eu já nem olho mais. É uma forma de me proteger”. 

Quando não emagrecer provoca incômodo e vira resistência 

Quando uma mulher gorda ocupa um espaço público ou está simplesmente vivendo a própria vida sem se preocupar com emagrecimento, ela rompe com um discurso majoritário, explica Malu Jimenez, provocando “ódio e incômodo”. A pesquisadora destaca que o sentimento segue a linha: “Está todo mundo usando Monjauro, como assim você não quer emagrecer?”. 

“Quanto mais pessoas gordas existirem falando sobre isso e se posicionando no mundo de outra forma, melhor para todo mundo, porque a gordofobia não causa dano só para as pessoas gordas, ela causa um dano para a sociedade toda. Nessa romantização da magreza, no fundo o que estamos falando é sobre gordofobia, existe um horror a que as pessoas sejam gordas e vale tudo para não ser gorda. Isso também é gordofobia”. 

Várias influenciadoras e modelos plus size que eu seguia foram para esse caminho do emagrecimento, e está tudo bem, mas muitas começaram a se ver ‘como terríveis’ antes de emagrecer, sendo que antes eram modelo plus size e ganharam dinheiro com isso. Agora ficam fazendo vídeos de antes e depois onde dão a entender que estão mais bonitas depois de perder 50 kg. 

“Elas pegam a pior foto de antes, onde estão tristes, às vezes no pior ângulo e com uma postura ruim. É problemático as pessoas associarem magreza com beleza e tentarem alcançar isso a qualquer custo, está tudo bem se você quer emagrecer, é um direito seu, às vezes é por questão de saúde, tensão no joelho, gordura no fígado… Mas nessa questão das canetas emagrecedoras muitas pessoas nem são gordas e estão tomando”. 

 

Para Julia, não há problema em tomar a decisão de emagrecer, no entanto, muitas vezes a gordofobia aparece disfarçada de preocupação com a saúde. “A pessoa não está preocupada com a saúde, porque não sabe, muitas vezes, nem de onde saiu esse remédio, não procurou um médico, faz anos que não faz um hemograma, por exemplo. Pior ainda é quando outras pessoas estão preocupadas com a minha saúde, sendo que elas bebem e fumam, por exemplo”. 

A pesquisadora Malu Jimenez destaca que, apesar de nadar contra a maré das canetas emagrecedoras ser um ato de resistência, é preciso ter cuidado para não romantizar a situação. "Esses corpos e essas pessoas que estão resistindo, porque é uma violência muito grande, a gordofobia atua como violência, então também resistir é estar exposta a ataques e violências".

Por isso, segundo ela, é tão importante que pessoas gordas construam redes e comunidades para se protegerem de violências gordofóbicas. "A gordofobia por ser estrutural, ela não acontece hoje e daqui alguns meses vai acontecer de novo, vai acontecendo todos os dias, é um olhar, é a falta de emprego, acesso a relacionamentos, é na própria família… A gordofobia é uma violência diária e muito difícil de superar, de entender, porque vem sempre disfarçada de cuidado, saúde ou de amor”. 

A filósofa reforça que já houveram períodos melhores sobre aceitação do próprio corpo. “Hoje estamos nessa avalanche de emagrecimento, da medicalização e da romantização da magreza como saúde, beleza e felicidade. Estamos falando de um discurso biomédico que tem muito poder”. 

Corpos gordos existindo dentro e fora das redes 

Para Júlia, ocupar espaços — físicos e simbólicos — passa também por entender o impacto que as redes sociais têm na construção da autoestima, especialmente quando a comparação acontece sem considerar as desigualdades de ponto de partida. Ela observa que seguir pessoas famosas pode ser inspirador, mas também perigoso quando não há filtro.

“A Vih Tube por exemplo pregou muito aquela questão da maternidade real, depois que ela teve os dois filhos, fez várias cirurgias. E agora? E as mães que estavam seguindo ela antes e se deparando com isso? A gente começa a se comparar com pessoas que têm uma realidade muito diferente da nossa, ficamos tristes e deprimidas pensando que não conseguimos sair do lugar”. 

Para lidar com a avalanche das canetas emagrecedoras, Julia procura seguir mulheres parecidas com ela. Ela conta que aprendeu, com o tempo, a selecionar melhor o que consome. “De modo geral procuro não me importar mesmo com esse tipo de conteúdo que mostram perdas extremas de peso com uso da caneta. Minha autoestima foi construída ao longo dos anos, depois que comecei a me valorizar em relação às pessoas que amo, ao que assisto e escuto. Sei quem eu sou”. 

Apesar da quantidade extrema de conteúdos sobre magreza e perda de peso, a influenciadora também vê um contraponto sendo construído nas redes. Assim como ela, mais mulheres gordas que trabalham com internet estão ganhando visibilidade. 

“Tenho visto muitas pessoas gordas produzindo conteúdo de treino, musculação, pilates, yoga, balé… Acho muito bom, porque tira esse estigma de que pessoas gordas são gordas porque ficam o dia inteiro deitadas e comendo em casa. Movimentar nosso corpo é um direito nosso. Sigo uma professora de balé, outra de jazz e uma que é campeã de levantamento de peso. Somos fortes e temos que estar onde queremos, alcançar o que queremos”. 

A pesquisadora Malu Jimenez avalia que a presença de mulheres gordas em diferentes espaços amplia o questionamento sobre a romantização da magreza e contribui para a construção de outras possibilidades de existência. Segundo ela, quanto mais mulheres gordas ocupam o mundo e se colocam como são, mais esse padrão é tensionado e novos mundos se tornam possíveis. 

“Ter mulheres gordas em Cuiabá e região ocupando lugar de referência, debate e discussão sobre a romantização da magreza é importantíssimo para que outras pessoas escutem outro discurso, um discurso crítico sobre que a maioria vem fazendo e falando, e pense sobre isso, questione sobre isso”.

Malu Jimenez é pesquisadora-ativista e uma das principais referências no debate sobre gordofobia no Brasil. Pessoa não binária, filósofa, gorda, artivista e acadêmica, constrói sua trajetória entre a filosofia, a arte e a ciência como práticas indissociáveis de produção de conhecimento e transformação social. Doutora em Estudos de Cultura Contemporânea e pós-doutora em Psicossociologia pela UFRJ, atua como professora-pesquisadora na PUC Minas, na pós-graduação em Diversidade e Inclusão em Comunicação, e na Universidade Estadual de Londrina (UEL), na linha Decolonialidades e Comunicação. É presidenta do Instituto Diversas e lidera o Grupo de Estudos Transdisciplinares das Corporalidades Gordas no Brasil – Pesquisa Gorda. Sua produção tensiona normas biomédicas, estéticas e epistêmicas, propondo epistemologias decoloniais, corporificadas e situadas sobre corpos dissidentes, ciência e modos de existir.
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