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Terça-feira, 17 de março de 2026

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“Já namorei muito por orelhão”: a despedida do último telefone público da Baixada Cuiabana antes de remoção da Anatel

Foto: Bruna Barbosa/Olhar Conceito

“Já namorei muito por orelhão”: a despedida do último telefone público da Baixada Cuiabana antes de remoção da Anatel
No mesmo ano em que a Anatel determinou a retirada definitiva dos telefones públicos, o orelhão brasileiro ganhou projeção internacional ao aparecer em um dos cartazes de divulgação do filme “O Agente Secreto”, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar. Na trama, o personagem Armando Solimões, vivido por Wagner Moura, depende do orelhão para conseguir se comunicar, realidade dos que viveram entre os anos 1970 e 2000. Fora da ficção, porém, o símbolo de uma era da telefonia brasileira caminha para o desaparecimento: o último orelhão da Baixada Cuiabana, instalado em Várzea Grande, está com os dias contados e já passa despercebido pelas gerações que cresceram conectadas aos smartphones. 


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Criado no início dos anos 1970, o orelhão nasceu como uma solução pública para ampliar o acesso ao telefone em um país onde poucas casas tinham linha fixa. O design em forma de concha foi desenvolvido pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, a pedido da estatal Telebras. Exclusivo do Brasil, o formato protegia do sol, da chuva e do ruído das ruas, ao mesmo tempo em que garantia alguma privacidade. Ao longo de décadas, tornou-se um dos objetos mais famosos da paisagem urbana brasileira.

Do derradeiro orelhão da Baixada Cuiabana restou apenas a carcaça, que agora aguarda, em frente à antiga Câmara Municipal, o mesmo destino de outras cerca de 30 mil espalhadas pelo Brasil: a retirada determinada pela Anatel. A poucos metros, em frente a sede do INSS, também existia um orelhão, que hoje vive apenas na lembrança de trabalhadores que estão na região há mais tempo, como Marcelo Brotalino Pereira, de 66 anos. 

Sentado em uma cadeira de fio, o idoso segura um smartphone protegido por uma capa de couro que lembra uma carteira. Há mais de 30 anos, Marcelo vende salgados e bebidas em uma barraca em frente ao INSS de Várzea Grande. No auge do orelhão, os cartões de crédito usados para telefonar estavam entre os produtos vendidos por Brotalino. 

“Se queria ligar para casa ou chamar um carro, tinha que usar o orelhão. Era bom porque eu vendia cartão para a turma, ganhava um dinheiro. Depois ficou difícil, mas era bom. Agora é cada um com seu celular”. 

Há 30 anos trabalhando em frente ao INSS de Várzea Grande, onde existia um orelhão no passado, Marcelo vendia os cartões usados para as ligações. (Foto: Bruna Barbosa/Olhar Conceito)

Ao lado dele, em um banco, Margarete Balduino, de 62 anos, aguarda uma carona para voltar para casa, no bairro Mapim, em Várzea Grande. Sem crédito no celular, ela lamenta que um orelhão em pleno funcionamento, diferente do que descansa a poucos metros dali, seria bem vindo para conseguir falar com a filha. 

Margarete tinha entre 8 e 9 anos quando os primeiros orelhões surgiram no Brasil. Por pelo menos três décadas, o telefone público era uma das poucas formas de comunicação conhecidas pela idosa, que hoje também segura um smartphone nas mãos. “Já namorei muito por orelhão, não tinha outro jeito. No orelhão você ligava quando queria, agora tem o celular, mas sem crédito não adianta nada. Eles podiam deixar os orelhões”. 

Do outro lado da rua, Alessandra da Silva Bastos, de 44 anos, tem uma lanchonete que presta serviço de impressão e internet há quase duas décadas. Como não tem telefone fixo no estabelecimento, quando idosos chegavam buscando ajuda com documentações do INSS, ela atravessava a rua para ir até um orelhão ligar no 135. 

“Era o telefone do INSS. Ia até o orelhão com o cliente quando ele não sabia como resolver. Depois que tirou [o orelhão do INSS] ficou um pouco mais difícil, agora tem o aplicativo do INSS, mas nem todo mundo sabe mexer, às vezes tem que ligar no 135”. 

Alessandra também usava o orelhão para ligar para a família. “Usava na época das fichas, não tinha nem cartão ainda. Hoje está mais avançado, mas o orelhão é bom porque muita gente ainda não tem celular. Sou a favor de manter”. Mãe de dois filhos, ela brinca que os meninos sequer sabem o que é um orelhão. “Hoje em dia é tudo pelo smartphone”. 

Silencioso, imóvel e já fora de uso, o orelhão em frente a antiga Câmara Municipal virou uma carcaça esquecida na paisagem, apesar de ter testemunhado um tempo em que era possível ficar offline e a comunicação exigia espera, ficha ou cartão. 

Criado para ser público e acessível, o último orelhão se despede sem cerimônia da Baixada Cuiabana, substituído por telas individuais. Do lado de fora, ninguém mais atende. Do lado de dentro, restam vozes que ainda ecoam na memória de quem aprendeu a ligar para compartilhar segredos, felicidades, tristezas e juras de amor sob sua concha. 
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