Em um mundo de feeds infinitos e algoritmos construídos para prender cada vez mais a atenção dos usuários às telas, atividades que ajudam a estimular a presença e momentos de desconexão aparecem como o contraponto. Neste cenário, os discos ganham cada vez mais espaço entre jovens e adultos das novas gerações, que reaprender a ouvir música como um ritual. Na Tchá Por Discos, que fica no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, Priscilla Leventi e Max Amorim observam esse movimento crescer gradualmente nos últimos anos.
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Olhar Conceito, Priscilla e Max explicam que ouvir discos costuma ser uma experiência mais lenta e física do que escutar em plataformas digitais. Antes mesmo da música começar, há um pequeno ritual: escolher o disco, tirar da capa, posicionar no prato, limpar a superfície, baixar a agulha. Esse processo faz com que a pessoa pare alguns minutos apenas para aquele momento.
"Enquanto o disco vai tocando, é uma sequência que o artista pensou para você escutar, tem várias coisas que envolvem isso. As pessoas estão buscando esse momento analógico, essa quebra de conexão. A presença", explica Max.
Quando a agulha encosta no vinil, aparece um som característico, um leve chiado inicial, seguido pela música. Para muita gente, esse ruído faz parte da experiência. O som costuma ser percebido como mais “quente” ou encorpado, porque o áudio é reproduzido de forma analógica, sem compressão digital.
"É uma forma totalmente diferente de se escutar música, uma qualidade diferente... Você abraça a música, sente a música de um jeito diferente. É um ritual totalmente diferente do que você encontra no streaming, por exemplo, é um ritual mesmo. Virtualmente você não tem a qualidade sonora do disco e acaba não prestando atenção na música", completa Priscilla.
Ela lembra dos pequenos clientes que entraram pela primeira vez na loja com oito anos, por exemplo, e anos depois, já vivendo o início da adolescência, continuam frequentando a loja em busca dos discos. O primeiro contato, muitas vezes, acontece dentro de casa ao assistirem os pais ou outros familiares ouvindo discos.
Na loja, o interesse do público jovem também se reflete na procura por artistas contemporâneos. Entre os títulos mais buscados estão discos de nomes do pop internacional como Lana Del Rey, Sabrina Carpenter, Demi Lovato e Charli XCX, artistas que passaram a lançar suas produções também em vinil nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, clássicos da música continuam presentes entre as escolhas dos clientes. Bandas como Beatles e Pink Floyd seguem figurando entre os discos mais procurados, mostrando que o formato acaba conectando diferentes épocas da música dentro de um mesmo espaço.
"Eles [as novas gerações] procuram por um pouco de tudo, eles querem as novidades, o que está no mainstream, mas também se interessam pelos clássicos. Tem a parte da descoberta, acabam conhecendo artistas novos que nunca ouviram. Tem procura pelo novo e pelos clássicos [por parte dos jovens], mas claro que existem os que só colecionam discos atuais", conta Priscilla.
“Uma que a gente pode falar é a Rita Lee. A procura por ela nunca para, sempre tem. A Vanguart, de Cuiabá, também lançou o último disco deles em vinil, foi bem legal. E o Samuel Rosa, que recém saiu da banda, também já lançou um disco em vinil", completa.
Para Max, apesar do crescimento, o mercado de vinil ainda se mantém como um nicho. “É um mercado menor, porque o disco tem um valor mais alto e não é um item de primeira necessidade. Mas é um material durável, que pode atravessar décadas”, afirma.
Na avaliação dos criadores da Tchá Por Discos, o que se observa hoje em Cuiabá é um movimento de redescoberta do formato. Enquanto alguns clientes chegam motivados pela memória afetiva, outros encontram no vinil uma forma nova de escutar música, mesmo que o formato exista há mais de meio século.
Nesse processo, a loja acaba funcionando como um espaço onde diferentes gerações se encontram para compartilhar a mesma experiência sonora, seja a partir de discos clássicos ou de lançamentos.
“O vinil cria um tipo de relação diferente com a música. Você não escuta de qualquer jeito, existe um tempo para aquilo acontecer, e as pessoas acabam buscando exatamente esse momento", diz Max.