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Sábado, 11 de abril de 2026

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'Fiz meu convite de casamento na Gráfica Pêpe': cuiabana guarda memórias de casarão suntuoso que virou ruína no Centro Histórico

'Fiz meu convite de casamento na Gráfica Pêpe': cuiabana guarda memórias de casarão suntuoso que virou ruína no Centro Histórico
Nos anos 70, Glorinha Albernaz entrou na Gráfica Pêpe, que funcionava em um casarão centenário ao lado do Museu da Imagem e do Som (Misc), no Centro Histórico de Cuiabá, para encomendar o convite do casamento com Antônio de Pádua da Silva Bastos, que faleceu em maio do ano passado. Na época, a Gráfica Pêpe era a única que fazia esse tipo de serviço na cidade e, apesar de diferente dos anúncios de celebração de hoje em dia que ostentam nos detalhes, os convidados de Glorinha receberam um convite simples em papel que imitava linho. 


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Nesta semana, a iminência do desabamento da fachada da Gráfica Pêpe voltou a acender um alerta de risco no Centro Histórico de Cuiabá. O Misc, por exemplo, precisou fechar às portas por tempo indeterminado. A situação costuma se repetir nos meses de chuva intensa, assim como o anúncio de demolição. A Prefeitura de Cuiabá informou que está buscando meios para atender às exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) quanto à demolição do casarão histórico localizado aos fundos do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc). 

Por trás do processo judicial que discute a demolição do casarão, Glorinha guarda aquilo que não cabe em autos ou decisões: as memórias. Em caixas preservadas dentro de casa, papéis antigos resistem ao tempo e contam histórias que a burocracia não alcança. O convite produzido e impresso na Gráfica Pêpe é uma dessas relíquias, guardado entre panfletos de festas de São Benedito, convites do Arraiá da Mandioca, cartas, recortes de jornal e contas antigas que, já amarelados, registram fragmentos de uma vida inteira.

“Acho que lá era o único lugar que existia para fazer esse serviço de convites de casamento. Eu tenho até hoje, ele era simples, não tinha detalhe nenhum, mas era um papel especial que imitava um linho. Naquela época não era fácil encontrar isso e era muito caro”, lembra. 



Nas lembranças que guarda consigo, está o carinho com que era atendida pela simpática Naly Hugueney de Siqueira, que administrava o estabelecimento ao lado da irmã Maria Luiza Hugueney. 

“A Naly era muito querida, todo mundo comprava lá. Ela sempre dava de presente para as crianças uma caixinha de lápis de cor, dava com o maior carinho para as crianças. Nos anos 50 ou 60 teve um incêndio na Igreja Senhor dos Passos, foi aquele alvoroço, todo mundo ficou com medo de chegar na Gráfica Pêpe. Naquela época era só no balde de água”. 

“A gente falava: ‘Dona Naly, eu quero tal coisa’. Ela pegava na hora”, recorda Glorinha. 

A Gráfica Pêpe também era o lugar onde muitas famílias cuiabanas compravam materiais escolares, lembrança que permanece viva na memória de Glorinha. Ao falar do período, os olhos dela brilham ao recordar a estampa de um dos cadernos que usava na escola, chamado “Primavera”.

“Os cadernos chamavam Primavera, não tinham esses cadernos de capa dura, nada disso, eram simples. Tinham também as folhas de fazer sabatina, que nós fazíamos uma vez por mês, eram folhas grandes com as listras para escrever grandes também, então era dobrada. A sabatina era uma vez por mês, de toda matéria. Vinha tudo da Pêpe”, conta.

Abandono entristece quem já frequentou a gráfica 

Para Glorinha, o abandono do casarão, que teve a estrutura quase completamente destruída pelo tempo e descaso, é motivo de tristeza, assim como outros pontos que foram importantes durante a infância e juventude que ela viveu no Centro Histórico de Cuiabá. 

“O abandono é muito triste, não só da Pêpe, como da nossa Cuiabá. Cuiabá está horrível, todo lugar do Brasil arruma as casas antigas, estão conservadas. Estive agora em Tamandaré, no Nordeste, tem casinhas que são lindas, a maioria sem muro, tudo conservado e arrumado. Eu fico triste”. 



Até se casar com Antônio, Glorinha morou em um casarão na Rua Pedro Celestino, onde brinca que é capaz de nomear cada um dos moradores daquela época. “Até chegar na Praça Alencastro eu consigo te dizer o nome de um por um, como era cada casa, quem morava”. 

Como cresceu e estudou no Centro Histórico, em uma escola conhecida como “Escolinha da Ponte”, que ficava na Prainha e onde hoje funciona uma revendedora de carros, Glorinha viveu livre pelas ruas de paralelepípedo. “Eu vivi o Centro Histórico. Lá perto tinha um casarão bonito, que era da família Guerra, eles tinham um armazém, do Seu Dito, ia lá para comprar pirulito e caramelo. Era lindo”.

O cuscuz com erva-doce vendido na escola todos os dias é um dos sabores que marcaram a memória de Glorinha durante décadas. Ela conta que ainda se lembra do cheiro de erva-doce e de como o prato era “vendido quentinho”.  

Lembro também da casa de Dona Ninfa, era na rua Bandeirantes, que dá na Prainha, da casa de tio Clovito, Clovis Albernaz de Albuquerque, era sobrinho do meu pai, mas os cuiabanos de antigamente chamavam todos os parentes mais chegados de tio. Nessa casa tínhamos três refeições: escaldado de manhã, no almoço e no jantar. Lá em casa era banana cozinha de manhã. Isso fica muito na memória.

Glorinha se lembra ainda das casas com poços nos quintais na Rua Pedro Celestino, algo que ela aponta como algo tradicional naquela época, e das histórias curiosas dos moradores, como a de Dona Nenê Paraguaia, conhecida pelo cabelo longo e pelo cachorro que carregava uma leiteira até outra casa para buscar leite e levar para a dona. 

Ao falar do antigo centro da capital, a memória volta a uma cidade marcada por encontros e passeios. A Praça Alencastro, conta, tinha um piso desenhado que lembrava o de Praia de Copacabana”. Nós íamos passear na praça, íamos paquerar e namorar, era gostoso. Era tudo muito bonito”. 

Embora tenha vivido a maior parte da vida em Cuiabá, Glorinha nasceu em Chapada dos Guimarães, em uma casa que ficava onde hoje funciona a agência do Banco do Brasil. “Viemos para Cuiabá para estudar, porque naquela época era tudo muito precário, mas não descartamos a Chapada. Minha irmã foi a primeira professora lá, nos anos 30, foi dar aula para garimpeiro, você imagina? Inteligente e disposta”. 

Entre sabores, ruas e personagens, as lembranças de Glorinha ajudam a reconstruir um pedaço da Cuiabá de antigamente, sendo uma parte da cidade que permanece viva não apenas nos documentos e nas fachadas antigas, mas principalmente nas memórias de quem viveu as histórias do Centro Histórico de Cuiabá. 

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