Olhar Conceito

Sexta-feira, 03 de abril de 2020

Notícias / Ícones Cuiabanos

Uma figura folclórica a caminhar por Cuiabá, mulher da vida e de calças, assim foi Maria Taquara

Da Redação - Marianna Marimon

07 Fev 2014 - 15:59

Foto: JB Conrado

Uma figura folclórica a caminhar por Cuiabá, mulher da vida e de calças, assim foi Maria Taquara
Ela descia a rua com uma trouxa de roupa na cabeça. Todos os dias. Uma eterna rotina de uma mulher pobre e humilde, mas, trabalhadora. O ano é 1940. E ela até hoje povoa o imaginário cuiabano. Pode-se dizer que se tornou uma lenda. A transgressora da moral e dos bons costumes, a primeira mulher a usar calças em Cuiabá. Historiadores dizem que ela sempre esteve à frente do seu tempo. Seu paradeiro é desconhecido, a sua origem também. O que paira sobre ela são as névoas das fábulas que se criaram para perpetuar este ícone cuiabano. Seu nome é Maria. Sobrenome não se sabe. Apenas que por aqui, a chamavam de Taquara.

Leia tambémDuas vias que se demarcam pela vida: Estevão e Rubens de Mendonça desbravadores da história de Mato Grosso

Maria Taquara. Assim conhecida pelo corpo esguio e magro. Figura folclórica de Cuiabá. A imagem que muitos possuem dela é exatamente o de lavadeira, descendo até o Córrego Mané Pinto com as trouxas de roupas dos clientes ricos na cabeça. Uma mulher humilde. Mas o que se sabe de Taquara não para por aí. Foi motivo de prisão para muitos soldados, que pulavam o muro do quartel, para se encontrarem com a esguia mulher em seu barracão. Dizem que Maria Taquara era mulher de calças e mulher da vida.

Aníbal Alencastro, historiador, rememora que conheceu Maria Taquara. Ao servir no exército em 1962 em Cuiabá, é ele quem narra as peripécias dos soldados que procuravam calor nos braços de Maria Taquara. “Durante a vigília da noite, os soldados deixavam seus postos e pulavam os muros para se encontrarem com ela, cujo barracão ficava ao lado do quartel. Depois,o sargento passava e olhava para os fuzis deixados do lado do muro e com isso, vários homens eram presos pelo abandono de posto. Tudo pela Maria Taquara”, contou.



O historiador adianta que ela não era uma mulher bonita, mas que possuía um semblante sério. Ninguém mexia com Maria Taquara, que perambulava pelos bares da cidade bebendo sua pinga. Era uma figura que fazia parte da paisagem urbana de Cuiabá. “Com certeza se tornou um dos personagens folclóricos que a cidade tem. Lembro dela descendo com a mala de roupas na cabeça e o cigarro de palha na boca”, disse.

Maria Taquara não tinha vaidade e não se importava com o que diziam dela, tanto que os olhares tortos para uma mulher de calças tão pouco a incomodaram. Talvez não haja uma explicação concreta para que a memória desta mulher negra e magra com uma trouxa de roupas na cabeça seja tão lembrada em Cuiabá. Na verdade, muitos que passam em um dos pontos de ônibus mais movimentados da cidade, não se dão conta do folclore que emerge ao citar o nome de Maria Taquara, que agora se consolidou em estátua, para nunca deixar a memória do ir e vir do seu labor diário.

A professora de semiótica, Marília Beatriz Figueiredo Leite analisa um pouco desta figura folclórica e gosta de comentar que Cuiabá é uma das poucas cidades em que se ergueu uma estátua para uma prostituta. “Haveria tanto interesse na figura de Maria Taquara se não houvesse o monumento e de que imagem de mulher se trata sob o signo indicial”, questiona.

Para Marília, a questão da imagem da mulher sob o signo indicial é de que se trata de um ‘non-sense’ próprio de uma sociedade que tem vocação para liberdades. “É uma leitura entremeada de verdades e mentiras, posto que um ler a partir de um sentir capturante. O texto/imagem Maria Taquara aprisiona uma narrativa de olhar, uma cadeia aprisionada por fascinações dos que passam pelo local em que esta situada a imagem memória”, explica sobre o monumento deTaquara.



Mas, a professora vai além e explica que o texto pode ser entendido como uma montagem cênica de personagem, como um jogo de xadrez social. “Um jogo que se realiza executando as várias combinações no tabuleiro da leitura social! Quanto à primeira pergunta acredito que todo registro visa à fixação das várias possibilidades que o material visual recorta e marca. Neste caso Maria Taquara aborda um aspecto lúdico da sociedade cuiabana e também aponta a relação conflitiva que assinala a junção do sujeito com o mundo circundante. O local do monumento é, pois, onde o sentido daquela mulher precisa ser visto e entendido como uma face ex/ótica dos pedaços diurnos e noturnos da entidade MARIA...”, argumentou.

O símbolo e o signo estão fixados em uma estátua de aço na Praça Maria Taquara. E mesmo que milhares de pessoas passem por ela, que ainda segura a trouxa de roupas na cabeça, e que não conhecem sua história, destino, caminhos, nem imaginam, que desta figura folclórica que povoou a mente de soldados se fez até música. E mesmo que ninguém saiba quem era a mulher negra e magra que perambulava por Cuiabá, ela se fará presente, com seu semblante frio e de aço, a olhar para o futuro estando sempre no passado.

Um dia Maria Taquara veio ao chão em meio a chuva e ao vento, mas não tardou a voltar a nos olhar


"Maria Taquara, Maria meu bem.

Mulher de todos, que não é de ninguém.

Taquara de dia, de noite meu bem,

Maria Taquara, não é de ninguém.

Muié de sordado, de meganha também.

De dia Maria, de noite meu bem.

Maria é Cuiabá, Cuiabá é Maria

Não importa se é noite, não importa se é dia.

Maria é Taquara,

Taquara é Maria,

Avançada no tempo,

Mulher fantasia”.


Música de Moisés Martins

7 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Olhar Conceito. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Olhar Conceito poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

  • adilton sampaio
    15 Jun 2017 às 14:08

    Adventismo em foco:Emanuela Acessar

  • Fábio minero d Pompeu
    05 Mai 2017 às 22:27

    Lindo lindo e linda

  • ZÉ MANÉ
    08 Fev 2014 às 10:47

    Belo resgate histórico da cidade de Cuiabá.Parabéns pela matéria!

  • clementino nogueira de sousa
    08 Fev 2014 às 10:45

    No ano de 2007 a cidade de Cuiabá foi escolhida como uma das sedes para os jogos da copa do mundo. Após o resultado a cidade explodiu em alegria pela conquista.Alguns jornalistas,deputados,vereadores e outras figuras exaltaram tal conquista,como um ato heróico em vencer Campo Grande -Ms.A partir de então, começaram a organizar para sediar tais jogos,porém,o que mais me chamou foi um outro domínio, o da cultura.O dispositivo da identidade ganhou força ,começaram a produzir textos jornalísticos com objetivo de “ resgatar a cultura,resgatar a história”,doce ilusão,eles ainda não sabem que em história não se resgata nada,quem resgata é somente o samua. .No entanto, o que mais me chamou atenção foi à acelerada divulgação de quatro personagens como ícones da identidade cuiabana: Maria Taquara, Mãe Bonifácia, Zé bolofro, Zé peteté, figuras capturadas do mundo da multiplicidade para ficarem fixadas como símbolos dessa lógica identitária. O que me interessa nesse é oferecer algumas possibilidades de leitura dessa reportagem a partir de algumas problemáticas: porque inventaram tais figuras para serem fixadas como símbolo da cultura cuiabana? Qual o efeito de verdade na invenção dessas figuras? Como podemos problemátizá-las? Por que esse modelo de história? Quais efeitos de sentido têm essa invenção da identidade cuiabana?Para pensarmos tais questões , é necessário colocar outras perguntas: quais idéias nortearam o pensamento intelectual em Cuiabá na década de 1920, 1930, 1950 Michel Foucault que afirma em obra – os anormais - que o saber psiquiátrico pouco a pouco foi insidiosamente penetrando em todos os domínios da nossa existência, definindo uma taxonomia social, criando novas linguagens, fixando comportamentos, instituindo um novo rosto na paisagem urbana do final do século XIX e XX. Além disso,definiu um núcleo teórico de explicação cientifica do social ao criar uma nova nosografia. A primeira foi de despatologizar,ou seja, as figuras não eram mais afetados pela doença,mas sim por síndrome.Em segundo lugar deslocou o delírio para economia do instinto e do prazer.Em terceiro lugar ,inventou um enunciado – estado – o indivíduo já estaria propenso a disturbio mentais ,sexuais,conforme o seu estado.Para Foucault,portanto, toda essa máquina discursiva só poderia ganhar efeito de verdade em suas elaboração cientifica se tivesse como pano de fundo a origem,ou seja,toda investigação psiquiátrica passou a ter como instrumento metodológico para definir o anormal,a partir da hereditariedade No caso especifico de Cuiabá quem mais reproduziu esse domínio da anormalidade,ou seja,difundiu a eugenia e a degenerescência ,foram figuras ilustres da intelectualidade cuiabana nas décadas 1920,1930,1940.No entanto, quem se interessar por essa temática,existem publicações importante como os livros do historiador Osvaldo Machado Filho – Ilegalismo e Poder, Suzana Guimarães –Arte na Rua e outros trabalhos produções historiográfica.

  • Euripes
    07 Fev 2014 às 20:48

    EU VOU FAZER UMA PERGUNTA QUEM FOI QUE MANDOU FAZER A ESTÁTUA DA MARIA TAQUARA FOI UMA FAMILIA TRANDICIONAL DE CUIABA SÓ ESQUECERAN DO CARNAVAL DE RUA QUE ELA DANÇAVA COM A TROXA NA CABEÇA O POVO GRITAVA AI MARIA TAQUARA MAIS ELA DANÇAVA O POVO APLAUDIA BATIA PALMA

  • zequinhacorrea
    07 Fev 2014 às 20:15

    Parabéns pela matéria..

  • lcs
    07 Fev 2014 às 18:04

    Bela narrativa histórica de nosso gente e de nossa Cuiabá-MT. Sou barrachelando em direito e iniciação em história, por certo, vivo a história desse Estado, principalmente da política. Nesse sentido, sinto uma tristeza enorme, pois percebo que poucos se interessam pela nossa história. Exemplo clássico disso, e a própria fundação desse Estado. Ande nas ruas, escolas, faculdades e até mesma naquela pracinha feia e abandonada nos fundos da Feira do Porto e pergunte se alguém sabe quem foi o Conde de Azambuja, ou, para não ser muito cruel, vamos chama-lo de ANTONIO ROLIM DE MOURA. Tenho certeza que pouquíssimos saberão responder. Mato Grosso não merece deixar morrer sua história. Lázaro, V. Gde-MT.

Redes Sociais

Sitevip Internet