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Estudo do acaso: por uma nova perspectiva sobre o progresso

Da Redação - Arthur Santos da Silva

12 Mai 2014 - 15:00

Foto: Reprodução

Estudo do acaso: por uma nova perspectiva sobre o progresso
Alegoria da América, pintada por Stradanus por volta de 1575-1580, representando o primeiro encontro do Velho e do Novo Mundo; Américo Vespuccio acorda a América: domínio do civilizado sobre o selvagem.

Pensar a dimensão temporal da existência humana é o mesmo que pensar sobre a filosofia da história. Esta afirmação ganha ainda mais força quando tentamos compreender as causas primarias do universo e todo o sistema responsável por gerar as explicações sobre a realidade. Em nosso caso, não é complicado identificar a essência da razão iluminista presente nas reflexões cotidianas: o fluxo fundamental da história que idealizamos é progressista. Compreendemos a passagem do tempo como uma flecha lançada para o futuro e o curso deste objeto é marcado por mudanças racionais visando o toque da perfeição.

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O problema de buscar a "perfeição" está justamente na adoção de conceitos responsáveis por qualificar e determinar estágios de desenvolvimento. Este “progresso” acaba por criar escalas determinantes que ferem os contextos sociais variados. É assim que o "civilizado" aparece e o "desenvolvido" domina. O fruto disso é um desrespeito total a historicidade, empregando as diferentes temporalidades/espaços valores universais que servem de crivo para qualquer período. Nessa situação, as culturas que não compartilham desta flecha do tempo acabam sofrendo. Esmagadas pelos objetivos da "evolução" alheia, o conjunto de significados materiais e imateriais de determinados grupos desaparecem graças à visão transformadora do sujeito explorador.


Foto: Reprodução. Protesto contra Invasores da Terra Indígena Marãiwatsédé

Este choque de perspectivas pode ser exemplificado pelas primeiras viagens científicas que possuíam como destino Mato Grosso. Responsáveis por descrever o Brasil aos olhos europeus do século XIX, expedicionários como Francis de Catelnau e Karl von den Steinen eram recebidos e festejados como verdadeiros agentes do progresso em nossas terras. Estes homens tinham como missão expandir os valores de suas nações, alargando a teia de oportunidades. A epopeia europeia confirmava o domínio do civilizado sobre o selvagem, destacando um espírito de superioridade.

É assim que a vida ganha contornos de ilusão. Busca incansável por uma miragem do devir, um jogo de espelhos falsos, que engana e devasta. Se olharmos sob o prisma da Economia, notaremos uma doentia busca pelo progresso capaz de esmagar qualquer traço de vida. Não por acaso questões como economia familiar e sustentabilidade são praticamente ignoradas. Como em um ato de imposição, a transformação é um modelo que deve ser seguido, um tipo ideal que aponta o caminho da evolução.

Sabemos que o homem, em sua essência, é um animal amarrado a teia de significados que ele mesmo teceu. Esta teia é a representação da cultura que não pode ser compreendida sob a ótica de leis pré-determinadas. A visão progressista como dogma de percepção de vida não deve fazer sentido no que concerne aos estudos de sensibilidades. Correto seria o emprego do olhar interpretativo sobre os variados discursos construídos durante o fluir do tempo. A razão da existência de um Apiaká, por exemplo, independe do número de sacas de soja produzidas em uma safra. Uma estrada de ferro não deve sobrepor, de forma despótica, as verdadeiras vontades de um lugar.


Reprodução. Desmatamento da Floresta Amazônica

A nossa concepção de leitura do tempo afirma que o mundo é governado racionalmente, pois a razão está na história, e esta, por sua vez, não permanece entregue ao acaso e as improvisações aleatórias. Assim, o erro da busca pelo progresso a qualquer custo é, em sua totalidade, de nossa responsabilidade. É indispensável rever o verdadeiro significado deste conceito e se preciso for, modificá-lo. As diversas perspectivas sociais não podem sofrer por imposições alheias. Como em um trabalho etnográfico constante, as particularidades devem ser labutadas e os sentidos produzidos precisam, necessariamente, corresponder as movimentações surpresas das experiências diversas. Briguemos para que a evolução seja do "eu". As crises das variadas possibilidades de compreensão do mundo através de esquemas totalizantes deveriam convergir para a quebra da "leis gerais". Se tudo é história, se tudo é cultura, como podemos dividir e qualificar o que é infinito?

*Arthur Santos da Silva é formado em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente, cursa jornalismo na mesma instituição e trabalha no Olhar Jurídico. Email para contato: arthur.santos.1213@gmail.com

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