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Festival de Cinema é janela para produção audiovisual independente que dialoga com a realidade do Brasil

Da Redação - Marianna Marimon

28 Fev 2014 - 09:22

Foto: Protásio de Moraes

Festival de Cinema é janela para produção audiovisual independente que dialoga com a realidade do Brasil
As luzes nas escadas e a estátua imponente dourada revelam que há algo fora do habitual acontecendo. As pessoas vêm e vão, conversam, riem, debatem, trocam ideias, conhecimentos e principalmente, cultura. Um espaço que reúne de tudo um pouco: diferentes conceitos, ricas experiências, debates eloquentes, e um mergulho no universo do audiovisual brasileiro independente. Mas, é preciso ter um estômago forte, a mente aberta e o coração cheio de vida para passar por todos os filmes, por tantas realidades que batem à porta, e gritam em sua cara que a verdade não está no circuito formal. A verdade crua dos dias de diferentes regiões do Brasil são como um eco, o reflexo do espelho da sociedade que tem a oportunidade de se olhar, se estranhar, para então, perceber que existe muito mais por trás das telas, do que o que é exibido.

Leia também: "A selva de pedra cresceu em mim", diz índio que atuou no filme mais radical sobre extermínio Avaeté - A semente da vingança

Foram dois anos sem essa importante ferramenta de difusão cultural. Dois anos que perderam o dourado, o mato, a cor, a graça, a aura cultural que inunda Cuiabá. O Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, o Cinemato, aconteceu por 18 anos ininterruptamente. E aconteceu por que foi feito na garra, de todos os que se doaram pelo Cinemato e fizeram parte dessa história que apenas contribui para o crescimento de Mato Grosso. Muitos reclamam que durante este hiato, o motor propulsor da produção audiovisual refletiu no trabalho da área no Estado. Muitos filmes deixaram de ser feitos e exibidos.

É recorrente escutarmos o discurso de que em Cuiabá não há opções culturais, que sofremos com o descaso na área. E realmente, sofremos. Não temos tantas atividades gratuitas como metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. E quando tínhamos, não dávamos o devido valor. O baque de dois anos sem o Cinemato foi tamanho, que durante todos os dias de festival, a sala estava cheia. A participação foi a melhor resposta do público que não quer ver execrado de seus anos, uma das poucas oportunidades existentes de dialogar com o resto do país, com as vozes que não podem ser ouvidas há muitos quilômetros de distância.

O problema é que existe sim o que fazer, aonde ir, o que conhecer. São as pessoas que não buscam, não se interessam e menosprezam o cinema brasileiro. Preferem ir aos cinemas dos shoppings centers para assistir aos preciosos blockbusters que arrancam do público em média R$20. Enquanto isso, no anfiteatro da CDL, de quinta (20) até quarta (26), o melhor da produção independente do Brasil estava disposta gratuitamente.

Foto da Time sobre massacre no Paralelo 11 inspirou cena mais chocante de Avaeté
O homenageado desta edição do Cinemato, o cineasta Zelito Viana, um dos últimos grandes nomes do cinema novo brasileiro, que trabalhou com Glauber Rocha em Terra em Transe, fez algumas pontuações relevantes sobre a nossa realidade. Zelito foi agraciado com a homenagem, mas considera que foi o filme Avaeté – A semente da vingança que é o verdadeiro homenageado.

E a análise do audiovisual brasileiro e sua distribuição ganham clareza nas explicações de Zelito, que após a exibição do seu filme na quinta-feira, na noite de abertura, participou do debate sobre a produção na sexta-feira (21).

O cineasta aponta que um dos principais problemas do cinema brasileiro é o preconceito com as produções independentes e destaca um exemplo que pode passar despercebido por muitos que assistem filmes. “O filme brasileiro não possui gênero. Na classificação você só vê: Nacional. Como se os filmes nacionais não se diferissem, como se não houvesse drama, comédia, suspense e fosse tudo uma coisa só. É uma forma de racismo. Não tem como misturar um filme como Avaeté com Pernas pro Ar”, alertou.

Sua avaliação da produção audiovisual no Brasil é que ela está muito boa e grande. “Hoje com qualquer máquina ou celular, pode-se fazer um filme. Está muito fácil. O problema é a dificuldade de distribuição. O enfoque é errado, existe uma burocracia muito grande da Ancine (Agência Nacional de Cinema), e o artista cria, tem que prestar conta e se preocupa com isso”, observou.

Zelito Viana também ressalta que os festivais de cinema que ocorrem em todo o país, são as únicas janelas da produção independente. “Você não se vê na tela desses grandes filmes, e os festivais são importantes para que se conheça a realidade do seu próprio país e poder dialogar com ela”, enfatizou.

A dificuldade vivenciada pelo cinema brasileiro sempre existiu. O Zelito Viana também é um exemplo para isso. Seu filme Avaeté sobre o massacre no Paralelo 11 contra os índios Cinta-Larga demorou sete anos para ser concluído, devido as dificuldades da produção, apoio e financiamento, até porque o longa foi produzido durante a ditadura militar. “Havia um medo terrível de se fazer cinema na ditadura”, relembra Zelito.

Luiz Borges e Zelito Viana. Foto: Protásio de Moraes


Sobre a sua experiência com Avaeté, Zelito explica que você descobre outras possibilidades de convívio social se admitir que existe uma barreira entre o homem branco e os indígenas. “Mas você vê o outro e a diferença, e isso te modifica. Ninguém sai de uma aldeia indígena impunemente, isso muda a sua cabeça. O problema da terra para eles é tão forte que eu não conseguia produzir o filme “Terra dos Índios”. O problema de sobrevivência é tal que passa por cima dos outros. O governo dá esmola para os indígenas quando na verdade é o patrimônio cultural milenar, a língua e os costumes, afinal, qual é o preço disso?”, questiona.

O Cinemato proporciona um verdadeiro choque de realidade no telespectador. E Avaeté ter sido homenageado realmente demonstra o caráter do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, por trazer à tona a questão indígena. O idealizador Luiz Borges ressalta que o festival sempre busca impulsionar o debate sobre as etnias afro e indígena, por serem a raiz do Brasil e de Mato Grosso.

“Pensei que este sonho tinha acabado, mas nós estamos aqui hoje”, confidenciou Borges à plateia ao abrir oficialmente, mais uma sessão que provocaria emoções, sensações, e principalmente, o despertar do inerte cotidiano para abrir os olhos a um mundo até então, desconhecido.

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