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Coluna em forma de conto: Insolação

Da Redação - Arthur Santos da Silva

19 Mai 2014 - 15:48

Foto: Reprodução/Ilustração

Coluna em forma de conto: Insolação
Na Rua Vermelha, no bairro Poção, morava uma moça que por total infelicidade perdera seu marido dois meses após o casamento. Deprimida pelo sopro da morte, ela sentava sempre em frente a sua casa pobre - de janelas em zarcão, quase abandonada - sob as pontadas do sol que marcava como fogo em carne. A jovem senhora escolhera por continuar a viver, pois sabia que esperava uma criança que não teria pai. Ainda assim, preenchida pelo vazio, todos os seus pensamentos ganharam a responsabilidade de moldar as coisas mais formosas, magníficas e desejadas que pudessem ser apresentadas ao seu filho.

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Mulher de pele preta e puta desde que o desejo aparecera, Lucia havia amado seu homem de tal forma que mais nada de belo sabia reconhecer. Nos momentos em que pensava no que iria contar ao seu interior, quando este ganhasse forma de gente, era repreendida por um espasmo grosseiro, quase febril, que fazia repuxar o pescoço. Uma raiva consciente da vida, interrompida, sempre, por uma sensação de torpor trazida pelo soluço das lembranças boas: memorias selecionadas em um momento de imprecisão, mas que serviriam ao objetivo. Foi ali, sentada ao sol de uma tarde quente, que ela resolveu enumerar, em sua cabeça, o que deveria ser dito ao menino quando este nascesse.

— Que seja coisa bonita — proferiu a futura mãe em pregação de voz altiva, trançando os pés enquanto sustentava seu corpo em busca de encosto para as costas magras. Neste momento de inspiração, Lucia encaminhou seu olhar para o horizonte, criando um caminho de recordações capaz de superar o muro velho do vizinho da frente. Seu limite era o céu infinito de luzes azuis, amarelas e brancas. Seguindo o tempo, o suor escorria, o corpo flamejava, mas o mal estar, mesmo que prolongado, passava despercebido.

— Poderei falar do rio — disse a moça em aparente transe — o lugar é bonito e tão importante. Durante muito tempo foi o nosso único caminho. Deu-nos comida, água, alegria. Do rio todo mundo cuida. Um bom lugar para nadar, passar as horas e observar a natureza como ela sempre foi. Este curso de água é quem corta nossa cidade, como uma veia, sinônimo de vida, paisagem respeitada. Ele também conhecerá o centro da cidade. Casarões esplêndidos, conservados e ruas tão limpas. Espaço símbolo de tudo, onde a cidade nasceu e até hoje a história é celebrada. Outra coisa que contarei será o quão belo foi seu pai. Grande homem.

Tudo foi dito em expressão de sorriso. Os lábios rachados produziam sons que agradavam a insensatez. As lembranças eram somente o sonho de um corpo exposto ao sol. Apenas o avesso existia. Mal estar. Lucia não pariu. A criança morreu cinco meses depois do pai ao peso da pasta base usado pela mãe que voltara a ser puta - agora sem prazer - transformando suor e sangue em alegria, nas madrugadas da Rua de Baixo, no mesmo bairro central imaginado antes. Assim, tudo seguiu por inércia, sem consciência, apenas acompanhando um fluxo inexplicável: vida e morte, insolação constante. Manifestações de uma (ir)realidade cotidiana.

PS: A coluna desta semana teve forma de conto por culpa de um encontro com um bom amigo chamado Henrique Pitt. Tempos atrás, conversando e bebendo um café durante o intervalo que separa o almoço do eterno trabalho, discutimos sobre como dar forma e voz as dificuldades da vida, expondo a beleza da tragédia, tratando o que existe e escrevendo história (poesia, ciência). Nossa cidade, por exemplo, carece de manifestações artísticas representativas. Insolação é pequeno, respeitando o “limite” de caracteres de um site e busca apresentar, de relance, o sepulcro onde Cuiabá está presa. Apenas um ponto de vista. Já Henrique é o homem das ressacas: escritor-poeta e vendedor de livros (livreiro, por ser livre), sua última publicação recebe o título Contos Sem Conta. Siga Henrique Pitt pelo Facebook curtindo a página "Escritos com Café".

*Arthur Santos da Silva é formado em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente, cursa jornalismo na mesma instituição e trabalha no Olhar Jurídico. Email para contato: arthur.santos.1213@gmail.com


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