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Sábado, 25 de junho de 2022

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Liu Arruda permanece vivo na memória do povo cuiabano; comediante, ator, diretor, jornalista e professor

Foto: Reprodução

Comadre Nhara, personagem mais famosa de Liu Arruda

Comadre Nhara, personagem mais famosa de Liu Arruda

Com um olhar atento e afiado de quem quer desvendar o mundo, para fazê-lo de palco e assim representar a vida como é. Um homem irreverente, rebelde, inquieto, que passava de um personagem para outro, com a mesma facilidade que alternava as suas ideias. Uma metralhadora de risos, de tiradas, ironias e sacadas geniais. Uma máquina que não parava de pensar, até fechar os olhos pela última vez, e que se foi cedo demais para uma terra que não queria perder um dos seus filhos mais caricatos e icônicos. Elonil de Arruda (1957-1999) é o comediante, jornalista, professor, ator, cantor, diretor, Liu Arruda, que perpetuou para a história, os trejeitos do povo cuiabano, eternizando para sempre, o modo peculiar da fala, da cultura e da vida social.

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Liu Arruda tinha orgulho da cuiabania. Tinha orgulho de ser ‘tchapa e crux’. Em seus personagens fazia questão de sempre trazer à tona o ‘djeitinho cuiabano’. Sua risada ainda ecoa em vídeos e gravações na Internet. Suas piadas ainda são ouvidas e contadas, mesmo após 15 anos de sua partida. Sua estadia foi rápida, mas foi o suficiente para ganhar Cuiabá para nunca mais perder.

  

Um personagem caricato que permanece vivo na memória do povo. Liu continua sendo retratado em reportagens, pesquisas de conclusão de curso, de mestrado, e revive através dos comediantes atuais, que até hoje, utilizam seu trabalho como referência. A jornalista Andhressa Heloiza Sawaris Barbosa faz sua tese de mestrado em cima da leitura de Liu sobre Cuiabá, um diálogo entre o passado e o contemporâneo.

Sua irmã mais velha, Cleuza, conta que Liu sempre foi assim, desde criança, era o ‘palhaço da família’. E relembra alguns de seus causos, como quando pediu para a vizinha posar para fotos, mas com a máquina quebrada, fez a moça se arrumar toda por pura diversão.

De sua cartola surgiu personagens como Comadre Nhara (parceria com o diretor Chico Amorim), sua mais conhecida retratação de uma mulher cuiabana que vivia espiando as pessoas pela janela de casa e fazendo fofoca. Juca era um homem cuiabano inspirado no próprio pai. Sinhá Dedê era uma empregada doméstica. Com peruca loira, Liu se travestia de Ramona, uma garota cuiabana que queria fazer tudo para estar na moda. E Gladstone, um hippie hilário criado pelo artista.

  

“Era cheio de esperanças. Um lutador. Com astral sempre pra cima”, relembra a irmã com os olhos cheios de saudades.

Foi na década de 80, que Liu começou a revolucionar o teatro em Mato Grosso, após voltar do Rio de Janeiro, onde estudava Comunicação Social na Gama Filho. Ao aportar em sua terra (vale ressaltar que era o único cuiabano entre os 10 filhos de Nilson de Arruda e Tanita Marques de Pinho Arruda), firmou parceria com Ivan Belém e Mara Ferraz, entre outros, para criar o primeiro grupo de teatro de rua de Cuiabá, chamado de Gambiarra.

Todas as suas peças, personagens, piadas, surgiam a partir de sua observação como espectador do mundo. Conseguia assimilar cada peculiaridade e trazer aos seus próprios enredos, fazendo uma leitura daquilo que se modificava e do que era culturalmente repassado.

  

Em uma entrevista ao Diário de Cuiabá no ano de sua morte, Liu Arruda contou que sua inspiração vinha do dia a dia. “Então, eu costumo dizer que o cuiabano é perguntador, ele não é fofoqueiro. Ela ficava na janela, você passava com um embrulho, ela (faz a voz): "Hei, aonde você vai? Qué isso que tá na tua mão? Custou quanto? Sua mãe já sabe?" E dá a bunda pra resposta. Quer dizer, ela pergunta cinco coisas, seis e não liga pro que você responde. A Comadre Nhara é essa dona. Aliás, todos os meus personagens, o Juca, a Ramona e tal, são baseados em alguém que eu conheci. Aquela Dedé (faz a voz), "passa aqui, menino", que todo mundo pensa que o nome dela é Dedé, o nome dela é Redugera, era outra mulher que morava vizinha de minha casa, na rua 24 de outubro”, explicou à época.



Entre suas muitas trajetórias, Liu Arruda abriu um bar chamado de Teatro de Varanda, que depois ficou conhecido como Nó de Cachorro. O icônico cuiabano também fez sucesso em novelas como O Campeão da TV Bandeirantes e A Lenda da extinta TV Manchete, além de breve participação em Suave Veneno da Globo.

Foram 25 anos de carreira, em que montou mais de 40 personagens e centenas de apresentações teatrais e lançou o CD “Ocê qué vê, escuta”, com 14 faixas, sete músicas e sete piadas. No dia 24 de outubro de 1999, respirou pela última vez e como o camaleão nato que era se metamorfoseou para a eternidade, onde ainda faz rir e sorrir, toda vez que é evocado pela memória da cidade que tanto reverenciou.





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