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Terça-feira, 18 de junho de 2024

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herói ou vilão?

Depois de casos de trombose, AVC e diminuição da libido, mulheres estão deixando de tomar anticoncepcionais

Foto: Reprodução / Ilustração

Pílula anticoncepcional: vilã ou mocinha?

Pílula anticoncepcional: vilã ou mocinha?

Depois de quase três anos tomando pílula anticoncepcional ininterruptamente, Bianca Poppi decidiu parar para sentir como seu corpo reagiria. Há algum tempo, ela tinha percebido que suas crises de enxaqueca estavam cada vez mais fortes. No primeiro mês que cortou o remédio, a dor diminuiu inacreditavelmente.


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“Primeiramente eu li na bula do remédio que eu comecei a tomar, mas não levei tão a sério. Eu não lembro exatamente quando [soube dos efeitos colaterais], mas provavelmente foram dessas notícias que a gente vê no facebook que comecei a me alertar. Uma amiga minha também teve problema de trombose ligada ao uso do anticoncepcional. Depois, comecei a acompanhar mais sobre o movimento feminista e assuntos ligados ao empoderamento da mulher, que tem debatido bastante sobre a história dos malefícios do remédio”, contou a cuiabana ao Olhar Conceito em uma entrevista via email.



Bianca Poppi deixou de tomar a pílula por causa de uma enxaqueca insuportável (Foto: Arquivo Pessoal)


O caso de Bianca não é isolado. Cresceu nos últimos tempos a discussão sobre os malefícios (ou efeitos colaterais) que os anticoncepcionais causaram em diversas mulheres pelo mundo. Um dos casos mais conhecidos foi o de uma professora que relatou ter tipo trombose após o uso do remédio. Na internet, crescem os textos, alertas e até mesmo grupos que discussão sobre o tema. Um deles, “Vítimas de anticoncepcionais unidas a favor da vida” já tem quase 90 mil seguidores. 

As queixas vão além: depressão, diminuição da libido, casos de acidente vascular cerebral (AVC), cefaléia (dor de cabeça e enxaqueca) e trombose. Milhares de mulheres estão gritando e, até mesmo, virando militantes contra a pílula.
O anticoncepcional surgiu em 1960, e na época foi aclamado como o símbolo da revolução sexual feminina, afinal, elas poderiam agora ter relações sexuais sem o ‘perigo’ de engravidar, e este poder estava todo ao alcance das mãos, em uma pílula.

Afinal, o remédio é uma bomba de hormônios que destrói o corpo feminino ou uma fórmula mágica de libertação?
Segundo a ginecologista e obstetra Bruna Ghetti do Amaral, nem um, nem outro. A resposta está em entender o próprio corpo. “O que a gente vê muito é que a paciente começa a pílula sem critério nenhum, fala ‘ah, comecei porque alguém me disse que era ótimo”. O problema está aí, já que, segundo a médica, cada paciente e cada corpo pode aceitar e se adaptar bem ou mal a um método anticoncepcional.


Dra. Bruna Ghetti do Amaral (Foto: Arquivo Pessoal)

“Pra gente decidir, no consultório médico, qual pílula vai ser iniciada, existe uma coisa que chama critério de elegibilidade. O que é isso? Durante a anamnese, que é a historinha que o médico colhe, você vai perguntar sobre fatores de risco”, explica Dra. Bruna. No entanto, muitas pacientes se queixam de que não são todas as médicas que se preocupam em fazer toda essa análise.

A ginecologista explica que um dos fatores de maior risco, que deve ser levado em conta na escolha da pílula, é a cefaléia (problema enfrentado por Bianca). “A cefaléia é como se fosse o nome genérico, cefaléia é o que a gente chama todas as dores. A enxaqueca é como a gente chama a cefaléia com caráter cíclico, aquela dor que vem e volta muitas vezes, geralmente localizada, e que pode vir associada com fatores visuais, o que a gente chama de aura (neste caso, antes de ter a dor de cabeça, a paciente começa a ficar meio tonta, com a vista embaçada e começa a ver pontinhos brilhantes). Isso é um sinal focal neurológico, que chama muita atenção porque é contra-indicação absoluta de pílula combinada (que tem em sua composição estrogênio e progesterona”. Nestes casos, se a paciente continua tomando a pílula, os riscos de AVC são muito altos.

O problema não existe, por outro lado, com anticoncepcionais que tem em sua composição apenas a progesterona, como é o caso do Implanom (anticoncepcional injetável), o DIU mirena e algumas pílulas. “O problema é que se você for analisar, de cem mulheres, 99 usam pílula combinada, e uma usa implanom ou o DIU, um método que só contenha progesterona. Isso é exceção. E o risco de AVC, infarto agudo do miocárdio, trombose, ele realmente não é tão significativo [neste caso] quanto o método que contém estrogênio”, explica Bruna.

A trombose, um dos efeitos mais conhecidos dos anticoncepcionais, é a formação de um coágulo sanguíneo em uma ou mais veias localizadas da parte inferior do corpo, geralmente nas pernas. Bruna confirma que a pílula pode interferir: “O estrogênio interfere em alguns fatores de coagulação, e por isso aumenta a hipercoagulabilidade e isso teria um risco significativo em pacientes que já tenham outro fator de risco, como por exemplo, fumantes, acima de 35 anos, pacientes que tem história de trombose prévia, que tem diabetes ou hipertensão, (mesmo as que estão em tratamento)”.

Outro efeito muito comentado e temido pelas mulheres é o da diminuição da libido. Neste caso, mesmo os métodos que contém apenas progesterona realmente têm essa consequência. “O efeito da pílula anticoncepcional realmente é inibir o pico de um hormônio que chama LH, que é o hormônio que faz você ovular. Só que o que têm muita associação com o libido sexual é justamente as variações hormonais que acontecem ao longo de um ciclo menstrual. A partir do momento que você usa o anticoncepcional, faz um bloqueio nestes picos e interfere sim na libido sexual”, afirma a ginecologista. Atualmente, a indústria farmacológica até tenta produzir hormônios mais parecidos com o ciclo natural da mulher, mas fazer algo idêntico é impossível.

Outros métodos

Para quem prefere não correr todos estes riscos, a ginecologista explica que são muitos os métodos anticoncepcionais existentes, e que eles são cada vez mais procurados pelas pacientes que lêem sobre os efeitos da pílula. Dentre eles, está o ‘billings’, ou método de análise do muco cervical. “É aquele método que a paciente faz uma observação sobre o muco cervical, a secreção vaginal. (...) Quando chega perto da ovulação, a secreção vaginal fica mais aumentada, como uma clara de ovo, e espessa. E então, é só evitar ter relações nesta época. É um método natural comportamental”.

Assim como ele, também são usadas a famosa ‘tabelinha’ e cintotérmico (em que a paciente mede a temperatura corporal, que aumenta nos dias de ovulação). Todos eles, no entanto, têm uma eficácia significantemente menor do que a pílula. Outra alternativa seria o uso de camisinha (que, dentre todos estes, é também a única forma de prevenir doenças sexualmente transmissíveis).

Por outro lado

Existem algumas mulheres, no entanto, que não conseguem ficar sem os anticoncepcionais porque eles podem ser usados, muitas vezes, como tratamento. Este é o caso de Sara Castilho, 27.

Sara também leu e ouviu falar bastante sobre os efeitos colaterais do anticoncepcional e, depois de mais de dez anos tomando a pílula (que começou a ingerir por causa de seu tratamento para ovários policísticos), decidiu parar. “Como eu estava muito assustada com os relatos e com a exposição da falta de sensibilidade dos médicos, decidi parar por conta própria - o que hoje não recomendo”, conta.


Sara não se adaptou a ficar sem pílula (Foto: Arquivo Pessoal)

A história, no entanto, não foi simples. Sara teve metrorragia (sangramento excessivo irregular) em 2013, enquanto ainda tomava pílula, e se assustou muito com o que aconteceu. “Realmente, o médico constou que eu tive metrorragia, no entanto disse que muito provavelmente foi por causas hormonais. A partir daí eu comecei a ler muito sobre o uso dos anticoncepcionais e os seus “malefícios”. Procurei novas formas de tratar o meu corpo, e foi aí que comecei a ler bastante textos relacionados aos ensinamentos do Sagrado Feminino e perceber que a forma que eu estava tratando o meu útero não podia ser tão correta assim, pois ele estava reagindo negativamente a isso”.

Só que sem pílula, a situação ficou muito pior. “Fiquei sete meses sem tomar o anticoncepcional e só voltei com ele porque não aguentei os efeitos. Tive séries de queda de pressão, dor de cabeça, desmaio, cólicas horríveis, muita acne e pêlos no rosto. Quando os sintomas eram só estéticos, eu segurava as pontas, pois comecei a cuidar mais da alimentação. As cólicas, eu optei por fazer mais uso dos chás. Mas quando comecei a ter queda de pressão e desmaios, procurei um médico. Novamente, fiz todos os exames e não deu nada. Meu útero estava bem, meus ovários sem cistos e já até tinha voltado a ovular normalmente. Nos exames de hormônios, deu uma alteração na quantidade de testosterona”.

O aumento da testosterona é, segundo a Dra. Bruna, a causa dos ovários policísticos. “Essa produção pode ser aumentada na supra-renal, no ovário ou na gordura, por isso que ela tem associação com a obesidade. Ela produz um excesso de hormônio masculino, que no ovário faz com que ela não ovule todo mês. Por isso que quando você olha o ovário, você vê múltiplos pontinhos. São os óvulos que não foram liberados. Os cistos do ovário são uma consequência dessa alteração hormonal”, explica. O tratamento para esta síndrome é feito com o anticoncepcional antiandrogênico, anti-hormônio masculino.

Além das pacientes com esta síndrome, a pílula pode ajudar também as adolescentes no início do ciclo menstrual: “Na verdade a pílula tem inúmeros benefícios. Ela diminui significativamente o risco de câncer de ovário, o risco de câncer de endométrio. (...) [e ela] é muitas vezes usada no tratamento de dismenorréia, que é a cólica menstrual e também no controle de ciclo, da quantidade. (...) Nos primeiros dois anos que você menstrua, a menstruação é muito irregular, e às vezes é pra mais. Então nesse período, às vezes, a gente tem irregularidades tão significativas que, realmente, você tem que tratar essa adolescente porque ela pode vir a ter uma anemia, uma complicação com esse ciclo aumentado.”, conta Dra. Bruna.

Por fim, não há fórmula mágica. Para Sara, o melhor foi voltar a tomar a pílula. Para Bianca, parar de tomá-la foi a solução perfeita. Apesar da dificuldade em encontrar um médico que analise todas as possibilidades, este seria o caminho, além de, é claro, conhecer a si mesma: “A verdade é que nós aprendemos somente a tomar uma pílula, todo santo dia, no mesmo horário, mas não aprendemos a conhecer o nosso corpo. Eu nunca escutei do meu ginecologista ou dos meus pais nada além daquele folhetim de ensino médio sobre “o corpo humano e os aparelhos reprodutores””, finaliza Sara.
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